Terça-feira, 9 de Outubro de 2007
Eles lá sabem?
Terça-feira, 09 Out, 2007
Qual é a diferença entre uma opinião de peso e um palpite bem ou mal intencionado? A primeira tem elevadas probabilidades de acerto e assenta em bases sólidas de ciência e conhecimento, enquanto que o palpite tem andaimes de aparência, cargo, simpatia, tom de voz ou cor de gravata e pode até acertar uma vez por outra, tudo pode acontecer. Ou seja: um tolo fashion bate aos pontos um perito andrajoso, é a moral da história. Mas eu aposto que até qualquer benfiquista, se em risco de vida, quer é que o médico seja competente seja ele sócio do Porto ou não (embora ás vezes chegue a duvidar do inverso. acreditam?!). Enfim.


Vem esta arenga a propósito desta história das linhas de muito alta tensão (MAT) que anda a deixar o país em estado de choque. Hoje mesmo o DN dá voz a mais um coro de meias explicações titubeadas pela segunda linha de responsáveis da Rede Eléctrica Nacional (REN) que se queixam, coitados, que enterrar as linhas MAT «custaria pelo menos o dobro», sendo que não existe em Portugal o enquadramento legal que defina as condições legais e técnicas a que teria de obedecer um eventual enterramento de linhas. E mais: ao contrário do que acontece com as redes de gás ou telecomunicações, não há uma lei que estabeleça as características da servidão do terreno, compensações ao proprietários privados e eventuais restrições ao uso da área. Cá está. Isto é uma opinião de peso. Técnicos de uma empresa investigaram os custos de um novo projecto empresarial e opinaram enquanto peritos. Eles lá sabem. Eu acredito. Enterrar as linhas custa comprovadamente mais caro que deixá-las como estão. Só que o assunto é outro. Quer-me parecer que os portugueses vizinhos da linhas MAT se estão bem nas tintas para as despesas da REN, quando o que está na mesa é um possível risco sério para a saúde pública. Eles, lá, sabem?


Bem, o senhor Ministro do Ambiente já veio dizer coisas sobre o assunto. Nunes Correia foi lapidar. Defendeu ser «claramente maioritária» a opinião dos especialistas que «recusam o impacto na saúde» das linhas MAT, mas avisou que o Governo «tem de estar atento» às opiniões contrárias. E assim deixou todos contentes e lá foi governar Portugal. Quem lhe ouviu a voz firme e viu o olhar decidido na televisão não teve dúvidas. Eles lá sabem. Alguma vez era possível uma coisa dessas ser perigosa e o governo deixar? O povo é sereno, ainda e sempre. E eles lá sabem.


Estava a coisa neste pé, opinião para cá, palpite para lá, mais disparate menos asneira, o Supremo Tribunal Administrativo a proibir e eles lá sabem, a linha Fanhões/Trajouce a continuar a funcionar e eles, lá, a saberem, enfim, tudo e todos na expectativa de um parecer credível, quando eis que surge a peça que faltava. José Penedos, o presidente da empresa dos 'eles' que disseram que custava o dobro enterrar os cabos, vem a público dizer que não faz mal tê-los no ar. Dizer não, garantir. O presidente da REN foi taxativo: «Não há prova científica que fundamente o pavor generalizado» em relação aos postes MAT colocados um pouco por todo o país. Diz ele que «nenhum estudo conseguiu, ao fim de anos de investigação, estabelecer a relação causa-efeito» e aponta a prática internacional para desfazer as dúvidas.



Mas a suprema garantia de José Penedos é outra. Ele que sabe, jura a pés juntos que não se importaria nadinha de viver perto de uma linha MAT. Não, não senhor: ele, que sabe, não vive perto de nenhuma, Deus nos livre, por acaso até não. Mas diz que não se importava nada de lá viver. «Não me sentiria ameaçado. Digo-o com a ciência de quem vive no ambiente da electricidade há muitos anos. Não há perigo», garante o presidente da REN. Eles lá, sabem. Nós é que não. Mas queremos saber, precisamos desesperadamente saber. O que nos remete para a tal questão da diferença entre opinião de peso e palpite, tolos e peritos, Benfica e Porto. Este senhor deve saber o que diz. Saberá mesmo? É normal que eles lá saibam. A proximidade de linhas de muito alta tensão pode originar cancro? Ele diz que não, garante que não, jura que não. Ele lá sabe. É um parecer científico? Tem 'a ciência de quem vive no ambiente da electricidade há muitos anos'. Ah, bom, assim é outra coisa. Não se fala mais nisso.



RVN






publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Anónimo a 9 de Outubro de 2007 às 20:31
Garanto, juro, seja ceguinha se não estou afectada, infectada, electrificada e completamente esmagada pela tal de alta tensão. Ele não é um nem dois, são dezenas de postes aqui à volta e a contar a olho nu. Sim, que eles são grandes e qualquer olho, por muito despido que esteja, os pode ver. Mas prontos, já que tenho desculpa para a tolice, posso fazer uma perguntinha, qual Oliver Stone de algibeira?
Logo agora esta guerra toda? Agora que os pequenos accionistas podem vender as acções compradas há três meses e as acçoes andam com uns movimentos estranhos na bolsa? Parece que há gente por aí a tentar rechear carteiras, que o inverno vem aí,com papelinhos electricos.Eles não sonham, mas sabem, que a Primavera vai chegar e as pequenas acções irão florir com toda a sua pujança... Os lotes vendidos são significativos - mais uma acção no monte e era obrigatório uma OPV - e as acções vão subindo. O que não dá jeito nenhum pois não? Se descessem um bocadito a malta embolsava muito mais. Sim, alguém anda por aí a comprar os bocadinhos espalhados da REN.... Mas o truque é comprar barato não é? Pois então vamos lá agitar bandeiras e pôr o mexilhão a gritar. Chamam-se televisões e rádio e coisa e tal. Alugam-se umas camionetas para levar o povo a Lisboa. Diz-se, desdiz-se e atiram-se palpites.Fala-se com o tio do amigo que lá na terra é vizinho do presidente da junta. Ai coitadinhos dos desgraçados que têm linhas no quintal. Já lá viram o que isso é (e sempre foi, caramba, e sempre foi) para a couve? Pois, mas agora porque não vá de enterrar as linhas todas? Enterram-se as linhas ou está-se a enterrar o Zé? A quintita com o poste já vale metade do que valia, olhó crancro meus senhores... O papel da bolsa também vai cair, ai vai vai. E aí, aí ganham os do costume, com palpites ou sem eles.Quem não ganha sou eu que estou para aqui a dizer coisas e nem tenho quintinha nem acçãozita da REN....mas tenho alta tensão com fartura e postes por aqui que nunca mais acabam....mas sempre dão um toque moderno à paisagem e adrenalina à vida.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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