Sábado, 12 de Janeiro de 2008
Acabado o carpir, ainda Luís Pacheco.
Sábado, 12 Jan, 2008
Leio pela quarta vez a última entrevista de Luís Pacheco, sacada pelo Ricardo Nabais, publicada no Sol. Não digo que a li de cabo a rabo para evitar o convite ao trocadilho merdoso. É que há muito disso, nesta entrevista honesta mas publicada sem inocência, com o selo vermelho "Versão integral" a dar um galão extra à patente de loucura do 'escritor maldito'. Respeitando as palavras ditas, estou certo. Mas cavando valas para escorrerem as respostas previstas, é normal e é assim, vendas são vendas para todos.

Fico a pensar no que ele estaria a pensar. No que ele estaria a passar, principalmente. As fotos não têm cheiro, dão uma ideia mais de cerimónia, compostinha na casca. E mesmo assim é esta que aqui vemos ao lado. O que eu procuro é o retrato exacto e fiel dessa fantasia malcheirosa de liberdade, anarquia, afrontamento, medo, provocação, revolta, génio ou loucura que leva um ser humano a reboque uma vida inteira, mesmo já depois de perceber, na sua convicção mais profunda, que bater com os cornos em moinhos de vento só é romântico em Cervantes. E nas edições antigas, com cheiro a velho no papel, que os sonhos modernos cheiram a cola e a maior parte nem lombada traz, digna de estante na memória. Tento imaginar esse ideal de asneira, essa purga de protesto permanente. E consigo, acho. Vejo uma guarda avançada de rostos possíveis para uma tal fantasia. Mas adivinho um exército de outros que tais e bem maiores para lá do meu campo de visão.

Sobra a realidade, no entanto. Pura e dura. Hoje acordo e tenho fome, romântico o caralho e esse nem funciona, sequer. Hoje deito-me e estou velho, romantiquíssimo, não haja dúvida. Hoje dou por mim e não cumpro os mínimos de estar vivo. «Iam lá a casa, lavavam-me os tomates, o rabo e a merda, mudavam-me a fralda… Como me fazem agora aqui.» Foi-se o viço ao romantismo. Vou acordando morto antes de morrer.

Do escândalo fica mais que do homem. As histórias supostamente mil e supostamente verdadeiras. Do escritor e editor ficam os livros, os escritos, as diatribes. Do amigo ficarão as memórias, se amigos houve e se memórias conseguiram escapar ilesas à mais ou menos ligeira adenda ficcional da autoestima de cada um. Para mim que não tive o privilégio de comprovar a figura à exaustão, fica o tal retrato da tal fantasia que tive de lhe vestir para dar corpo a toda uma existência de luta contra moinhos e homens, nem sempre à vez, na minha imaginação. Entre os milhares e milhares de caracteres desta entrevista ao SOL, eu cá julgo ter encontrado esse retrato fiel, por mim metaforizado, numas escassas dezenas deles. Biografava sem erro de maior, acredito sem esforço, do berço à cova, o escritor e o libertino. Uma vida inteira resumida por metáfora.

«Aí pelos 11 ou 12 anos, houve um poeta alentejano que foi ter consigo...

Acho que fui enrabado.
«Mas não muito», segundo esclareceu mais tarde. O que quis dizer com isso?

Quer dizer que não fui enrabado todos os dias. »

Porra! Uma vida inteira resumida nesta metáfora?


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 14 de Janeiro de 2008 às 18:13
cavaleiro,
haja calma.
e kleenex, na circunstância.

mifas,
buc e brise, para o 1º;
só Buc, para o 2º.
ou seja: buc, no geral.

pi,
pois e mais pois.


De Piedade a 14 de Janeiro de 2008 às 01:16
Mifá,
Tenho de acrescentar: passaste-te, mas muito bem. Ar puro, minha rica, tens toda a razão !!!


De Piedade a 14 de Janeiro de 2008 às 00:31
MiiiiFáááááá...ahahahahah !!!!!
Foi desta, hem ? Passaste-te ???


De mifá a 13 de Janeiro de 2008 às 19:10
A Luíz Pacheco


Luíz Pacheco, quanto mais te leio,
Mais incerta me quedo, mais me baralho
E, na minha incerteza, fico a meio
De te mandar pr`ó céu ou pr`ó caralho.

Foste dos mais imundos o mais feio,
De ponta de decência foste falho,
Mas, eu cá não te julgo pois receio
perder-me do caminho e ir por atalho.


Julgar-te-á a pátria ( julgará? ).
E em que altar te porá? Em que altar?
Tu não te ralas, que já não estás cá


Mas, mesmo que estivesses, se calhar,
Num arremesso louco de proscrito,
Arreavas à pátria um manguito.


De mifá a 13 de Janeiro de 2008 às 13:59
Que desilusão, Luís Pacheco, que desilusão! Li a entrevista ( uma só vez, que sobrou para o vómito ) e não passas de um enorme aleijão !
Até Bocage e Chiado e, se calhar, o próprio Aretino não passam de aprendizes de filhos-da-puta, ao pé de ti.
E é com uns versos do primeiro que me despeço:

" Tu, maligno dragão, cruel harpia,
monstro dos monstros, fúria dos infernos,
...................................
sacode a carne de noventa invernos/
nas descarnadas mãos da morte fria".

Vou respirar ar puro.


De Anónimo a 12 de Janeiro de 2008 às 23:48
a continuar assim... a minha armadura fica toda enferrujada..snif


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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