Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007
O Pai Natal de Mirandela
Segunda-feira, 24 Dez, 2007
Hoje é dia 24 de Dezembro, véspera do Natal de 2007. Noite da vergonha para a Justiça do meu país, que usou o dia para retirar uma criança de três anos aos seus pais afectivos, com quem vivia desde os cinco meses, entregando-a a um Centro de Acolhimento Temporário (CAT) que 'deverá promover a aproximação da criança à mãe biológica'. Em declarações à Lusa, José Policarpo, o pai afectivo, disse que foi informado pelo tribunal na passada sexta-feira da decisão de lhe ser retirada a criança no dia 24 de Dezembro, sendo portanto este o primeiro Natal do Miguel longe da família a quem foi entregue pela própria mãe. Isto porque em Novembro deste ano um juiz do Tribunal de Mirandela decidiu devolver a criança à mãe biológica, apesar dos relatórios do Instituto de Reinserção Social (IRS) valorizarem a ligação afectiva entre o casal Policarpo e o Miguel. Mas decidiu mais, o ilustre magistrado. Entendeu que era imperativo que fosse no dia 24 de Dezembro a hora da separação. Hoje.
Assim, a esta hora que escrevo, o pequeno Miguel estará a ter a sua primeira aula práctica de Justiça Portuguesa, primeiro semestre do resto da sua vida. Estará a conhecer os seus novos amiguinhos e amiguinhas e as novas senhoras e senhores que são todas e todos muito simpáticas e simpáticos e gostarão decerto imenso dele como gostam de todos os outros miguéis que o destino pôs neste mundo de merda com o carimbo de indesejados, pouco desejados, desejados de vez em quando ou à vez, chamem-lhe o que quiserem. Por entre as suas desgraças pessoais, estes são meninos com uma única sorte a protegê-los, qual estrelinha que guiou os Reis até ao perdido estábulo da cristandade. Têm todos a Justiça nacional de olho nos seus problemas, sempre atenta ao 'superior interesse do menor', como reza a Lei, explícitamente. E o Miguel, em especial, tem mais sorte do que todos, que o pai natal, como se pode ver, mora em Mirandela.

Eu cá desejo a todos um feliz Natal e um próspero Ano Novo. Em especial ao senhor doutor juiz que assinou a ordem para este castranço a frio, num gesto tão natalício e que tanto honra a magistratura em geral e Portugal em particular. Que a consoada lhe assente na perfeição são os meus votos. Que os doces o consolem e o licor lhe ruborize a face branca de emoções. E que a sorte do Miguel não lhe retire sequer um segundo da concentração que vai necessitar para ouvir esta noite, por entre arrotinhos de satisfação, as leituras do evangelho na missa do galo a que não faltará por certo, como bom cristão. Depois dormirá o soninho dos justos, em paz com a vida, consigo e com o céu. Deus, estou certo, perdoar-lhe-á todos os pecados. Eu é que não.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 25 de Dezembro de 2007 às 15:26
saci, mifas,
tira-me a vontade das graças, este assunto merdoso.
acreditem que até eu, que tenho a pele dura e o isso calejado, deixei que esta notícia abalasse o meu dia.
lembrei-me de outra, não tão antiga assim, 4, 5 anos, de outro miguel que era espancado com regularidade pelo namorado da avó, a quem estava confiado.
os vizinhos fizeram queixa e o tribunal retirou a criança por uns dias, mas como o Estado não sabia o que fazer com ela um juiz devolveu-a ao cuidado da avó, com muitas recomendações.

morreu na sova seguinte. ao pontapé.


De mifá a 25 de Dezembro de 2007 às 04:11
Em má hora passei por aqui. Eu, que estava tão bem, desconfio que vou dar voltas nos leçóis antes que venha o "joão pestana".Só desejo é que essa coisa que dá pelo nome de juíz( merdíssimo que não meretíssimo ) venha a dar as mesmas voltas no inferno. Mas, até lá, que se lhe atravesse uma alheira na goela já que nada parece atravessar-lhe a consciência. Estafermo!Desculpem o desabafo mas, se não vomitar, congestiono.
E que tal um abaixo-assinado?


De Insaciável a 25 de Dezembro de 2007 às 01:43
Que as mães do Miguel, da Esmeralda e da Iara os tivessem abandonado aquando o seu nascimento, por falta de condições e que estas crianças tivessem sido entregues ( de forma mais ou menos legal) a casais que os amaram como filhos, isto parece-me normal.

Que uns anos mais tarde, essas (mães) biológicas, por excesso de euros na carteira, se tivessem lembrado que afinal já tinham parido uma criança e que tinham condições para a criar, isto já me custa a aceitar.

Agora que a justiça retire estas crianças dos seus lares, dos seus quartos e de onde e com quem se sentem seguros, isto já me parece chocante.

Não sei como é que estes juízes e estas biológicas (e recuso-me a chamar-lhes mães) interpretam “o supremo interesse do menor”.

O ar condicionado da futura casa do Miguel e a sua tia professora que irá tomar conta dele quando a sua biológica estiver a estudar e trabalhar, devem ter sido argumentos de peso…..


De Rui Vasco Neto a 24 de Dezembro de 2007 às 22:18
daniel,
um santo e feliz natal para ti, querido amigo.
um abraço


De Daniel de Sá a 24 de Dezembro de 2007 às 21:02
Por azar de quem é vítima delas, há bestas que conseguem chegar a juízes.
"E as crianças, Senhor?"


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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