Em Caxinas a morte foi hoje batida por seis a zero, num desafio emocionante transmitido em direto pela televisão. Primeiro um naufrágio, depois sessenta horas perdidos no mar, seis vidas à deriva no capricho das àguas, numa pequena balsa, nas mãos de Deus. E depois o fim, mas feliz. Desta vez feliz. «'O Senhor chamou todos para irem para a beira d'Ele', foi logo o que pensámos», diz uma das mulheres de Caxinas na hora do milagre. a fazer recordar outras mulheres nas palavras de Chico Buarque... 'mirem e sigam o exemplo dessas mulheres de Atenas, sofrem pelos seus maridos, bravos guerreiros de Atenas'... Com voz tremida diz outra, já no autocarro de regresso a casa e com o marido ao lado: «Obrigado nosso Senhor que me destes o meu homem de volta, querido Senhor..» É Portugal profundo, o tal país, o nosso país que ajoelha para celebrar a gratidão e vai tangendo o seu fado mais alegre, tocado numa das suas cordas mais sensíveis: a alma de homens do mar. Nada mais nosso, marinheiro, nada mais português.
Portugal acompanhou pela televisão a tragédia que podia ter acontecido. Foi assim que fomos aos poucos tomando consciência da imensa dádiva destas seis vidas, que fomos passando de leve pela noção da possibilidade milagrosa. De como poderia não ter sido assim, como podia ter acabado diferente, mais igual ao que é costume, esta história tantas vezes já ouvida e cantada em português. Não vás ao mar, Toino... Foi um barco de pesca que naufragou e desapareceu nas águas, e com ele desapareceram os seus pescadores, seis homens... um dia e nada, dois dias e nada, três dias e de repente, hoje a meio da manhã, depois de sessenta horas à deriva, no mar e na esperança, os seis homens foram encontrados e resgatados com vida. Fim. E um final feliz, para variar.
Portugal tem por isso razões para sorrir, hoje. Para rir e para chorar de alegria e para cantar o seu fado, agora de esperança renovada nessa benção divina que nos protege quando partimos para o mar, queremos muito acreditar. Hoje a coisa correu bem, muito bem mesmo. É que foi um dia e nada, dois dias e nada, três dias e de repente, hoje a meio da manhã, depois de sessenta horas à deriva, no mar e na esperança, os nossos seis pescadores foram encontrados e resgatados com vida, o país acompanhou pela televisão a tragédia que podia ter acontecido e teve a prova de vida dos nossos homens em direto e pela voz de um deles, o primeiro pescador a ser ouvido sobre o que aconteceu. 'Estamos todos vivinhos', disse ele, emocionado. E eu ouvi com igual emoção, senti o alívio genuíno na voz daquele homem resgatado à morte dos homens do mar, fixei a expressão do seu rosto que era o rosto do naufrágio do 'Virgem do Sameiro', pescadores de Caxinas, gente da minha terra. Este chamava-se Tereskov Yadyslav, os outros não fixei. Ligo pouco a nomes se há vidas em risco, mas sinceramente prefiro Tòinos. São mais fado.
N'A Barbearia pode e deve ler-se esta experiência do Luís Novaes Tito, contada pelo próprio com um rigor factual constatável, logo incontestável. O post em questão data de 26 de Outubro, tem volta à carga a 7 de Novembro e até hoje nada, nem uma carta, nem um postal, nem uma explicação, nem uma solução. Com o Natal à porta torna-se cada vez mais uma leitura oportuna, para não dizer obrigatória, especialmente aconselhada aos incautos que somos todos nós. E um aviso importante a pedir consequência para que a expressão 'defesa do consumidor' queira de facto dizer alguma coisa e não passe de um mero tique de modernidade no marketing sempre igual do vale tudo.
Notícia:
«Assunção Esteves não tem ordenado pois optou por reforma de 7 mil euros»
Esta notícia é notícia.
Esta notícia reporta informação que tem relevância, importância e oportunidade.
Esta notícia reporta factos para lá do facto que faz a notícia e todos eles se justificam, à luz de qualquer critério editorial de qualquer editor competente, que sejam levados ao conhecimento do público.
Esta notícia está redigida e apresentada de forma correta, objectiva, informativa.
É uma notícia que é o que é, é o que diz, vale o que vale.
Tudo nela é verdade, tudo o que reporta é correto e legal.
Esta notícia é apenas mais uma notícia.
Porque nos choca, então?
O que tanto poderá indignar e revoltar Portugal quando ler esta notícia?
Confirma-se: hoje é uma sexta feira dezoito e não treze, por isso atenção, não vale gritar azar às notícias do dia que não cola nesta circunstância e que também dificilmente colaria noutra circunstância qualquer, convenhamos. Assim, o grosso da informação que hoje resume a actualidade das escandaleiras várias que fazem o grande escândalo que somos por estes dias não é mais que Portugal a ser Portugal - essa sim, a nossa crise maior. Só que desta vez é um Portugal particularmente sofrido e magoado quem reage, um país zangado e dorido, troikado e mal pago, sedento de uma justiça popular que fosse passível de ser aplicada a eito e num estilo doa a quem doer' desde que num 'deles' e não apenas em mais um dos do costume. Estes alegadamente culpados que hoje vão a julgamento servem por isso muito bem para começar, na rua o que se ouve é já que este e aquele têm pinta de culpado e tudo, o que sempre ajuda, melhor ainda, mas se fossem outros também serviriam, teriam que servir que a gente já não aguenta mais tanto agravo sem resposta, tanta penalização sem culpa correspondente e ainda esta espécie de greve de lixo que sobra sempre para os de sempre, hoje como ontem, hoje como sempre. O facto é que Portugal está a rebentar de indignação debaixo da tampa, que tarda a saltar, felizmente. Felizmente? Bom, ter sido um dos 'eles' veio mesmo a calhar, a uns e a outros, cai que nem ginjas por cair com tamanho estrondo, o que já alivia parte da raiva de uns e sempre desvia um pouco o olhar posto fixo nos outros, com uma folga tão mínima que mal se dá pela sua existência no fragor da contenda. O que nos traz de regresso às notícias do dia.
Duarte Lima é hoje o Carlos Cruz de serviço para os lados da Gomes Freire e do Campus de Justiça, a ele ninguém tira o prime time da atenção nacional em todos os telejornais. Ninguém quer perder os pormenores mais gulosos, viste o carro da PJ? E a cara dele, viste? Então e a casa na Quinta do Lago, só aqueles portões, aquele jardim... Seis milhões de euros, ouvi eu, vê lá tu! É certo que ainda faltam falar o Cláudio Ramos e a Cinha Jardim, falta saber o que pensam a Maya, a Júlia e o Goucha, naturalmente, mas mesmo assim eu arrisco acreditar que o ex-deputado seja o culpado preferido dos portugueses, que juntam Rosalina e BPN no mesmo embrulho para não perder tempo com ninharias e ver a coisa resolvida. Mas hoje em Aveiro há mais, mais apelidos sonantes naqueles bancos de tribunal e ainda um brinde, promessa de melhor à espreita no fel da nação; pois que se é certo que José Penedo e Manuel Godinho serão as figuras do dia em tribunal, não é menos verdade que as escutas feitas a José Sócrates são simultâneamente cenoura de engodo e cereja de sobremesa, se calhar cair deste bolo repleto de fruta grada e suculenta, alguma podre para uns por isto, para outros por aquilo e para todos porque outros já nos foram ao bolso neste Natal deixando garantia de que váo passar a aparecer mais vezes e com factura em dobro - tudo regular, legal e habitual. Alguém tem que pagar por tanto sofrimento e tanto sacrifício. E quantos mais melhor, caramba, mais alivia. Zangados estamos todos, os que protestam e gritam e os que pagam e calam, por uma questão de educação, afinal há que ter maneiras, é preciso é calma, ou por pura cobardia, o que é preciso é calma, agora e sempre haja respeito. Eles é que mandam, a gente é mais para obedecer e comentar no café. E tudo passa, vão ver, tudo passará. No fundo cá se vai andando na graça de Deus, lá vai dando para o tabaco e para regar a salada, tudo se cria, melhores tempos virão. O que é preciso é calma, tudo se resolve.
Eu é que ando para aqui a pensar há uns tempos, mais ou menos desde a recente coelhada fatal, a dos passos da crise, aquela dos impostos e dos subsídios e das borlas laborais e da dignidade nacional... É mais ou menos daí para cá que se me instalou esta dúvida histórica para a qual a minha ignorância não tem resposta que me elucide de vez. Ora digam-me, no antigamente, no tempo do pau e espada ou antes ou depois, assim exactamente como é que começavam as revoluções? Quando é que o povo se atrevia ao 'não'? Quanto aguentava sofrer até explodir, no limite do limite dos seus limites? Quanto era preciso engolir e sofrer até o povo rebentar, já feito em pedaços? Quanto tempo, mais ou menos? Quanta humilhação, já agora? Ignorância, é o que eu digo, ou eu próprio saberia a resposta, quem sabe senti-la-ia até, já, na pele. Lá diz o outro, pendurado pelos suspensórios num armazém até ao Verão. Pois, se eu tivesse estudado...
Portugal perdeu com a Dinamarca, ontem à noite. Falo da selecção portuguesa, da equipa que nos representa a todos e à alma lusitana, juntos a suar aquela camisola que nos destaca no mappa mundi do futebol de alta competição. Destaque de equipa, naturalmente, já que em termos individuais é o que se sabe, não são poucos os portugueses mundialmente reconhecidos como excepcionais na prática deste desporto que dizem rei e alucina milhões. São os nossos craques, as nossas estrelas emigrantes que ontem passaram cá por casa e vestiram as cores nacionais mas nem por isso nos salvaram dos dois quase secos que estávamos a embuchar até que um pingo de Ronaldo marcou a diferença com uma gota de génio, um golaço feito lágrima solitária sobre o que podia ter sido mas não foi, não chegou a ser, temos pena. Não aconteceu. E assim Portugal perdeu, dirão os títulos do que ficar escrito. Entretanto o Presidente da República promulgou a redução das compensações por despedimento para novos contratos de trabalho, o Primeiro Ministro prepara o país para o Orçamento de Estado para 2012, o Governo prepara novos cortes salariais para a função pública e é também anunciada a exclusão das despesas com a habitação nas deduções do IRS, entre muitas outras medidas de uma austeridade justificada pelo rigor e contenção que fomos todos forçados a assumir como obrigação nacional, face às circunstâncias do momento. Enfim, quase todos, que hoje também é notícia a incrível descoberta da remuneração ilegal de dois destacados membros deste Governo com 1.150 euros mensais de subsídio de alojamento, apesar de serem ambos possuidores de casa própria na capital. Ou seja, no geral é mais do mesmo: é Portugal a perder. Mas sabem, já nem é a questão dos números da derrota, ou das derrotas, que merece sequer a tinta do que aqui escrevo na ressaca de tanta marretada. A questão é outra, digo eu. Qual, alguém tem ideia?
... vai quase meado, Outubro.
... hoje começa Setembro.
«Uma explosão de uma botija de gás num café em Estoi, no Algarve, deixou o proprietário do café Micks, de 50 anos, com queimaduras de 1.º e 2.º graus. A vítima foi transportada para o Hospital de Faro.»
... é o título não de um novo programa dos 'Gato Fedorento' (sempre achei o nome do grupo... hum... sublime) mas sim deste post que faz o que faz falta, que é avisar a malta, naturalmente. De quê? Bem, que durante este mês de Agosto o 7Vidas vai a banhos, enfim, mais ou menos, vai de passeio atrás do sol, digamos. Objectivamente a notícia é que a produção cá da casa entra no modo 'Verão', com tudo o que isso implica e que eu não faço ideia o que seja, aqui entre nós. Diz que é uma espécie de férias, pronto, foi o que me ocorreu... mas eu vou aparecendo, hei-de ir passando e dizendo umas coisitas, o tal modo 'Verão'.
Que verão, prometo.
(nota do autor: PiiiiPiiiiiiiiiiiiiiiiii)
onde a ONU decretou que duas províncias do sul são zonas de fome.
... temos o cão que mordeu o tubarão. Inacreditável? Sem dúvida, mas uma realidade registada em video e tudo. Só visto, aqui.
nota pós publicação: É de registar que o tubarão foi mordido mas sobreviveu. E mais, e melhor: o tubarão andava na blogosfera quando este post foi publicado. É verdade sim senhor. E tal como temos o video a provar a dentada, temos também prova do tubarão na bloga pelo rasto que deixou aqui mesmo, nos comentários a este post... três minutos após publicação. Irra, mordido mas atento!
Bem bom que este é amigo... welcome back, shark!
Foi há bem pouco tempo que se falou aqui dos Dias Mundiais deste mundo e da imensa hipocrisia que, regra geral, acompanha esse tipo de efeméride. É que vem o dia mundial da árvore e toda a gente ama a natureza, vem o dia mundial da SIDA e toda a gente esquece o preconceito, vem o dia mundial da música e pótchim tchipum pótchim, vira o disco e toca o mesmo. E eu na minha, a ver a banda passar e o povo a bater palminhas ao que se recorda hoje para logo esquecer amanhã. E hoje calha a vez ao Dia Mundial do Orgasmo, os senhores acreditam? Se não acreditarem eu compreendo, afinal orgasmos e mentiras confundem-se tantas vezes e há tanto tempo que haverá muito boa gente que certamente reconhecerá o nome mas só de ouvir falar... porque falar sim, fala-se muito. Nos dias que correm o que sobra é informação sobre aquilo que a prática não reconhece, talvez por falta de prática, na maioria dos casos. Veja-se o caso do famoso ponto G, por exemplo, que ainda recentemente aprendemos(?) situar-se 'na parede de trás da vagina, a cerca de três centímetros adentro' do orifício vaginal e que não é um ponto mas sim uma 'zona circular com o diâmetro de uma moeda de vinte cêntimos'... Pfff, e então? Será uma informação preciosa(?) para quem saiba o que fazer com ela, ou pelo menos para quem queira aprender mais sobre como lidar com esse eterno mistério que é o universo feminino, melhorando assim substancialmente as ralações entre lençóis, talvez. Temos então assim que informação não falta, ou seja, que não será por falta de se falar no assunto que eles não aprendem de uma vez por todas a lidar com elas... aliás é tanta a informação que anda no ar que agora até existe um Dia Mundial do Orgasmo, para que pelo menos uma vez por ano as pobres possam vislumbrar o funcionário da panificação tradicionalmente desaparecido em combate.
E é hoje, pessoal, é hoje. É hoje!!!
A notícia foi notícia há quinze dias atrás, pelo que fresca já não será, propriamente. Mas continua a ser um bom exemplo do grande mistério nacional que é esta extraordinária capacidade que o meu povo tem de engolir toda a boga que lhe é impingida como ova do mais fino esturjão e ainda bater palmas no final do embuste, por entre arrotinhos de gratidão. Reza então assim, esta notícia que é um teste, um desafio à credulidade do indígena: «Uma sondagem da Aximage revela que 45% dos inquiridos considera boa a decisão do Governo em aplicar um imposto extraordinário sobre o subsídio de Natal». Dá para acreditar? A mim custa-me, confesso... e não, não acredito, nada a fazer. Mas e você, que me diz? Será possível, Portugal?
É o mal dos títulos longos, sempre achei. Bastava «Passos empenhado» e teríamos finalmente um primeiro ministro com quem o povo se identificava na perfeição. Assim...pfff.
Este senhor da fotografia é Mario Borghezio, um eurodeputado eleito pela Liga Norte, partido aliado de Silvio Berlusconi, que hoje disse simpatizar com algumas das ideias do terrorista norueguês Anders Breivik, em declarações feitas a uma rádio italiana. "Algumas das ideias que exprime são boas, retirando a violência, e algumas delas são excelentes", afirmou. Assim como quem diz que gosta muito de pastéis de bacalhau, retirando o bacalhau, naturalmente. Ou de gemadas, retirando os ovos, claro.
A acreditar no senhor da fotografia ficará tudo muito bom, talvez excelente. Eu não sei, será questão de gosto mas dou por mim a achar que o senhor da fotografia ficou muito mal na fotografia quando abriu a boca para a opinião alarve. Para a opinião que é alarve na minha opinião, atenção, haverá quem ache que sim, haverá quem ache que não... e bastaria embalar um nadita no raciocínio e de repente todo o episódio se deixaria resumir a este opinar desconforme, apenas mais um diz-que-disse da política partidária, por acaso italiana. Podia ser assim. E assim será sem dúvida para todos aqueles que vão depreciar o desconchavo de Mario Borghezio e arrumar rapidamente o episódio na folha do esquecimento, por conveniência política, má fé ou estupidez. "Algumas das ideias que exprime são boas, retirando a violência, e algumas delas são excelentes"? Vale o que vale, apenas mais um sound byte entre tantos outros, nada mais. Nada mais?
Podia ser assim, de facto, podia ser só isto e nada mais, e tudo na vida podia ser bonito e cor de rosa como seria o mundo de Alice sem a Rainha de Copas. Podia, mas não é. E só o facto do senhor Borghezio ter posto Anders Breivik na fotografia e ainda ter oferecido um enquadramento político-aceitável para as opiniões expressas no seu manifesto parece-me deveras preocupante, confesso. Em termos sociais, se é que me faço entender. Não por consequência factual imediata, que imagino nula ou quase... e o senhor Borghezio parece-me perfeitamente capaz de dizer mais disparates que façam esquecer este em particular, também por aí não vejo problema de maior. Onde eu vejo problema sério é num eventual efeito de libertação prolongada que esta afirmação possa ter para emprestar uma falsa decência ao acordo tácito de políticos em aceitar um diálogo político que traga de reserva um recurso à bomba, opcional e condenado apenas em princípio. Mas aceite, enfim. Publicitar simpatia pessoal e concordância ideológica com as opiniões de Anders Breivik, mesmo numa utópica versão não violenta, é introduzir na opinião pública aquilo que pode soar como oferta de legitimidade e aceitação aos ouvidos de todos os potenciais Anders Breivik deste mundo louco em que vivemos, conforme prova a primeira página de qualquer jornal norueguês dos últimos dias. E é isso que me parece grave no dislate proferido por este Mario Borghezio, o senhor eurodeputado e retratado imbecil desta fotografia. Só isso, nada mais.
Sim, foi por mim que gritei.
declamei,
atirei frases em volta.
...cego de angústia e de revolta.
Foi em meu nome que fiz,
a carvão, a sangue, a giz,
sátiras e epigramas nas paredes
que não vi serem necessárias e vós vedes.
Foi quando compreendi
que nada me dariam do infinito que pedi,
que ergui mais alto o meu grito
e pedi mais infinito!
Eu, o meu eu rico de baixas e grandezas,
eis a razão das épi trági-cómicas empresas
que, sem rumo,
levantei com sarcasmo, sonho, fumo...
O que buscava
era, como qualquer, ter o que desejava.
febres de Mais. ânsias de Altura e Abismo,
tinham raízes banalíssimas de egoísmo.
Que só por me ser vedado
sair deste meu ser formal e condenado,
erigi contra os céus o meu imenso Engano
de tentar o ultra-humano, eu que sou tão humano!
Senhor meu Deus em que não creio!
Nu a teus pés, abro o meu seio
procurei fugir de mim,
mas sei que sou meu exclusivo fim.
Sofro, assim, pelo que sou,
sofro por este chão que aos pés se me pegou,
sofro por não poder fugir.
sofro por ter prazer em me acusar e me exibir!
Senhor meu Deus em que não creio, porque és minha criação!
(Deus, para mim, sou eu chegado à perfeição...)
Senhor dá-me o poder de estar calado,
quieto, maniatado, iluminado.
Se os gestos e as palavras que sonhei,
nunca os usei nem usarei,
se nada do que levo a efeito vale,
que eu me não mova! que eu não fale!
Ah! também sei que, trabalhando só por mim,
era por um de nós. E assim,
neste meu vão assalto a nem sei que felicidade,
lutava um homem pela humanidade.
Mas o meu sonho megalómano é maior
do que a própria imensa dor
de compreender como é egoísta
a minha máxima conquista...
Senhor! que nunca mais meus versos ávidos e impuros
me rasguem! e meus lábios cerrarão como dois muros,
e o meu Silêncio, como incenso, atingir-te-á,
e sobre mim de novo descerá...
Sim, descerá da tua mão compadecida,
meu Deus em que não creio! e porá fim à minha vida.
e uma terra sem flor e uma pedra sem nome
saciarão a minha fome.
José Régio (Poema do Silêncio)
Fica entretanto por saber se houve vencedor deste mórbido passatempo, «Predict Amy's dead and win a Ipod touch», on line desde Maio de 2007, pelo menos, e que oferecia um Ipod a quem acertasse no dia e hora da morte de Amy Winehouse, algo dado já na altura como sendo para muito breve face aos indicadores de comportamento da cantora britânica: «We’ll all have a date with our maker someday, but Amy Winehouse just can’t seem to wait.», explicam os criadores deste concurso imbecil. O pequeno texto introdutório vai ainda mais longe na ironia mordaz, «for some reason Amy has landed in a self-destruction derby. It is even rumoured that Amy and Pete are keeping the Colombian economy going», para terminar com esta pérola, absolutamente imbatível: «Guess her final breath and be crowned Mr. Or Mrs. Death» Se por um lado a página vale o que vale enquanto passatempo, tem por outro lado uma impressionante sequência fotográfica com instantâneos da cantora que nos ajudam a perceber o caminho pisado pela jovem até ao trágico desfecho de ontem. Sem palavras, só a mágoa em imagens.
Foi estrela cintilante na constelação da pop mundial. Rara. Excessiva. Brilhante. Amy Winehouse apagou-se ontem, aos 27 anos de idade, a mesma idade fatídica com que morreram Kurt Cobain, Jim Morrison, Brian Jones, Jimmy Hendrix e Janis Joplin, cinco nomes lendários para cinco vidas excessivas, cinco existências igualmente marcadas pela genialidade e pela tragédia. Pelo abuso do álcool e das drogas, também. E pela morte precoce, após uns escassos 27 anos de vida e depois de maravilharem o mundo com o seu talento, imorredouro nos registos que nos deixaram. Amy Winehouse foi como eles uma estrela maior, é certo, mas uma estrela sempre cadente, até mesmo no auge. E mais, e pior: tão progressivamente decadente (e a uma tal velocidade) que a notícia do seu fim acaba por pouco espantar, como se um final trágico fosse o único culminar aceitável na performance desta artista... e a dor da separação um encanto para saborear, entre os fãs.
Em 2007 Amy Winehouse recebia seis indicações para os Grammy's, incluindo as quatro principais (Revelação do Ano, Álbum do Ano, Gravação do Ano e Música do Ano), se bem se recordam. Acabou rainha da noite, contemplada com cinco estatuetas numa cerimónia realizada em Los Angeles e a que Amy não pôde assistir por lhe ter sido recusado o visto de entrada nos EUA, em função do seu comportamento habitualmente escandaloso. Foi por essa altura que escrevi este texto, de onde retirei agora estas palavras dedicadas à estrela da noite, estrela maior, extravagante, genial.
A mesma estrela que ontem, de tão cadente, caiu.
"Aos ouvidos de Amy sopram agora as mesmas vozes que sempre se encontram ao redor de um vencedor, os que dizem só o que sabem ser do agrado de quem ouve, sem risco de contraditório. Take it for granted, dir-lhe-ão. E ela vai gostar de ouvir, pelo que if they want to send me for rehab I'll say no, no, no... Em volta de uma Amy já em desequilíbrio estão agora os pesos mortos, rapaziada do elogio, pessoal da lingua no coiso, mestres da graxa e sugadores de luxo em qualquer palhinha que se ponha a jeito. O peso de todos, num equilíbrio já de si precário, fará cair o chão e desabar o tecto do sucesso. Depois pôr-se-ão a milhas. E só na solidão do abandono das sanguessugas e dos cínicos, dos lacaios e dos bobos, dos falsos e dos merdas, é que Amy Winehouse vai encontrar um dia o seu caminho da glória. Ou não, quem sabe fica pelo caminho, como tantos outros fenómenos que não se souberam gerir enquanto tal. Que só deram pelo valor do seu talento quando já toda a gente tinha secado as lágrimas por este se ter suicidado. Será uma pena se assim for também com esta garota, pouco mais, brinquedo nas mãos das bruxas que batem palmas ao petisco da rentável novidade. E que querem tanto rehab como ela, alucinada. Amy Winehouse sem drogas? Podia até ser engraçado, mas não vendia. Amy é mais que a pessoa que canta, é o boneco escandaloso que pisca o olho à moda, que é quem paga as contas. Do encanto do espectáculo faz parte a sua própria degradação, que o público paga para ver como quem vai ao circo ver o leão comer o prior, neste moderno freak-show global.
Amy Winehouse é um fenómeno da pop, uma genuína alma de artista perdida numa embalagem de sofrimento e desespero. Uma voz de timbre único, uma sensibilidade selvagem e um ritmo original, próprio, inventado, criado, seu de berço. Uma eleita, inocente dessa culpa. O que ela tem que a faz genial ela não domina, não compreende, não vê e não valoriza. Para ela, tal como está, a felicidade ainda mora no nevoeiro e o amanhã não existe. Aos 24 anos, Amy segue em rota de colisão com o seu próprio futuro, embalada na asneira por não conseguir chegar com o pé ao travão da maturidade. A noite de ontem, ao carregá-la com mais cinco pesos de estrelato, só chamou mais gente para ajudar a empurrar a tragédia. Só deu velocidade ao inevitável, suspeito. Porque o espectáculo, esse, tem que continuar sempre, custe o que custar. E custe quem custar no caminho."
Tenho (tive sempre) uma predilecção especial por este poema, que escrevi há mais de vinte anos para um instrumental de guitarra portuguesa da autoria do meu amigo Paulo Jorge Santos, guitarrista de eleição e meu co-autor neste tema que viria a fazer parte do CD 'Vidas', editado pela Ovação em 2004 e gravado com a participação à viola de outro grande amigo e instrumentista de topo, o meu queridíssimo Carlos Manuel Proença.
Deixo-vos as palavras, para saborear.
Hoje, meu amor, esquece o meu nome
não me esperes mais que eu vou para a rua
fugir de mim, beber, gritar à Lua
brincar de faz-de-conta até poder
Hoje eu digo a todos os meus medos
que em noites de festa eu sou perfeito
e deixo em casa as mágoas e os segredos
que pesam toneladas no meu peito
Sinto um recado no ar:
«que os ventos da loucura te protejam,
que os sonhos sejam sonhos que se vejam,
que vidas pequeninas temos nós!»
Sigo a voz que sopra aos meus ouvidos
os mais belos versos que há memória
e deixo-me ir no embalo dos sentidos
sonhar dias de sol, noites de glória.
Sempre iguais os dias continuam
mal acaba a noite lá vou eu
dizer-te que a manhã escondeu a Lua
e a voz dos versos desapareceu
o sonho que eu sonhava amanheceu
e a minha fantasia adormeceu.
Esta ideia de cada português enviar um saco de lixo à Moody's é bem a expressão do mais puro requinte lusitano, vejamos: em vez de os mandar à merda mandamos-lhes a dita e eles que façam o que quiserem...
Ah, como é linda a nacional subtileza!
Vale a pena ver este video realizado por uma dupla de criativos da filial portuguesa da agência de publicidade BBDO, Pedro e Hugo, que decidiram enviar um saco de lixo para a sede da Moody's em Boston, Massachusetts, mais exactamente no nº 175 da Federal Street.
A acompanhar o lixo nacional a rapaziada da BBDO fez questão de enviar também o video que documenta todas as etapas desta original iniciativa e cuja banda sonora, qual cereja no bolo, elimina quaisquer dúvidas que pudessem existir quanto ao espírito que presidiu a esta criação promocional: falo da música de Cee Lo Green chamada 'Fuck You', um título que singela e delicadamente exprime na perfeição o sentimento de todo um país agradecido. Para completar a encomenda dirigida à agencia de rating, a dupla de criativos juntou nesta 'carta com um pedaço de Portugal como ele é visto pela Moody's' a mensagem que aparece na imagem final do video: «Só para que saibam que estamos a trabalhar para elevar o nosso rating». Para acabar em beleza, Pedro e Hugo deixam o convite a todos os portugueses para que lhes sigam o exemplo, com instruções precisas em http://lixoparaamoodys.com/.
Os senhores que me dizem, vamos a isto?
«Passos Coelho decidiu acabar com as regalias nos ministérios. O primeiro-ministro quer que seja o Governo a dar o exemplo e vai cortar a eito nas despesas dos vários gabinetes. Assim, proibiu os ministros e todos os membros do Governo de usarem viaturas oficiais ao fim-de-semana ou nas deslocações pessoais. Os onze ministros de Passos Coelho, bem como todos os outros membros dos respectivos gabinetes, deixam também de ter direito ao uso de cartão de crédito para despesas de representação. No âmbito da política de contenção e de austeridade imposta no interior do próprio Governo, Passos Coelho deu também orientações expressas para limitar as nomeações ao estritamente necessários e estabelece limites salariais para os requisitados. Segundo as novas regras, um requisitado que opte por manter o salário de origem só poderá fazê-lo se este não ultrapassar em mais de 50% o vencimento correspondente ao cargo que vai ocupar. Qualquer excepção pontual terá obrigatoriamente de ser autorizada pelo próprio primeiro-ministro, estando os ministros inibidos de tal poder.»
É mais uma estória de doença e bizarria, se quisermos ver assim. Porque no facto é tão somente mais um crime, é certo que particularmente repulsivo na intenção canalha mas depois estupidamente desastrado na execução e no final apenas porco. Falo deste episódio, noticiado naturalmente pelo Correio da Manhã que nos conta a triste história de Marco M., 29 anos, um predador sexual que atacava em cemitérios e que anteontem foi finalmente detido pela PJ de Vila Real em Sande, Lamego, onde residia.
É sabido que Marco atacava pelo menos desde Abril de 2009, data da primeira queixa apresentada e a que se seguiram mais quatro, a última das quais em Março deste ano. Todos os dados apurados são extremamente parecidos no relato da execução demente. Uma das vítimas, uma senhora de 70 anos de idade que visitava o cemitério de Corvelinhos, em Peso da Régua, conta o que aconteceu quando lhe surgiu pela frente aquele rapaz nu da cintura para baixo e de sexo erecto vindo na sua direcção. «Estive a arranjar a campa do meu filho e quando ia a sair vi aquele rapaz. Atirou-me ao chão, tentou tocar-me mas magoou-se e consegui fugir nesse instante». Sabe-se agora, pela confissão do próprio, que Marco terá ficado para trás a masturbar-se como de resto fez em todos os outros ataques, cinco tentativas de violação e nenhuma consumada. Em todas actuou de modo igual, meio nu da cintura para baixo e meio louco da cintura para cima. Sobre todas fez uma confissão patética e detalhada, todos os patéticos detalhes do desempenho criminoso de um caso clínico, quase mais que um caso de polícia. E digo quase, atenção, que nem por isso este Marco M., 29 anos, predador sexual e desiquilibrado mental resulta menos criminoso e até perigoso em algum grau. Seguramente que é uma coisa e outra e não será pouco, sequer. Mas há que distinguir quem sai magoado e batido em combate de um recontro com uma anciã de 70 anos, da bestialidade in factu com danos de outro nível provocados por sociopatias infinitamente mais sérias, uma distinção que foi de resto levada em conta pelo juiz de instrução deste caso, a julgar pela medida mínima de coacção aplicada ao infeliz.
Bem ou mal venha quem julgue diferente (uma sentença por cabeça, já diz o povo) esta que é mais uma estória de doença e bizarria, particularmente repulsiva na intenção canalha e logo no local escolhido para o crime, é certo. Mas um crime que é depois estupidamente desastrado na execução, valha-nos isso. E que é no final o exacto retrato do seu autor: apenas porco.
Pedro Santos Guerreiro no Jornal de Negócios.
E pronto, chegou finalmente a confirmação oficial do que se aguardava sem surpresa e sem emoção: Fernando Nobre não vai regressar à Assembleia da República para cumprir o mandato de deputado para que foi eleito. Menos de um mês após as legislativas de 5 de Junho o deputado independente eleito pelo PSD sai de cena pela porta dos fundos da dignidade parlamentar, depois de dizer uma coisa e o seu contrário e de protagonizar uma das mais tristes figuras de que há memória num candidato ao segundo lugar da hierarquia do Estado, mesmo um tão putativo como este foi.
E acaba por ser pena, no fundo. Porque neste país em desespero de gente séria Fernando Nobre teve tudo para ser o nome, houve um tempo e uma circunstância em que parecia reunir todas as condições para ser o tal. Hoje caiu o pano, desempenho pífio, nem se fez notícia. É assim, foi assim. Não tinha nobreza, afinal.
Paula Teixeira da Cruz, ministra da Justiça
Do Pedro Correia (Delito de Opinião, Albergue Espanhol), blogger talentoso e de prática irrepreensível em termos de delicadeza e correcção, meu c'lega de profissão e amigo virtual, chega-me este desafio, a que respondo com gosto. Até porque detesto a pose snob e enjoada de alguns bloguistas que odeiam ser maçados com inquéritos deste género lá do alto das suas níveas torres de marfim, como diz o Pedro no seu post e eu subscrevo aqui, palavra por palavra. Para me poupar ao esforço de inventar? Nada disso, se há coisa que eu gosto é de inventar... A questão é que estas palavras podiam perfeitamente ser minhas, de tal forma dizem aquilo que eu penso. Já estas que se seguem são mesmo minhas, são as que fazem as tais dez respostas como era pedido. E que aqui ficam dadas com todo o prazer.
1. Existe um livro que relerias várias vezes?
Existem vários que já li e reli e de entre esses alguns que voltarei a ler e reler sempre, como 'Os Maias' do nosso sempre actual Eça, 'O Amor em tempos de cólera' e 'Cem anos de Solidão', ambos de Gabriel Garcia Marquez (e dois bons exemplos de releituras que faço como outros escolhem fazer vinte flexões ou o jogging matinal), 'O Processo' de Kafka e, fundamental, 'O Princepezinho' de St. Exupery. Com jeitinho arranjavam-se mais uns quantos, pois a releitura faz parte da leitura, para mim, acho até que inconscientemente já vou contando com ela no acto (frequente) de ler com sofreguidão e sem me deter para saborear... 'já cá volto', digo-me sempre. E volto, invariavelmente.
2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Oh, sim, para minha grande frustração foi (e é) o caso do 'Memorial do Convento'... e já desisti.
3. Se escolhesses um livro para ler no resto da tua vida, qual seria?
Pois, a tentação do 'Livro do Desassossego' é grande... mas não, all things considered devo indicar a Bíblia como resposta mais próxima da minha verdade. Afinal, para mim nunca será demais ler o que diz para ver se finalmente encontro naquilo que não diz algumas das respostas que procuro há tanto, tanto tempo... Quer-me parecer que o resto da vida não seria tempo a mais para cumprir tal tarefa.
4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Todos aqueles, incontáveis, que gostaria de ter lido mas que por algum motivo nunca consegui ler...
5. Que livro leste cuja “cena final” jamais conseguiste esquecer?
Huumm... deixa cá ver.... hum... talvez 'O Perfume', de Patrick Suskind, um final fantástico para Jean Baptiste Grenouille, a personagem central, que é partido aos bocados e comido por miseráveis sem-abrigo alucinados pelo efeito do perfume que ele próprio tinha criado e para esse momento colocado no seu corpo e nas suas roupas... Entre vários adjectivos possíveis, 'inesquecível' é seguramente uma boa escolha para um desfecho destes.
6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Ler era mais que um hábito, era pouco menos que a sobrevivência... Vejamos, tipo de leitura é uma abordagem difícil, em termos de preferências nunca tive um tipo de leitura como nunca tive um tipo de música, o gostar foi sempre tão ecléctico que nunca houve como empurrá-lo para dentro dos limites de um qualquer estereotipo para facilitar a resposta a esta e outras perguntas. Do Tio Patinhas à Enciclopédia da Mitologia Grega eu devorava tudo o que aparecesse, embora com algumas paixões fixas, claro, a saber: Lucky Luke, Asterix, Blake&Mortimer, Ric Hochet, Mafalda, Mandrake e Fantasma foram sempre os destaques na BD, depois tudo quanto era História (a do Egipto em particular, ah! os faraós...), a inevitável Enid Blyton dos Cinco e dos Sete mas também do Gordo e dos seus companheiros da colecção 'Mistério', tudo o que consegui apanhar de Erle Stanley Gardner/A.A.Fair, Rex Stout, Frank Gruber e Agatha Christie nos policiais, e muitos outros casos isolados mas marcantes por tantas razões como exemplos, como a trilogia Sexus/Plexus/Nexus e ainda o 'Trópico de Cancer' de Henry Miller, todos quatro de enfiada e na mesma altura, o inolvidável 'Tai Pan' de James Clavell (que já revisitei mais do que uma vez em adulto), Jack London e o seu 'Apelo da Selva', 'O Prémio' de Irving Wallace, tudo o que consegui apanhar de Pearl S. Buck e muitos, muitos outros.
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Há vários, também, mas posso destacar o caso do 'Bobo' de Alexandre Herculano (sendo que alguns dos outros que eu citaria para este caso seriam também do mesmo autor...) Ah, sim, e um ou outro bocejo camiliano também, talvez.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Bem, alguns deles, quiçá alguns dos mais significativos, já estão referenciados na resposta à questão sobre a releitura, lá em cima... sendo que faltam bastantes e de 'tipos' bem diferentes, sei lá, Tom Sharpe é incontornável no humor com 'Wilt' a abrir a lista, 'O erro de Descartes' de António Damásio noutra categoria, naturalmente, os eternos Asterix e Lucky Luke ainda e sempre na BD (sim, pois, já sei: não cresci, certo?), 'Tia Júlia e o escrevedor' de Vargas Llosa, e mais uns quantos entre todos aqueles de que me vou lembrar logo a seguir a ter publicado estas respostas...
9. Que livro estás a ler?
'O Livro da Consciência', de António Damásio e nos intervalos 'Notícia de um sequestro' de Gabriel Garcia Marquez (em segunda ou terceira leitura, já não sei) para arejar as emoções e os sentimentos... :-))
10. Indica dez amigos para responderem a este inquérito.
Dez amigos, hein? Huumm..., vamos lá então e seja o que Deus quiser, seguem os nomes: o meu estimado barbeiro, Luis Novaes Tito, da 'Barbearia do Senhor Luís', o Samuel do Cantigueiro, o Shark do Charquinho, a Soledade Martinho Costa do Sarrabal, o Valupi do Aspirina B, o Carlos Enes do Fragmentos do Apocalipse, a Laura Ramos do Delito de Opinião, o Nuno Miguel Guedes do 31 da Armada, o Tomás Vasques do Hoje há Conquilhas e mestre Daniel de Sá, um ex-7Vidas agora no Espólio. Para todos segue este meu convite e um forte abraço de solidariedade blogosférica.
Florbela queria amar, amar perdidamente, lembram-se? Eu lembro-me.
Lembro-me das palavras e do sentir que elas evocam, marcam, definem com uma mestria única e inexcedível. É a benção do génio, que toca as palavras e as torna imorredouras, para sempre únicas e especiais. São palavras de amor, apenas algumas das possíveis entre as muitas outras que ao longo dos tempos os poetas fizeram suas para cantar esse estado de graça que nos incendeia o coração e nos transforma em seres maravilhosos, os eleitos da paixão e por ela eternamente abençoados... enquanto ela durar, claro. E aqui bate o ponto, lamentavelmente, aqui se define a grande limitação deste querer que é sonho e apetite, atracção e desejo, conquista e desafio maior da condição humana.
Tão efémero às vezes, tantas e tantas vezes tão curto, tão pouco...
Florbela queria amar, amar perdidamente, e eu próprio não digo que não queria igual, mais perdidamente ainda, até, se possível. Queria e quero, pois as memórias que foram ficando comigo dizem-me hoje que sempre que tal magia me tocou eu nasci de novo e vivi diferente, fui único e especial, quase feliz, um dos eleitos da paixão e por ela abençoado para sempre, para sempre...
Eternamente, enquanto durou.
Credo! Que sonho estranho ando eu a ter, por estes dias e noites. Sonhei que estava apaixonado, vejam só a desgraceira que me armou Morfeu quando me apanhou de costas. Eu, imaginem: babado, pateta de paixão, absolutamente de quatro por um sonho bom de gente, sorriso lindo com coração lá dentro e a bater por mim num corpo de paraíso, desenhado, esculpido, burilado na medida exacta do meu desejo. Nascido para mim, que há horas felizes. Instalado em mim, nos apelos do cheiro, do toque, dos sabores, em absolutamente todas as variantes do sentir. A coisa mais absurda que imaginar se possa, como vêem. Muito provavelmente um equívoco, é o mais certo, que cedo se esclarecerá.
E então lá andava eu, rindo por tudo e de nada, manhã à noite em particular, sorriso de orelha a orelha, numa felicidade que não existe porque não pode existir, não pode ser possível, só nos livros ou nos sonhos ou nem nos sonhos nem nos livros, sei lá eu. E ela igual, o mesmo desvario, quase pior, coração ansioso, sempre, a todas as horas em que se não está quer estar, comigo, connosco, porque de repente só o 'nós' faz sentido e nenhum dos eu's tem mais graça sozinho, é um facto. Uma lamechice pegada, saborosa, uma chatice, irresistível, um estado de felicidade a um passo da perfeição, que não existe. Porque ninguém merece tanto, afinal. É por isso que deve ser um sonho, só pode ser, concluo aliviado. E porquê o alívio? Ora, porque não quero andar assim na rua, cara de parvo e a gostar de toda a gente, a achar que o mundo é lindo, que a vida vale a pena e mais as flores e as plantinhas e os passarinhos e essas merdas assim. Não, por favor. Não, sim?
Para mim chega, quero o meu humor de cão de fila outra vez de volta, aquele que me protegia da vida e do mundo e dos outros e deste tipo de porras da paixão, exactamente, este perigoso tipo de perigo que mata mais que o cigarro, muito, muito mais. Quero voltar a rosnar, parar com este ronronar que não vai comigo, que diabo, tenho uma reputação a defender, sou um duro, caramba!
Amanhã vou a um médico de canalhas, está decidido.
(texto publicado aqui, em Abril de 2009)
Foi em 1999 que Sofia Pinto Coelho, jornalista especializada em temas de justiça, contou ao país a história de um ex-director geral da Polícia Judiciária que era suspeito de ter violado o segredo de justiça, numa reportagem em que exibia uma cópia da acusação constante do processo, para que não restassem quaisquer dúvidas sobre a exactidão da informação reportada. Por essa escolha profissional a jornalista foi processada judicialmente e acusada de ter 'divulgado cópias de actos que constavam do processo', uma conduta 'proibida e automaticamente condenada pelo Código do Processo Penal' então em vigor. Sete anos depois, em Outubro de 2006, o tribunal considerou-a culpada e condenou-a ao pagamento de multa pela infracção cometida. Sofia escolheu não aceitar a decisão e resolveu recorrer para o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, sediado em Estrasburgo. Depois foi só esperar.
Agora, doze anos passados sobre os factos, o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem veio dar razão à jornalista, numa sentença que faz questão de sublinhar que as autoridades portuguesas não explicam a razão pela qual a divulgação daquelas cópias prejudicou o inquérito, nem como foi violada a presunção de inocência do acusado. Os juízes do tribunal de Estrasburgo consideraram ainda, pelo contrário, que apresentar aquelas cópias serviu «a credibilidade das informações transmitidas, atestando a sua exactidão e a sua autenticidade».
É certo que esta decisão é passível de recurso, pelo que pode não ter acabado ainda a aventura da prática jornalística pelos insondáveis critérios da justiça nacional. Mas com esta decisão Sofia Pinto Coelho tem já assinatura garantida no novo lema deontológico da profissão: escolher compensa.
'Delito de opinião' é para mim um daqueles blogues de visita habitual, por lá concordo e discordo em proporção que desconheço e que pouco ou nada importa na circunstância, faz de resto parte do encanto, até. O que realmente importa aqui é a viagem, são sobretudo os pequenos pormenores que se descobrem no caminho, como este esgrimir de argumentos sobre o Acordo Ortográfico que se pode (e deve) ler aqui, na íntegra, mas que, pela importância do tema e dos argumentos terçados, não resisto a transcrever, só um pequeno mas pedagógico excerto deste pequeno mas pedagógico desacordo sobre o acordo. Absolutamente imperdível, digo eu.
De VSC a 19 de Junho de 2011 às 19:05
De Laura Ramos a 19 de Junho de 2011 às 22:31
Às voltas com esta implacável obrigação de estar vivo vou cumprindo etapas à razão de uma por dia. Sempre em busca de orientação, de explicação para tudo, de pistas que me levem à descoberta de algum sentido para este existir que é condenação e privilégio, alegria e desespero, luz e escuridão. Que é tudo e tudo pode ser, até nada. Por feliz acaso saltam-me ao caminho as palavras de mestre Agostinho da Silva, figura incontornável das minhas referências e uma seta sempre segura para qualquer viajante que busque direcção para os seus passos, ou simplesmente a alegria para os dar. Que procure enfim a felicidade. Leio as palavras que nos deixou escritas e recordo as muitas outras que me entregou de viva voz, embrulhadas para oferta naquele rir sem dentes que até hoje ecoa na minha memória, juntamente com a frase que me repetia invariavelmente em cada conversa: "A cabeça só serve a quem tem cabeça", dizia-me rindo e sempre a sério, antes de repetir olhando-me nos olhos: "A cabeça só serve a quem tem cabeça". Nunca quis perceber o que me queria dizer com aquilo. Não faço a mais pequena ideia, até hoje.
«Não creio que se possa definir o homem como um animal cuja característica ou cujo último fim seja o de viver feliz, embora considere que nele seja essencial o viver alegre. O que é próprio do homem na sua forma mais alta é superar o conceito de felicidade, tornar-se como que indiferente a ser ou não ser feliz e ver até o que pode vir do obstáculo exactamente como melhor meio para que possa desferir voo. Creio que a mais perfeita das combinações seria a do homem que, visto por todos, inclusive por si próprio, como infeliz, conseguisse fazer de sua infelicidade um motivo daquela alegria que se não quebra, daquela alegria serena que o leva a interessar-se por tudo quanto existe, a amar todos os homens apesar do que possa combater, e é mais difícil amar no combate que na paz, e sobretudo conservar perante o que vem de Deus a atitude de obediência ou melhor, de disponibilidade, de quem finalmente entendeu as estruturas da vida(..). Os felizes passam na vida como viajantes de trem que levassem toda a viagem dormindo; só gozam o trajecto os que se mantêm bem despertos para entender as duas coisas fundamentais do mundo: a implacabilidade, a cegueira, a inflexibilidade das leis mecânicas, que são bem as representantes do Fado, e cuja grandeza verdadeira só se pode sentir bem no desastre; é quando a catástrofe chega que a fatalidade se mede em tudo o que tem de divino (..). Por outra parte, é igualmente na desgraça que se mede a outra grande força do mundo, a da liberdade do espírito, que permite julgar o valor moral no desastre e permite superar, pelo seu aproveitamento, o toque do fatal; não creio que Prometeu estivesse alguma vez verdadeiramente encadeado: talvez o estivesse antes ou depois da prisão; mas era realmente um espírito de liberdade e um portador de liberdade o que, agrilhoado a montanha, se sentiu mais livre ainda; porque podia consentir ou não no desastre, superá-lo ou não, ser alegre ou não. (..) No fundo é o seguinte: é necessário, ajudando a realizar o homem no que tem de melhor, que a mesma energia que se revelou pela física no mundo da extensão, se revele pelo espírito no mundo do pensamento e domine a primeira vaga de energia, como onda rolando sobre onda mais alto vai. E mais ainda: que pelo momento de infelicidade, o que não poderá nunca suceder no caso da felicidade, entenda o homem como as duas espécies ou os dois aspectos de energia se reúnem em Deus. Só por costume social deveremos desejar a alguém que seja feliz; às vezes por aquela piedade da fraqueza que leva a tomar crianças ao colo; só se deve desejar a alguém que se cumpra: e o cumprir-se inclui a desgraça e a sua superação.»
Agostinho da Silva, in 'Textos e Ensaios Filosóficos'
Eu não conheço Taimargara, nunca estive nessa que é a principal cidade do distrito de Bas Dir, um pedaço do noroeste paquistanês situado junto à fronteira afegã, território de forte influência taliban e particularmente abalado pela rebelião islâmica. Não conheço mas imagino o horror, só pode mesmo ser um retrato do inferno um lugar assim, onde um bombista suicida pode ser uma criança de nove anos que carrega junto ao corpo franzino oito quilogramas de explosivos e que recebeu ordens precisas para se fazer explodir junto a uma barreira pokicial nos arredores da cidade.
E assim fez, ou tentou fazer. Foi detida a cerca de 50 metros do seu objectivo porque deu nas vistas o seu comportamento 'estranho'. Segundo a polícia, a rapariga contou ter sido raptada alguns dias antes em Peshawar, principal cidade do noroeste do Paquistão, e só depois levada para Bas Dir. "Eles (os raptores) disseram-me para carregar no botão quando estivesse perto de polícias", contou a jovem numa entrevista à televisão nacional. já vestindo o seu uniforme azul e branco de estudante como se fosse uma criança de nove anos igual a qualquer outra criança de nove anos. Como se fosse uma criança, imaginem!
estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.