Há quatro deputados ao parlamento nacional cujas identidades ficarão hoje finalmente apuradas, depois de conferidos os votos dos emigrantes que hoje são anunciados em Lisboa. São quatro nomes importantes, muito importantes mesmo, para o equilíbrio de poder que terá de ser negociado diariamente, no hemiciclo de S.Bento, por um Sócrates refém da nega popular à desejada maioria absoluta e por isso mesmo obrigado a estender a mão às mãos que para si se estendem sempre, ávidas de poder sempre. Daí que esses quatro deputados sejam absolutamente decisivos, nesta altura. As suas identidades ainda não são conhecidas, à hora em que vos escrevo estas linhas, mas há um dado que já é sabido e que, não sendo surpresa total, constitui uma preciosa indicação sobre o estado de espírito deste eleitorado emigrado: os valores da abstenção. Que são os mais elevados de sempre, adianto, chegando aos 92%!!!! no círculo fora da Europa e atingindo os 78% no círculo europeu. Eu vou repetir, mas não há engano: são 92%, noventa e dois por cento de abstenções, ou seja: 92% dos possíveis votantes abstiveram-se de o fazer, abriram mão desse seu direito, enfim, ou não sentiram essa sua obrigação, como queiram, pode ler-se das duas maneiras. Mas quantas leituras existirão para justificar estes 92% de abstenções, não me dizem?
Acontece-me sempre nas campanhas eleitorais, será uma questão de feitio, concedo. De resto já nem discuto, isso ou seja lá o que fôr semitom no diapasão do correcto, tal é o cansaço, tamanho o desencanto. Na prática agrava-se-me a convicção (comum a muito tuga de norte a sul e ilhas, suspeito) que desta cambada toda pouco ou nada se aproveita, o que não está pôdre está tocado, que o mal é do cabaz. Será injusto e infeliz, talvez, mas que posso eu fazer? Afinal é cada vez mais escassa a prova do contrário, com o advento da comunicação o que conta no final é a imagem, a simpatia e aspecto contam mais do que a competência e bondade, os sorrisos substituem as convicções propriamente ditas com a maciez do encantamento audiovisual. E as boas intenções, todas as que não couberam no inferno, acabam por morrer na praia, esgotadas com tanta areia.
No fundo vai tudo na maneira de ver a vida e de dizer as coisas, é ou não é? É sabido que é bom político quem seja mestre em ajustar a verdade dos factos ao discurso e não o oposto, que nem sempre dá votos e antes os retira, muitas vezes. Assim se ganham eleições cá na terra, como noutras terras, estabelecendo a confusão no espírito deste eleitorado que depois de ver os tempos de antena, da esquerda à direita, fica sem saber se o país está tão mal que há jovens licenciadas que andam na prostituição ou se pelo contrário isto está tão bom que aqui até as putas têm um curso superior, neste país moderno que somos. Irra.
... vamos a votos.

Henrique Monteiro (who else?) chamou a este seu trabalho 'O despencar técnico', vá-se lá perceber porquê. E eu gostei, confesso, gostei tanto que fui lá de noite e zumba, vi os outros mas trouxe este comigo para pendurar na parede aqui da sala. Com a devida vénia ao Henrique, evidentemente.
Aqui d'el Rei que os votos pagam-se em notas nas eleições internas do PSD!! Chamem alguém, porra!, alguém que faça alguma coisa que isto é um escândalo, um ultraje, uma coisa inimaginável, claro, eu cá não sabia de nada, não vi nada, não nada, nem eu nem ninguém, acho, muito menos os senhores da direcção do partido, senhoras igual, que não têm sequer tempo para andar lá a preocupar-se com as minudências do aparelho. Para isso é que existem os homens de confiança (a expressão diz tudo, explica-se bem), sempre foi assim e sempre assim continuará a ser. Isto dizem, atenção, porque eu cá não sei de nada, não vi nada, não nada, as pessoas é que dizem. E pronto.
O que desta vez faz a notícia não é portanto o que se diz mas sim existir quem muito insista não só em dizê-lo como ainda em dar a cara pelo que afirma, seja lá por que razões o faça e passe algum despeito pessoal que possa até existir. E aí a notícia torna-se incontornável, difícil de evitar com um, dois ou mesmo cem telefonemas. Fica fora de controle. Enfim, resolve-se, claro, tudo se resolve. Mas para já o palco está tomado por esta senhora, Irene Lopes, uma verdadeira dor de cabeça para o partido a que se diz ligada desde os anos 70 e que agora põe em causa com precisão cirúrgica em vésperas eleitorais. Mostrando um conhecimento prático da estrutura do aparelho laranja, Irene está ali para acusar, pôr a boca no trombone, chibar, entregar, chamem-lhe o que quiserem, o facto é que esta mulher está ali para fazer estragos dizendo o que sabe sobre situações de todos os dias da vida partidária (só do PSD?) com as quais pactuou até deixar de o fazer e decidir contar a toda a gente. E é a aparente circunstância de apenas precisar de dizer a verdade para o conseguir que faz dela a notícia, mais do que o facto de haver gente que paga em notas o voto de gente que delas precisa, para que as pessoas certas sejam eleitas para cargos partidários de importância decisiva na prática política da nação, ora na oposição, ora no governo. Porque essa parte eu cá não sabia, nem eu nem ninguém lá no partido, de certeza absoluta. Pois se ainda nem sequer veio nos jornais!
Até que apareceu Irene.
Pois, aconteceu exactamente aquilo que eu previa, nem mais nem menos: no prime time da entrevista ao gato fedorento, Paulo Portas teve esta noite o grande momento da sua campanha, quiçá da sua presente circunstância política, aproveitando uma oportunidade que mais parece ter sido feita para si, criada à sua medida e logo à partida beneficiando da insuspeita boleia do tratamento igual para todos os candidatos. Só que Portas não é Manuela, tão pouco Jerónimo, Louçã ou mesmo Sócrates, Portas é Portas, o mestre, iluminado, aquele que domina como poucos a arte da comunicação com especialização crescente em todo-o-terreno e circunstâncias radicais. E isto é um facto. Goste-se ou não do homem, Paulo Portas é um comunicador genial. O que aconteceu esta noite na SIC foi um delírio de taco-a-taco, um grande momento de televisão inteligente, coisa rara nos dias que correm. Ricardo Araújo Pereira foi o compére perfeito de quem fez o mesmo por ele com competência e génio, logo o resultado só podia ter sido o que foi: o espectáculo da inteligência num grande, grande momento de televisão. Que vai valer muitos votos a Paulo Portas, claro, que esse não dá ponto sem nó.
Aprendo na TVI que o famoso Ponto G se situa 'na parede de trás da vagina', 'a cerca de três centímetros adentro' do orifício vaginal e que não é um ponto mas sim uma 'zona circular com o diâmetro de uma moeda de vinte cêntimos', moeda essa que a reportagem serve demoradamente e em grande plano ao repasto imaginativo do país, para ilustrar a locução. Aprendo assim que aquela é a materialização possível do mais delicioso mistério feminino, para mim, a cara e coroa do verdadeiro motor desse imenso e insondável universo que comanda o mundo de facto, aconchegado na protecção fálica que vai permitindo ao poder por puro gozo e característico maquiavelismo. Faz tudo parte do encanto, digo eu, é o menu do encantamento. Sem reclamações por aí.
Pois agora a TVI informa que já é possível encontrar e estimular o Ponto G por processos terapêuticos, uma alegria que se consegue pagando, evidentemente, não sei quantos mil euros, muitos, eu cá não prestei atenção a essa parte por razões óbvias e também porque já tinha as ideias à desfilada pelos novos caminhos que se agora se abrem ao conhecimento de todos nós, enfim, de alguns mais virados para o assunto, digamos assim. É que eu por exemplo estou curioso, estou mais e pior: dava tudo para saber como irão os Zés do meu país tratar esta nova informação sobre as Marias em geral, as suas em particular, que importância lhe vão dar a partir de agora, sobretudo na intimidade. Só espero que a rapaziada tenha ouvido bem a reportagem, mais que visto, ou à conta da habitual boçalidade nacional aquela história da moeda de 20 cêntimos ainda vai dar muita anedota com mealheiros pelas tascas da nação, suspeito. É cá um pressentimento que eu tenho.
Uma pergunta simples: é possível ser mais vulgar, ordinareco, trapalhão e sem graça do que aquilo que passa nas manhãs da SIC como programa de televisão, com apresentação de Rita Ferro Rodrigues que é xunga no falar e de um rapaz chamado Francisco que dá gritos e é gago, acho, ou simplesmente não nascido para aquela espinhosa missão de cumbersar na TV? Acreditem, aquilo é mesmo inenarrável, em tudo, a começar pelos apresentadores, a passar pelo José Malhoa a cantar que 'Há fruta boa' e a acabar na Maya da tabela de signos, que entra em estúdio a dizer que 'o nosso maestro é muita bem aviado', sendo que estava a falar de narizes anteriormente mas não posteriormente, topam a chalaça? Dá saudades do Júlio Isidro, enfim, quase, não exageremos. É de facto inacreditável mas basta ver para perceber que existe, acredite-se ou não. E é um verdadeiro atentado, um autêntico crime cultural, digo-o sem manias intelectualóides. Apenas meio enojado, é tudo.

Na minha terra nasce-se e morre-se a meio caminho do céu com alguma frequência. Talvez daí a benção que trazemos por vir ao mundo em lugar tão abençoado pela divina ironia. Decalcados na beleza vamos brotando do basalto como flores da terra, e as nossas histórias vão fazendo a história deste Portugal supostamente de todos, quase sempre pelo que têm de invulgar, pelo estranho, distinto, logo notícia. Ora nascer e morrer já raramente é notícia hoje em dia, convenhamos, isto se não contarmos com o Michael Jackson ou com os infantes de D:Letízia de Bourbon, evidentemente. Mas na minha terra há uma senhora das Flores (ou será de S.Jorge?) que já deu à luz não sei se dois se três filhos no mesmo aviocar da Força Aérea, de resto a tripulação que fez os partos foi a mesma e tudo, o último deu recentemente na RTP-Açores e passou no continente à hora do jantar e seguintes, tudo a cores, está visto. Depois a vida seguiu a sua marcha, claro, até ao próximo gaiato vir dali ainda há-de faltar um bocadito, que diabo, por isso siga o Afeganistão e o Freeport, Portas e Louçã mais a TVI e o Preço Certo em Euros e Portugal avança, nas ilhas igual, só que mais devagarinho. E hoje um doente do hospital de Ponta Delgada piorou a meio do voo que o traria a Lisboa para tratamento por cá que não há por lá. Com apenas meia hora de voo o avião teve que regressar a Ponta Delgada com 192 passageiros a bordo, 192 passageiros que depois de amadurecerem a irritação do contratempo, mais os contratempos efectivos e eventuais prejuízos pessoais que a situação acarretou, tudo temperado com o que ainda lhes restar nas almas de solidariedade e compaixão humanas e bem centrifugado pela força do inevitável e ausência total de alternativa durante umas quantas horas, vão talvez olhar as ilhas e sentir o rugir dos oceanos e ver aqueles horizontes longínquos que se vêem nos filmes e nas férias de uma outra forma, diferente por um breve, muito breve mas muito intenso momento. Vão ser ilhéus, por dentro, num instante. E quem sabe se por obra e graça desse momento, subindo e descendo nas mãos de Deus entre tanto aterrar e levantar, empurradas para a compaixão inadiável, algumas daquelas pessoas não encaram e aprendem a vida por uma vez, uma qualquer que tinham algures lá atrás quando ainda tinham os pés no chão, quando ainda não sabiam que na minha terra se nasce e morre a meio caminho do céu com alguma frequência, como em toda a parte. E que essa sim, é a suprema ironia divina.
O meu amigo Daniel de Sá é assim mesmo, se não levar uma cutucadelazinha de vez em quando lá se esquece dos amigos e pronto, passam meses sem que se saiba do mestre. Mas num repente ele está de volta, como se nunca tivesse ido a lado algum, como se nada fosse nada e a sua escrita fosse tudo, tudo aquilo que importa. E não é que no fim das contas é exactamente assim, sem tirar nem pôr? Veja-se a história que traz de desagravo, tipo ramo de flores, por exemplo. «Vai com foto e tudo para que conste que é verdade o que lá digo. Pelo menos no que toca ao tocar. A casa onde o bisavô do Craig Mello viveu antes de emigrar, e onde nasceram vários dos seus tios-avós, é a que fica rigorosamente porta com porta em relação à minha. Vai um abraço. Sem condições.» Viram, viram? Agora digam-me, faço o quê, digo o quê, depois disto? Pfff. Um maganão, é o que ele é. Um amigo, grande. E depois escreve bem com'ó caraças, que é o que irrita mais.
Em baixo: "Um Nobel na Maia"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá
A minha boa amiga Soledade Martinho Costa anda em festa lá por casa, no Sarrabal, que completa mais um ano de existência. A festança é das rijas, tipo casamento cigano, um dia começou e depois logo se vê quando é que acaba que aqui ninguém está com pressa, os convidados são de luxo, a anfitriã um doce e a mesa é farta de boa leitura, há que prolongar este prazer e saborear condignamente cada naco de letras. Hoje, por exemplo, é mais um bom dia para a visita, é Daniel de Sá quem faz as honras da conversa com um primor de recado, coisa de luvas. Ora espreitem: «Gosto do cheiro das letras. Entre a possibilidade do ecrã , e da página no livro ou no jornal, prefiro a página. Mas a maior parte da escrita que hoje se faz viaja no espaço virtual. Chega a dar a impressão de que se escreve no nada. Talvez por isso haja quem desça nos blogues à mais baixa condição da expressão humana. Sem respeitar valores éticos ou sentimentos morais.» Estão a ver?
Escritora notável com obra vasta publicada, mulher de rara sensibilidade e fino trato, a Sol está a ter a festa que merece e eu bato palmas, pois sei que foi com zelo de fada que a minha amiga preparou cada pormenor com que nos recebe. Teve ainda a gentileza de me convidar e eu tive o privilégio de poder deixar colaboração modesta, ainda o casório ia na igreja, por assim dizer. Melhores vieram depois de mim e continuam a chegar, como vêem, neste mês de aniversário. Vale sempre a pena a visita ao Sarrabal, mas esta quadra festiva é verdadeiramente imperdível. A gente vê-se por lá, fica combinado.
(ilustração descoberta e sacada aqui, com a devida vénia; título cá da casa)
«PSD mantém confiança em Moita Flores»
Foi a 11 de Junho último que a OMS decidiu aumentar o nível de pandemia da gripe A (H1N1) para o nível 6, o nível máximo correspondente a pandemia instalada, declarando ainda na ocasião acreditar que "a pandemia de gripe A deverá circular no mundo entre um a dois anos". Em Portugal, nessa altura, qualquer caso era notícia pela raridade, e somavam-se menos de cinco casos no final da primeira quinzena subsequente ao anúncio da OMS. O país não reagia, ia reagindo, com mais cautelas do que aquelas que ia pondo na prática de prevenção da nova gripe.
Entretanto passaram dois meses, pouco mais. E muitos, muitos mais casos. Por esta altura já toda a gente percebeu que este vírus é mais perigoso para a saúde pública do que toda a equipa de Oftalmologia do Hospital de Santa Maria junta, enfim, quase mais perigoso, talvez. E os casos já não são raros, antes aparecem numa média superior aos cem casos por dia, mesmo nestes dias de sol, ainda longe dos meses tradicionalmente gripais. As autoridades de saúde vêm repetindo esta mesma constatação, a gripe vai chegar em força mais cedo do que se espera, tentando desdramatizar o inevitável junto de uma população que parece insistir em ignorar o cenário de pandemia que estamos a viver de facto. Como se a coisa não estivesse comprovada, ainda. Como se não existisse, pronto, nem entre nós nem para nós, muito menos. Somos atchim, nada a fazer, é atchim Portugal, santinho. Há-de ser o que Deus quiser e pronto, seja. Incrível, não é?
Pois é. Mas é atchim.
Então e o Imposto sobre Transmissões, aplica-se à Gripe A ou nem por isso?
Já não há talento ao vivo, para nos encantar com novas criações, vindo desse trio de ases que me ensinou a arte da televisão ao mostrar como se fazia tão bem o Zip-Zip, como se conduzia um público pela comunicação, do riso à lágrima, do silêncio à gargalhada, para descomprimir, até à explosão final num enorme aplauso, minutos de pé, tudo à conta de uma genuína intuição de berço, ainda Portugal era a preto e branco e as vedetas de televisão uma escassa meia dúzia de pioneiros. Tudo mudou na arte, dessa altura para cá, e muita da mudança se terá ficado a dever ao talento desse trio famoso e singular. Trio apenas lendário, daqui para a frente, pois dos tais três que vos falo um já tinha morrido e outro vivia morto quando hoje o terceiro se foi e a notícia se soube: morreu Raul Solnado. Não, não era para rir, desta vez.
O meu mundo ficou mais pobre, é certo, o pessoal e o profissional. Portugal ficou órfão, órfão de pai na sua cultura, no seu humor, esse humor que tanta vez nos arrasta, carrega em ombros e obriga a galgar os dias, tudo por umas palminhas, às vezes quando a sopa é água e os afectos tão escassos e miseráveis, tanta, tanta vez... Raul Solnado era um senhor que tinha graça, muita graça, não era um comediante. Era um de nós e sabia ser todos, mimava qualquer de nós com uma mestria única de grande senhor do povo. Eu perdi uma referência, lamentavelmente mais do que um amigo, que tanto nunca fiz por merecer, não tenho pretensões. Mas tínhamos uma ligação cúmplice, há mais de vinte anos, com ponto de apoio num local muito especial, quatro paredes com história na história da vida do Raul: a casa onde ele nasceu, em plena Madragoa, aquele terceiro andar ao Pasteleiro onde há quase oitenta anos abriu os olhos e iniciou esta caminhada que hoje teve um final meramente físico, apenas material. A casa mudou; há muitos, muitos anos que vem sendo o atelier do pintor Silva Palmeira, um amigo comum. Por isso sempre que nos encontrávamos a conversa era inevitável, as suas memórias do Pasteleiro subiam à partilha com aquela emoção inconfundível no Raul, aquela voz embargada, o embalo da gaguez, aquele brilhozinho nos olhos que piscavam, piscavam, piscavam muito, piscavam sempre, como quem pisca o olho à vida, para que esta lhe faça o favor de ser feliz. Simplesmente feliz.
Ausentou-se hoje, o Raul. Foi-se do nosso convívio, da festa da vida, dos palcos e dos bastidores, dos copos e das paixões. Nunca do meu coração.
É coisa antiga em mim, já topo à distância quando chega, é um daqueles sinais mesmo-mesmo inconfundíveis, pronto. É como o algodão, que não engana, só para dar uma ideia. Passo a explicar. Quando me começa a dar para contar aquelas piadinhas curtas, tipo estocada cirúrgica, humor à gota, o toca-e-foge da gargalhada poupadinha, como "O que é que a massa diz ao queijo?" "Que massada..." , ou o queijo que responde? "Pfff, e eu ralado..." , ou então a impressora que diz para a outra impressora: "Olha lá, essa folha é tua ou é impressão minha?"... Pois é, quando eu começo assim é porque não sei mais o que raio dizer desta vida que me troca as voltas, é porque já estou assim para o meio taralhouco ou a caminho, digo eu... Ou então é porque ando outra vez a ouvir o Café da Manhã na RFM, uma coisa ou outra. Ou uma coisa ou outra.
(descaradamente roubado aqui, é certo, mas com a devida vénia)
Sempre que posso faço questão de espreitar os telejornais da hora do almoço nos três canais, essa referência informativa que serve as peças requentadas da noite com alguma novidade do dia se não puder deixar de ser, devidamente tratada mais tarde, quando fôr noite. Essa é a tradição, que é o que era ainda e sempre, em televisão. Hoje as honras de abertura foram para a Gripe A, sessenta e dois casos confirmados em Portugal, com os meus Açores a reforçarem a sua presença no mapa desta pandemia, de forma tão significativa como preocupante.
A TVI abriu com a notícia, a SIC abriu com a notícia, a RTP abriu com Carlos Daniel a falar de um acidente de viação que tinha dois mortos e muitas imagens captadas por algum carro de reportagem que ia a passar, talvez, uns dois minutinhos de chapa retorcida e muitas manchas de sangue, só para abrir o apetite. Depois veio a gripe, claro, tudo igual aos outros daí para a frente, uma autêntica fotocópia editorial, que a imaginação continua muito, muito escassa. Mas a tradição, essa continua a ser o que era, definitivamente.
Às vezes sinto falta de re-embalar na blogosfera, há que assumir. Quem sabe compreende, os outros paciência, é o costume. Vem isto a propósito do prazer sempre repetido que é ler Fernando Venâncio, meu amigo de letras e que possui convite vitalício para postar cá na casa, sempre e quando lhe der na mona. O que foi o caso, louvem-se os deuses. Um dia vou ao mail e lá está o dito, talvez não dito mas digo agora, pronto: um textículo, como lhes chamo, salvo seja. Eu li e gostei, mas isso sou eu, que gosto de quaae tudo no Fernando Venâncio, os senhores que façam o favor de avaliar por vós. O material, por assim dizer. Coisa de profissional, bidentemete.
Em baixo: «Profissional»
Sete vidas mais uma: Fernando Venâncio
Ele estava de calções de verão, e isso foi um erro tremendo. Tinha um boné esbranquiçado (seria sujidade, ou uso?), o que era uma suplementar infelicidade. Levava um cão pela trela, nem pequeno nem grande, raça indistinta, muito dócil, se não mesmo tímido, criando – animal e dono – uma conjuntura simplesmente desventurada. Pusera uns óculos escuros («Ficam-lhe a matar», disse para si mesma uma vizinha, que lhe adorava a barba grisalha), e aqueles óculos eram, se possível, o mais atroz dos azares.
Tinha dado, como sempre, a volta ao bairro, naquela manhã soalheira. Caiu ali, já de chave na mão, em cima do canteiro que mais esmerava. Uma bala chegou e sobrou.
Para um assassino profissional, e caro, um quarteirão a mais ou a menos, tanto monta.
Manifestação de polícias, mais uma, hoje, em directo nos telejornais do almoço. A repórter ouve vários manifestantes, revoltados. «Olhe, eu não posso dizer aqui porque é que há criminalidade, que o país ficava aterrorizado», diz um dos agentes. A repórter insiste, claro. «Mas nao quer dizer, diga lá...», e o agente acede com gosto: «Olhe, há criminalidade porque não nos pagam, essa é que é essa, agora as pessoas que pensem o que quiserem».
Eu, que sou pessoa, fiquei a pensar.
Porra!
É o mistério estival do momento, o último grito da incógnita. Os factos, esses, são claros e estão à vista. A praia de Faro, coração da Ria Formosa, cumpre todos os critérios e requisitos para ter Bandeira Azul. E tem. Quero dizer, tem mas está guardada, arriada por ordem da autarquia, como explica à Lusa Catarina Gonçalves, a coordenadora nacional do programa Bandeira Azul, único galardão oficial de qualidade nas praias que existe a nível europeu. «Apesar de a praia Faro-Ria cumprir todos os outros critérios para ter o galardão, a autarquia optou por cancelar o galardão da Bandeira Azul», tenta explicar Catarina Gonçalves. A Câmara confirma, diz que mandou arriar a bandeira porque «a Capitania do Porto de Faro emitiu um parecer desfavorável à utilização simultânea balnear e desportiva na praia de Faro-Ria, baseado num alegado conflito de usos». Vai daí, apesar do parecer em nada alterar o legítimo direito da praia ostentar a Bandeira Azul, a autarquia mandou arriar a bandeira porque sim.
A questão está toda no Centro Náutico da Praia de Faro, um complexo desportivo que tem gestão camarária, por sinal, e que se destina à prática desportiva de modalidades náuticas não motorizadas. Cuja actividade a Capitania vem então contestar com este parecer desfavorável, embora reconheça que estas actividades não são “consideradas incompatíveis com o ecossistema do Parque Natural da Ria Formosa”. Ou seja: ‘sim, está tudo legal, é tudo compatível, pode continuar, a gente é que não gosta’, parece ser o recado. Nada mais eficaz, na circunstância. Numa decisão que roça o absurdo, a Câmara mandou arriar a bandeira que todos querem ver içada na sua praia. Com ou sem parecer, não se vislumbra uma razão plausível para esta espécie de suicídio estival da autarquia, uma vez que nunca foi posta em causa a legitimidade da Bandeira Azul nem equacionada a sua remoção compulsiva, como já aconteceu em dez praias de norte a sul, só neste mês de Junho. Mas não em Faro, onde o coração da Ria Formosa apenas sofre esta estranha arritmia. Às vezes, palavra de honra, até parece que não bate bem.
Os hospitais que discriminem doentes em função da entidade financiadora poderão ser, a partir de sexta-feira, punidos com coimas até 45 mil euros, segundo uma lei que dá mais poderes sancionatórios à Entidade Reguladora da Saúde (ERS). A discriminação de doentes passa a ser penalizada no âmbito da violação das regras de acesso aos cuidados de saúde, bem como a indução artificial da procura de cuidados de saúde, disse à Lusa o presidente da ERS, Álvaro Santos Almeida.
Recorde-se que a diferenciação dos utentes, consoante sejam particulares ou financiados por um sistema de saúde, já motivou várias deliberação da ERS este ano, devido a queixas de utentes do Serviço Nacional de Saúde e da ADSE.
Durante a gravação de uma entrevista para a televisão, o novo presidente dos EUA viu-se incomodado por uma mosca sem valor, dessas que pousam com a mesma alegria na careca de um doutor como num discurso do Dr.Jorge Sampaio, como diria António Aleixo que eu bem o li. Pois bem, com a entrevista a decorrer Barack Obama nem pestanejou. Mandou a mosca embora uma vez, duas vezes, a mosca foi e voltou, uma vez, duas vezes. E pronto, acabou-se, não houve terceira vez que o presidente não quis permitir. Terá ficado com a mosca de repente? Talvez, não sei, o facto é que Obama ignorou por um instante o seu entrevistador, fixou o olhar concentrado no voo daquele zzzzzzz e zzzzzzzzzás, não lhe perdoou o sopapo certeiro. Acertou na mouche.
Foi estalo e queda, de resto. A mosca caiu fulminada no tapete onde ficou, com aquele arzinho de mosca morta. E a televisão mostrou ao mundo a habilidade e rapidez de Mr. President, que por seu lado se limitou a perguntar, absolutamente impassível: «Onde é que nós íamos, mesmo?». Bom, eu cá pensei duas coisitas rápidas, quase em simultâneo. A saber? Fosse a pobre mosca o Osama Bin Laden e muito teria mudado hoje em todo o mundo com esta palmadita presidencial, primeira reflexão. A segunda é mais profunda ainda, uma espécie de aposta política ou algo parecido. Vá lá, pensem comigo, all together now. E digam-me se um homem que resolve desta forma as moscas não será o homem certo para acabar de vez com a merda que as atrai, também, sim ou não?
A notícia tem poucas horas, eu li-a há poucos minutos, pelo que esta nota sai a quente, aviso. O grupo farmacêutico suíço Novartis recusa distribuir gratuitamente a vacina contra o vírus da gripe A (H1N1) em países pobres, mas diz estar pronto para negociar um preço mais baixo, informou hoje o respectivo director-geral, Daniel Vasella. Disse ainda este senhor que para «tornar a produção viável, é preciso criar estímulos financeiros», isto de acordo com o site na Internet do diário económico Financial Times. Recorde-se que um número «significativo» de reservas da vacina contra a gripe foram já reservadas por 'mais de trinta governos', o que pode gerar problemas de abastecimento inclusive entre os países mais ricos, sublinhou Vasella, de olho no lucro que lhe pode dar o actual cenário mundial, pandemia para uns, oportunidade de mercado para outros.
Pois esta simpática predisposição de Daniel Vasella para negociar carradas de antiviral com um mundo que não dispõe de alternativa fez-me recordar «O Padrinho», esse grande negociador. E a sua peculiar proposta irrecusável, que metia cabeças de cavalo na cama ao acordar, entre outros mimos com armas e tacos de baseball. Então e não é que de repente eu dei por mim a entender a vertente negocial de D.Corleone e ainda a achar coisa pouca quando se dá o caso de ter pela frente um director geral de farmacêutica como este senhor Vasella? Será vocação, isto que me está a dar? Ainda tiro Gestão, por este caminho.
Num esforço comovente, para não dizer confrangedor, os responsáveis da candidatura socialista de Jovita Ladeira à Câmara de Vila Real de Santo António publicaram no seu jornal de campanha, O Forum, um texto subordinado ao tema 'uma análise à 'verdadeira essência dos nossos outdoors', uma lauda que merece ser lida e relida e que, estou certo, fará escola em todos os estabelecimentos de ensino de marketing político.
A abordagem em si é de chorar de emoção, para começar: «(..)o PS decidiu descodificar as mensagens inscritas nos outdoors de campanha da candidatura da deputada Jovita Ladeira e divulgar, junto da população, a essência do pensamento que esteve na origem da sua criação, começando por dar um claro sinal de transparência informativa e ideológica.(..)». Daqui para a frente só melhora, acreditem, é descodificação atrás de descodificação até à descodificação final: «(..)O fundo escolhido para os outdoors de Jovita Ladeira é de cor azul com nuances que pretende fazer transparecer uma ideia de movimento, iluminação e modernidade, para além da serenidade, verdade e fidelidade de sentimentos que a própria cor azul transporta.(..) Nada foi portanto deixado ao acaso, aparentemente tudo foi ponderado por estes especialistas de marketing que Obama deixou fugir para o Algarve: «(..)No que respeita ao slogan escolhido – Gosto desta Terra – é uma mensagem autêntica, exigência da própria candidata, pelos laços afectivos que mantêm com VRSA há muitos anos, onde cresceu e trabalhou, não sendo possível ficar indiferente às oportunidades perdidas de progresso e desenvolvimento(..)» Sem comentários, não há palavras, de facto.
Deste ponto em diante o assunto é coração, o coração de Jovita, claro, recrutado para a campanha por esta explicação técnico-filosófica: «(..)Para vincar bem esta relação afectiva foi desenhado um coração tricolor, sobre o slogan, símbolo de emoções, carinhos, dedicações e amores, pretendendo-se ainda deixar uma mensagem subliminar de que a candidata é uma pessoa de 'esquerda', zona onde se localiza o coração de todos(..)» Tudo dito sobre corações? Ainda não, ainda não: «(..)E se repararem com mais detalhe para o coração inscrito no outdoor da candidatura socialista podem observar que este se subdivide em três corações de cores distintas. Pois cada um deles representa o afecto que Jovita Ladeira nutre por cada uma das freguesias do concelho(..)» Bem, está então explicado. As palavras finais são tão boas como as iniciais, talvez um pouco mais de ir às lágrimas, pelo apelo directo que fazem a cada um de nós, em particular: «(..)Observem e vejam quanto há de genuinidade, de emoção, de compromisso e de expressiva vontade realizadora, deixando para um segundo plano a competência criativa que também é merecedora de ser sublinhada.(..)» Desisto, estou convencido.
E pronto, esta é a verdadeira essência da verdadeira essência da verdadeira essência dos outdoors do PS em VRSA. O chamado 'suco da barbatana'. Ora depois disto digam-me, por favor: não parece mesmo que alguém anda lá pela sede de candidatura da D.Jovita, de caçadeira na mão, a disparar contra os próprios pés? Ou será tudo ingenuidade e incompetência? Aguardam-se com ansiedade as próximas mensagens subliminares. É o universo da alta ciência política que chegou à cidade para entreter a populaça. Como fazia o circo, dantes.
...«o PS tem capacidade para governar sozinho, diz Vitalino Canas»
Hoje estou de passagem aqui pelo 7Vidas, apenas, já que vou aproveitando estes feriados que cairam do céu e em circunstâncias que me escuso a explicar mas que vos garanto estarem a ser ... perfeitas, ou lá perto. De forma que o país vai ter que passar sem mim e sem a minha preciosa opinião nas próximas horas, é certo, mas não é caso para não vir aqui lembrar-vos que um dos bloggers-revelação dos últimos tempos (para mim e não só, convenhamos) completou ontem um aninho de vida com o seu 'O Afilhado', onde realizou uma festança de letras para a qual tive o supremo prazer de ser convidado, como poderão ler se fizerem a fineza de passar aqui. E já agora aqui, para ler Tomás Vasques, ou aqui para João Gonçalves, só para citar dois exemplos. Ou melhor, ainda: sigam o meu conselho e cliquem na homepage d'O Afilhado e depois vão descendo, é o melhor que fazem. Esqueçam os agradecimentos, fica por conta da casa. E parabéns ao Tiago Moreira Ramalho, claro.
Ontem pensei na tristeza que deve ser alguém não saber ler, na imensidade de informação de que essas pessoas ficam privadas à conta dessa insuficiência. Tudo isso porque de repente olhei para a televisão onde passava mais uma manifestação de gente exaltada, espumando e vociferando, de cabeça perdida e aos empurrões, punhos no ar, soltando gritos e ofensas, chamando ‘aldrabão’ e ‘mentiroso’ ao primeiro-ministro José Sócrates, a quem tratavam por tu e atiravam chapéus.
E eu fiquei ali a ver toda aquela rotina do insulto, aquela multidão descontrolada e em fúria, as expressões congestionadas de ódio, todo aquele vómito de raiva contida a custo e à força pela polícia, quando finalmente apareceu a bendita legenda a explicar que aqueles também eram polícias, estavam era a protestar na rua enquanto classe profissional. Foi quando eu me lembrei dos analfabetos, coitadinhos, que não podiam ler aquela legenda e assim ficavam para sempre a pensar que se tratava de mais uma manifestação de energúmenos capazes de destruir tudo à sua passagem e incendiar carros e partir montras e saquear cidades e agredir pessoas só porque estão com raiva e zangados com o governo. Porque normalmente os polícias são os outros, as forças da ordem, os do outro lado, é compreensível o equívoco. Mas a legenda ali estava para pôr tudo no seu lugar, os bons e os maus, explicando quem era quem naquelas imagens de desordem. Daí a minha angústia, esta minha preocupação com os analfabetos. Pois se eu próprio tive cá as minhas dificuldades em perceber a diferença, quem não leu não ficou a saber com toda a certeza.
(fonte: SOL)
Agora que estão já passadas as eleições para o parlamento europeu, que os portugueses já votaram, que os partidos já falaram, que os comentadores e analistas já comentaram e analisaram tudo o que havia para comentar e analisar, agora que já estamos no lavar dos cestos não deixa de ser importante registar aqui uma nota muito especial, em jeito de balanço, sobre a qualidade e oportunidade do trabalho feito no blog 'Delito de Opinião' pelo jornalista Pedro Correia, que correu todos os programas eleitorais de todos os partidos e movimentos concorrentes só para os dar a conhecer aos seus leitores, devidamente comentados e analisados.
Tiago Moreira Ramalho, no seu 'Afilhado', já destacou e resumiu esse trabalho neste post, poupando esforço a todos aqueles que não tiveram oportunidade de acompanhar dia a dia aquelas publicações. E eu aproveito agora o embalo para sugerir a todos que não deixem de fazer esta viagem, mesmo a posteriori, por mais este brilhante trabalho do Pedro Correia na linha, de resto, daquilo que este jornalista nos vem já habituando com as suas participações em vários endereços blogosféricos. Um caso sério de competência, digo eu, enquanto bato palmas e tiro o chapéu. Que o resto é conversa.
Faz anos hoje, o meu Gastão. Cinco, cinco aninhos, benza-o Deus, "irra, que 'tá cada vez mai' lindo", penso eu de cada vez que o olho, que são muitas, muitas mesmo, acreditem, nestes quatro anos e dez meses que já levamos juntos, a todas as horas de todos os dias. Todas, todos. E é sempre a mesma coisa, acabo sempre a pensar por que raio terá sido preciso eu enganar-me em tantas mulheres para finalmente vir a descobrir o casamento perfeito com um cão, irra qu'é preciso ser burro! A moral da história salta à vista: nunca se sabe, nem onde nem quando a gente pode encontrar a verdadeira felicidade, muito menos com um cão que tem mau dormir, ressona como uma turbina, acorda com hálito de ETAR, come por quatro, caga por cinco e tem a leveza e graça de um rinoceronte quando lhe dá para o carinho. Mas pronto, seja, parabéns a você.
É um facto. Metade da riqueza mundial está nas mãos dos 2% mais ricos da população. Sim, eu disse dois por cento. E disse metade, também. Vou repetir, melhor por extenso. Dois por cento de toda a população do mundo detém nas suas mãos cinquenta por cento de toda a riqueza que existe. No mesmo mundo. Assim, bem explicadinho, que é para não haver dúvidas. Pronto, já está. Era só para recordar este pequeno pormenor. Este facto. E tudo grátis, de resto. Desejo-lhe um bom dia.
Já tem presidente eleito, o Sporting Clube de Portugal. José Eduardo Bettencourt é o novo rosto da presidência dos leões, por decisão da esmagadora maioria da massa associativa do clube, numa votação que bateu todos os recordes de afluência às urnas desde a eleição de Jorge Gonçalves. Antes de falar aos sócios, e num registo de grande emoção, José Eduardo Bettencourt cantou para todos aqueles que esperavam as primeiras palavras do novo presidente, eleito com quase 90% dos votos.
O resultado prático dessa que terá sido a primeira iniciativa de Bettencourt depois de eleito provoca em mim duas constatações, sendo a primeira óbvia para toda a gente: temos ali um homem apaixonado pelo seu clube e empenhado em dar de si o melhor neste mandato que agora começa. A segunda será igualmente óbvia, digo eu, se bem que menos animadora, talvez: é que, a bem de todos os sportinguistas e do próprio clube, há que esperar que José Eduardo Bettencourt seja melhor administrador do que revelou ser cantor. Porque em caso contrário o melhor é começar já a pensar na 3ª Divisão F, onde é certo que o clube vai acabar, com um tal canário. 'F', de fífia. 'F' de 'Bolas!!'.
Desta vez a coisa foi pensada e antecipadamente preparada para evitar a risota nacional que ocorreu o ano passado. Por isso este ano a decisão vem devidamente fundamentada, o que nem por isso significa que venha correcta, embora seja já um facto consumado: as massagens corporais encontram-se proibidas em todas as praias do país, norte, sul e ilhas. Este ano, nenhum concessionário em nenhuma praia do país poderá oferecer massagens no areal. Não porque ninguém saiba "como acabam" estes momentos de relaxamento e prazer, como chegou a justificar em Julho do ano passado o então comandante da Zona Marítima do Sul, Reis Ágoas.
Desta vez não é o pudor que está em causa, mas motivos de "saúde pública", nada menos. Perante as dúvidas geradas no ano passado, a Capitania de Faro decidiu pedir um parecer à Administração Regional de Saúde do Algarve. A resposta chegou no final do Verão de 2008 e é a que se mantém por agora. "Nenhum dos diplomas prevê o exercício destas actividades sem ser em local próprio, com requisitos específicos e devidamente licenciados, o que não se coaduna com a prática em espaço balnear", lê-se no parecer. Ou seja: mãozinhas quietas na praia, rapaziada. Mirar por enquanto é sem coima, mas consta que estão já a caminho uns avisos iguais aos das pastelarias, 'é favor não mexer nos artigos expostos', que podem até vir a ser obrigatórios nos bikinis ou evoluir para tatuagem. Mas para já vigora a ordem, sem apelo e com fiscalização: na praia não há massagens para ninguém!
É notícia do 'Correio da Manhã' de hoje, em parangonas de capa: «Bébé morre em fila de Hospital». Arrepia, só o título. Mas pior é o desenvolvimento, naturalmente, os pormenores macabros que fazem a história desta morte estúpida à porta dessa coisa estranha (não menos macabra, de resto) que é o Serviço Nacional de Saúde. O caso aconteceu anteontem em Monção, Viana do Castelo, mais exactamente em plena sala de espera do Centro de Saúde local, onde se escoou o futuro de um bébé com menos de um mês de vida. Chamava-se Miguel Simão e tinha apenas 29 dias de existência. Anteontem, pelas 19h00, morreu no colo do pai quando este esperava na fila do Serviço de Urgências do Hospital de Viana do Castelo. A ira dos pais de Simão, José Miguel Cerqueira e Sónia Maria Domingues, tem como alvo uma médica do Centro de Saúde de Monção, onde o bebé esperou, com os pais, mais de três longas horas. Três horas passadas, desde que chegou até que partiu, para sempre, sem que alguém lhe tivesse dado a mínima atenção. Quem foi que disse, quem foi, que a indiferença não mata?
estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.