Segunda-feira, 18 de Fevereiro de 2008
500 000 soldados
Segunda-feira, 18 Fev, 2008
Dia de chuva, cinzento lá fora. Dia complicado, cheio de afazeres, tempo apenas para ver o correio assim de fugida e pouco mais. É Daniel de Sá que me envia uma nota: «Tentando compensar a Leonor, envio este poema de Inácio de Sousa, um obscuro militar português que morreu durante a campanha da Rússia de Napoleão. Já estava doente (de tifo ou disenteria) quando o escreveu para a namorada.» Uma nota de quinhentos, portanto. Quinhentos mil.

Em baixo: "500 000 soldados"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá


Tu não verás quinhentos mil soldados
Morrendo cem mil vezes cada dia,
Na vida menos já esperançados
Que na morte, que Deus não abrevia.

Por estes campos, onde tudo é triste,
E todos os destinos desgraçados,
Feliz de ti, meu anjo, que não viste,
E não verás quinhentos mil soldados.

Não só tiros e espadas cá se temem,
Que em menos sangue é mor a agonia.
Cem mil vezes padecem, cem mil gemem,
Morrendo cem mil vezes cada dia.

Não ouvirás as queixas vergonhosas
De tantos mil valentes humilhados,
Que procuravam famas gloriosas,
Na vida já tão pouco esperançados.

Não me verás, meu anjo, não verás,
Mesquinho e triste neste último dia,
Já não esp’rando em ti encontrar paz,
Mas na morte que Deus não abrevia.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De sinhã, a. a 18 de Fevereiro de 2008 às 15:07
E será na morte, amor
que estaremos na paz, em paz
pq tb eu padeço de ti: falta pouco
deus e o anjo verás.
:-)


De Anónimo a 18 de Fevereiro de 2008 às 14:59
A palavra "mil" é uma palavra que sai do coração, de onde saem os mais sentidos poemas e, por isso, os mais belos poemas. Aqui, essa palavra, deu coração à morte.
lenor


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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