Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008
Auto da Mazurca
Terça-feira, 12 Fev, 2008
Caí no disparate de me confessar chateado com a existência, em conversa com o meu amigo Daniel de Sá. Juro que esperava umas queijadinhas da Vila, uma garrafita de verdelho dos Biscoitos, um litro do meu mar ou um frasco com ar da Maia, o bastante para me fazer feliz. Respondeu-me logo. «Meu caro, se estás aborrecido talvez um texto humorístico te ajude. Este que te mando, e fora os amigos do costume, está inédito. Escrevi-o a propósito da entrada do Paulo Coelho na Academia Brasileira. A cena narrada é verdadeira. Aquela tal Mazurca (nome autêntico) faz colecção de autógrafos de escritores na própria capa. Não sei se não a lava para não apagar as recordações das celebridades, ou se se limita a fazer daquilo o que em arte moderna se chama arte do efémero, ou algo assim, de que só pode ficar memória em fotografias.» E pronto, aceitei e agradeci. Agora publico. E amanhã queixo-me outra vez.

Em baixo: "Auto da Mazurca"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

Personagens:

Gaúcho

Caipira


Gaúcho – Os sábios da Academia

Escolhem mui bem seus pares.

Caipira – Pois quem melhor poderia

Escolher

Os doutores que poria

Nos nichos dos seus altares?

G – A saber:

São todos da mesma escola.

C – Talvez não... há diferenças...

G – Mas muito fortes par’cenças...

E deram esta de esmola:

Lá conseguiram tirar

Um Coelho da cartola.

C – Tens inveja do proveito?

G – Nem pensar!

À noite, quando me deito,

Dou voltas na minha cama,

Mas nunca perdi o sono

Por um trono,

Quinze minutos de fama,

Ou mais que pão p’ra comer

E roupa para vestir.

C – E que mais querias ter?

G – Querer mais é ter motivos

De carpir.

O que importa é sermos vivos.

C – Cada qual tem o seu teto,

Só nele deve chupar,

Mas não chupe até secar.

G – Pois... e a Mazurca Barreto

Pôs os seus dois bem à vista.

C – Como foi? Conta-me a história.

G – Tinha uma capa assinada,

Por gente muito afamada,

Que quer ficar na memória

De umas quantas gerações.

Com um simples gesto apenas

Despiu-a,

Entre tantos figurões

Ciosos de suas penas.

C – E aquela gente viu-a?

G – De calcinhas transparentes.

C – Mais nada?

Era o mesmo que ver tudo...

Oh! que almas impenitentes!

Oh! que mulher descarada!

(Mas eu gostava de ver...)

G – Olha que um corpo desnudo

No meio da multidão

Nunca é de apetecer.

C – Não vejo a dif’renciação...

G – Todo o sentido se muda

Na mulher que se desnuda

Ante mil olhos ou dois.

C – Por quem sois...

G – Não há qualquer semelhança.

C – Não percebo onde a mudança...

Não é como estarmos sós?

G – Quem parece nu então,

Numa tal ocasião,

Não é o nu, somos nós!



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 15 de Fevereiro de 2008 às 20:30
mifas,
imagino a peça a rir sem parar, vermelhusco como é...

sol,
está sim senhor, que eu já lá fui.


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2008 às 23:36
Rui, a porta do Sarrabal já está aberta . Acredite que não volta a bater com o nariz na porta. Muito grata pelas palmas do regresso. Aqui para nós, o Brad Pitt, sendo giro, não faz exactamente o meu género. Mas também não digo que desdenhasse um convite...
Outro abraço da Sol


De Anónimo a 13 de Fevereiro de 2008 às 13:24
Vasquinho, eu não disse o melhor : é que, à igreja da localidade onde chegam os romeiros, ao cair da noite, acorrem as pessoas para os recolherem em suas casa, onde lhes servem uma reconfortante refeição e lhes têm preparada uma confortável cama.
Ora, eu estava a pensar ir buscar-te, irmão.
Se calhar conheces uma estória que o meu irmão J... se farta de contar mas, sempre, com repetida graça.
Acontece que, após alguns anos a pedir lá em casa para o deixarem ir de romeiro, lá conseguiu a autorização paterna. E lá foi, acompanhado do nosso irmão A... e de mais um amigo ou dois. Atrevo-me a afirmar que iam mais movidos pelo passeio e espírito de aventura do que pela necessidade de penitência. Eram adolescentes e isso explica tudo.
Pois bem, lá foram com inúmeras recomendações na sacola e, muitas vezes, sem se aperceberem, seguidos de um automóvel onde os olhos vigilantes de nossos pais se asseguravam de que tudo corria bem.
Numa dada freguesia, foram recolhidos por uma dessa almas piedosas que os levou para sua casa. O pior é que essa alma piedosa era também uma alma lavada, no verdadeiro sentido do termo (já vais perceber o porquê de " o pior"). Assim, antes de os romeiros se recolherem aos apetecidos leitos, lembrou-se a criatura de que lavaria os pés, ela-mesma, aos irmãozinhos. O J... entou em pânico. Em vão tentou dissuadi-la de tão excessivo zêlo. A boa alma insistia. Insistia e de bacia preparada com água quente qb, investia contra os pés do j..., que, em vão, se contorcia. É que o J... tem imensas cócegas, sobretudo, nos pés! Mas não teve outro remédio se não entregar-se, em holocausto, às mãos piedosas e escabeladas (limpas, em gíria local) da boa mulher.
Hoje ainda, quando pela centésima vigésima nona vez conta eese episódio, contrai-se todinho com cócegas imaginadas e vocifera com o seu vozeirão "ela é que fez a promessa e eu é que sofri. Isso de prometer com os pés dos outros...".
É que a boa mulher tinha prometido "lavar os pés dos irmãozinhos".

Vasquinho, da lavagem dos pés eu desincumbo-me e desincumbo-te.
Mas a janta e a caminha...já sabes, irmão.

Daniel, esse romeiro, por acaso, não era o Pêro Marques da Inês Pereira?
É que, se era esse, coitado, até se percebe...

mifá

Olha lá, Vasquinho, mudasti essa coisa de seleccionar a identidade e agora baralhei-me. "Fizestes" de propósito, homem?


De Rui Vasco Neto a 13 de Fevereiro de 2008 às 03:41
sam,
a via do infante?

mifas,
........deixa, não é nada.

daniel,
gadjinho, viu, cara?

sol,
seja bem aparecida, julguei-a nos braços de brad pitt, nada menos, arrebatada por uma paixão com cenário nas arábias, onde não chega a internet...
sei quase de cor os seus 'outros natais' e dói-me o nariz de bater na porta.
bato palmas ao regresso.

fredo,
ainda o fado do barbeiro?

mifas,
...............sim, deixa, mas...

daniel,
despe-te que suas? desculpa??


De Daniel de Sá a 13 de Fevereiro de 2008 às 02:16
Ó Mifá, mas isso foram coisas do Joaquim Guilherme e do José Maria, que apreciavam aquilo que não tinham. E com personagens de ficção pode fazer-se tudo. Agora o pobre do Rui é real, embora por vezes não pareça, pelo que não sei se ele chegaria a meia encosta da ribeira Despe-te Que Suas. Aliás, ali já morreu um romeiro de exaustão, por ter carregado uns pedregulhos, como penitência que a si mesmo impôs, decerto por pecados menores que os do Rui e que os meus.


De mifá a 12 de Fevereiro de 2008 às 22:31
Oh Daniel, pois é mesmo disso que se trata. De romeiro, está claro.
Mas não com almofadadas e confortáveis sapatilhas: com os pés penitentes no chão.
Lembra-se do Henrique de Souselas, da Morgadinha? Nada como os ares genuinos do campo, sem falsos confortos, para recobrar o alento e curar as neuras. Ou o Jacinto, da Cidade e as Serras, que definhava na languidez dos ares anémicos de Paris? Nada!
Xaile pró lombo, bordão na mão e aí vou eu que se faz tarde...
Curemos o rapaz que, se não morreu da doença, não há-de morrer da cura.


De Alfredo Gago da Câmara a 12 de Fevereiro de 2008 às 21:02
De romeiro...ai vais, vais.

Ó Vasquinho tem paciência
vem pagar a penitência
podes vir, não guardo mágoa.
P'ra pagares bem por isso
não há vinhos nem chouriço
vais mas é a pão e água.


De Anónimo a 12 de Fevereiro de 2008 às 19:39
Caro RVN:
Todos os dias são dias para se desejar saúde, felicidade, paz. É o que lhe desejo, embora estejamos já na Quaresma. Não retribui pelo Natal, porque estive fora e dei férias ao computador. Ao voltar, apressei-me a colocar no Sarrabal textos que tinha programado. O tempo é pouco, mas lá consegui. Além de ter dado uns retoques nos posts do blog.
Estou agora com o calendário em dia.
Já vi que deu uma volta nos seus "gatos". Ficou melhor. Mais elaborado, visível e chamativo.
Vou dar também uma olhada pelos seus escritos para actualizar a minha leitura.
Abraço da Sol


De Daniel de Sá a 12 de Fevereiro de 2008 às 19:03
Ó Mifá, o Rui não merece nada disso, pelo amor de Deus! Excepto o ir de romeiro.


De mifá a 12 de Fevereiro de 2008 às 17:39
Que melhor desopilante
queres tu, homem de Deus,
que o que o Daniel te fez?
Nem o tinto delirante
ou, até, o vinho de cheiro,
nem o verdelho, talvez,
com broa e bom chouriço,
ou fava rica à vez,
te tirariam o enguiço
dessa cabeça maluca
como o "Auto da Mazurca".
Ou querias a quadrilha,
ou a polca, eu sei lá...
Se tens saudades da ilha,
apanha o vapor pra cá.
Um xaile e um bordão,
no saco, um naco de pão
tudo isso cá se arranja.
E vais de romeiro, que é canja.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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