Sábado, 26 de Abril de 2008
Primeiro as calças, depois o gatilho.
Sábado, 26 Abr, 2008
Fernando Silva tinha 53 anos e um hábito merdoso: gostava de espreitar, casais, carros estacionados em locais isolados e escuros. Como o parque de estacionamento do "Dunas Bar", por exemplo, na praia das Pedras Negras, um dos muitos 'pinódromos' da zona de Leiria. Por várias vezes tinha já sido visto a rondar carros com casais de namorados, repetidas vezes tinha sido "advertido" por militares da GNR. Mas o vício merdoso era mais forte. "Ele era conhecido. Gostava de espreitar os namorados dentro dos carros, em locais ermos e escuros", explicou fonte daquela força policial ao JN. Um vício que Fernando perdeu de vez (esse e os outros todos, de resto) ao ser baleado mortalmente, ontem de madrugada, por um agente da PSP de Leiria, fora de serviço, quando supostamente espreitava para dentro do carro onde este se encontrava acompanhado de uma mulher. Três tiros acabaram com a vida deste camionista voyeur, casado pela terceira vez, residente na Truta. Quanto ao polícia, de 35 anos, casado e com três filhos, trabalhava na Esquadra de Investigação Criminal do Comando Distrital da PSP de Leiria, mas não se encontrava de serviço naquela madrugada, obrigado a fazer cumprir a lei. Em bom rigor, ele estava mesmo era a infringir a lei, absorto naquelas brincadeiras que Fernando espiava do lado de fora. Quando deu pela presença do mirone, o agente não hesitou e fez fogo. Três vezes. Problema resolvido.

Tudo aconteceu cerca das duas da manhã, no parque de estacionamento do "Dunas Bar", na praia das Pedras Negras, cujo acesso é feito através de uma estrada de terra e pedra, junto ao pinhal de Leiria e sem iluminação. "É sossegado. Os casais podem estar à vontade", explica Cândida Bairrada, a gerente do bar. Fernando ainda foi assistido no local por médicos do INEM, mas acabaria por não resistir aos ferimentos provocados pelos três disparos que, segundo o comandante dos Bombeiros da Marinha Grande, Vítor Graça, o atingiram no pescoço, clavícula e omoplata. Os tais três tiros que o agente diz agora ter disparado por pensar 'que se tratava de um assalto', o que não deixa de ser uma teoria curiosa, para não dizer outra coisa. Mas foi essa a justificação que o polícia terá dado aos inspectores da PJ de Leiria, encarregues da investigação deste homicídio. Agora, só o futuro dirá se a desculpa pega, mesmo esfarrapada, ou se este agente vai ter que responder pela vida que fez terminar enquanto laureava a pevide na via pública.

Tudo depende de como venha a ser oficialmente vista a sua atitude, sendo que, nestas coisas de polícias, é por demais sabido que tudo pode acontecer. Ainda me lembro do caso do agente que matou pelas costas um ladrãozeco de rua, há poucos anos, e foi absolvido por 'legítima defesa', prodigiosamente dada como provada em tribunal. Pois este, com 35 anos de idade, casado, três filhos, em princípio de carreira, também dificilmente será alvo de condenação, estou capaz de apostar. Pode até ser que lhe dêem uma medalha pela proeza, que nem por isso foi de somenos: afinal não é qualquer um que, apanhado sem elas, consegue primeiro apertar as calças e só depois o gatilho, com igual destreza e resultado certeiro. E tudo nos seus momentos de lazer, nas folgas da sua consciência, nos pecadilhos da sua juventude plena de testosterona. Não há dúvida: a luta contra o crime não dá tréguas a quem nasce para ser herói.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Margarida a 27 de Abril de 2008 às 14:20
Coitadinho do voyeur, coitado do polícia, coitada da mulher do polícia (não seria com ela que ele estava, certamente), coitado de quem não tem cama e tem que fazer dentro do carro, coitada de quem tem um par de cornos, coitado de quem não tem pistola para matar um sacana desses numa situação idêmtica. Ou fica-se`à espera duma violaçãozinha, hem ???
Resumindo, tá tudo mal como de costume ...


De Eu a 27 de Abril de 2008 às 11:11
Se ainda se lembra eu lembro-me bem melhor que, como talvez também se recorde, fui eu que defendi esse tal polícia e lhe contei a história.
Não era um "ladrãozeco" de rua e não foi morto, mas levou 3 tiros nas pernas. E sim, ia a fugir pela Defensores de Chaves. Todavia, que como diz a minha filha é nome de princesa, se a "legítima defesa" não se aplica aqui a absolvição foi justissíma. Só foi mal enquadrada a sua justificação, mas isso foi birra do Tribunal.E a birra foi comigo, não com o meu polícia.

(e agora, tcharan!.., vai uma aposta se isto é publicado ou não?)


De Saci a 27 de Abril de 2008 às 01:39
Caríssimo

Não vou tomar nenhum partido e bem sei que se trata de um homem que mesmo tendo um vício bastante merdoso, é sempre um homem.

Mas se me permite, está a ver as coisas apenas do lado de fora do carro. Porque quem está lá dentro, “entretido com as brincadeiras” não sabe se quem se aproxima do carro é um mirone ou um assaltante.

O polícia deveria ter tido sangue frio para analisar a situação? Deveria, claro. E provavelmente irá ser punido por essa falta de discernimento. Discernimento que não lhe faltou quando tentou prestar auxílio à vítima, chamou os bombeiros e se encaminhou pelo seu pé ao posto da GNR.


De samuel a 27 de Abril de 2008 às 00:57
...e toda a gente sabe que o castigo para o voyeurismo (provavelmente inofensivo), é a pena de morte. Adiantou e facilitou portanto o trabalho ao tribunal, que lhe fica a dever esse favor.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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