Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008
Do portão da casa para dentro
Sexta-feira, 15 Fev, 2008
Daniel, querido amigo. Enganaste-me, em privado. Dizes que mandas um 'poema com uma casa dentro' e envias-me um edifício poético com um poeta lá dentro. Resultado? Acendeste-me a saudade de casa. 'E a casa faz falta mesmo quando já não existe. Mesmo quando os seus telhados de vidro são frágeis como a saudade e inúteis como o remorso'. Não resisti, passei por lá só de fugida. Tem as cortinas corridas e as portadas fechadas, mas a porta está sempre no trinco para facilitar a visita. Trouxe-te este enfeite, estava por lá. Tem música própria, a meias com o Paulo Jorge Santos, guitarrista de eleição, e só foi editado há quatro anos. Mas tem uns bons vinte anos de escrito. Nunca mais me enganes.


Hoje, meu amor, esquece o meu nome
não me esperes mais que eu vou para a rua
beber, fugir de mim, gritar à Lua,
brincar de faz de conta até poder.

Hoje, eu digo a todos os meus medos
que em noites de festa eu sou perfeito
e deixo em casa as mágoas e os segredos
que pesam toneladas no meu peito.

Sinto um recado no ar:
"que os ventos da loucura te protejam,
que os sonhos sejam sonhos que se vejam,
que vidas pequeninas temos nós".

Sigo a voz que sopra aos meus ouvidos
os mais lindos versos que há memória
e deixo-me ir, no embalo dos sentidos,
sonhar dias de sol, noites de glória.

Sempre iguais, os dias continuam;
mal acaba a noite lá vou eu
dizer-te que a manhã escondeu a Lua
e a voz dos versos desapareceu,
o sonho que eu sonhava amanheceu,
e a minha fantasia adormeceu.

publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Alfredo Gago da Câmara a 16 de Fevereiro de 2008 às 03:47
Li este poema com os dedos a saltar sobre as notas das palavras. (oxalá não me engane no solo a meio como de costume).
Abraço


De poetas populares a 15 de Fevereiro de 2008 às 23:40
nas arcas lá da casa todos temos pó, memórias e fantasias. eu tinha também isto, que alguém me deixou lá longe num agosto de 92, escrita não por mim, mas por mim e para mim, antes de eu sair de férias.

" Por pouco tempo fui-me embora, disse adeus
pus na partida falsa dôr para me aquecer
são só uns dias - mesmo assim vou-te esquecer
abrir os olhos sem ser para olhar os teus

Quero acordar sem o teu cheiro no meu cheiro
pensar por mim e nem ouvir a tua voz
olhar para trás e nem que leve um dia inteiro
vou ser só eu e decidir se existe "nós"

Quando voltar já quero a vida arrumada
a casa limpa e sem qualquer resto de ti
mas se puderes volta numa madrugada
só para saber se eu já me arrependi..."


De pode crer a 15 de Fevereiro de 2008 às 22:11
como sempre como d'antes


De Insaciável a 15 de Fevereiro de 2008 às 22:03
Excelente!


De os outros senhores foram para dentro há muito a 15 de Fevereiro de 2008 às 20:21
quando a fechadura do portão está rebentada não é preciso pôr chaves nos bolsos das camisas.


De há coisas tão bem escritas que nem lhes mexo a 15 de Fevereiro de 2008 às 20:11
"para não ter de fechar-se

do lado de fora da casa,

do lado de fora da vida."


De repeat a 15 de Fevereiro de 2008 às 20:02
tout doucement...


De amigos a valer a 15 de Fevereiro de 2008 às 19:24
as mágoas também são como os tijolos. é só pousar o saco e seguir em frente.


De Daniel de Sá a 15 de Fevereiro de 2008 às 17:32
Que mais não fosse, só por esta tua reacção (visita à casa e recordação do poema) o meu arremedo valeu a pena.


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