Domingo, 6 de Janeiro de 2008
A Lenda dos Reis
Domingo, 06 Jan, 2008
Faço notar que embora os Magos sejam um mais que provável acrescento ao Evangelho de Mateus, se eles tivessem ido a Belém seria atrás destes sinais e seguindo este caminho, muito provavelmente.

(Nota do autor)


Em baixo: "A Lenda dos Reis".
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá.


Em Sippar, na Babilónia, fora primeiro Baltasar quem percebera o sinal. Entre as estrelas da constelação dos Peixes, signo das terras do Mediterrâneo, uma luz mais forte predizia grandes coisas para o Ocidente. Júpiter, anunciador de fortuna e protector de reis, juntava o seu clarão ao de Saturno, a estrela de Israel.
Baltasar descera, sem demora, do terraço onde estivera vigiando o céu, para despertar Gaspar e Belchior e lhes ouvir o conselho. Surpreendidos pelo vigor da mão e pela voz tremente do companheiro que assim lhes suspendia o sono, levaram tempo a compreender ao que vinha.
Baltasar explicou-lhes, perturbado, o que pensara do sinal celeste. Que talvez o Messias tivesse, enfim, nascido, nas terras da Palestina.

Gaspar e Belchior subiram, com Baltasar, a perscrutar o céu. Brilhando claramente na imensidão da abóbada, a constelação dos Peixes tinha por companhia uma luz muito forte. Júpiter e Saturno, ali onde o Sol acaba um ciclo e começa outro, pareciam anunciar que um poderoso rei nascera para trazer aos homens a salvação de Deus. E assim Javé daria ao Povo Eleito, disperso pelos confins de além-Jordão, a notícia de que chegara o Messias de Israel.

Os três magos contemplaram o sinal do Senhor até que o Sol, subindo para lá dos Montes Zagros, o apagou da luz. Tinham viajado já por longes terras. Sabiam as estradas da Média e da Susiana, conheciam as ruas e os palácios de Artemita, Apolónia, Chala e Ecbátana, de Seleucia e Alexandria da Susiana. E descansando, num entardecer, à sombra dos muros orientais de Methone, sonharam com Persépolis e Passárgada. Tinham subido o Tigre e o Eufrates até Singara e Dura-Europus. Mas a viagem que agora imaginavam, em busca do Messias prometido, de Sippar à Palestina, seria mais longa e mais custosa do que todas, sobre o deserto da Síria.

Quando lhes foi propício o tempo, deixaram a Babilónia por Neopólis, a caminho do Jordão. Quase dois meses mais tarde, à vista do Monte Nebo se lhes toldou o olhar. O país dos Moabitas era vizinho já do seu destino, e ali morrera Moisés contemplando Canaã.
Ao outro dia, a caravana espantou o sossego de Jericó, Betânia e Betfagé, e, depois de descer o Monte das Oliveiras e passar pelo vale do Cedron, os peregrinos entraram em Jerusalém, com os olhos sempre postos no pináculo do Templo, para louvar Javé no Átrio dos Gentios.

O brilho da estrela que os guiava perdeu-se por entre as luzes do palácio de Herodes, no outro lado da Cidade Santa. Se procuravam um rei, decerto no palácio de outro rei fora nascido. E os magos acreditaram que era ali o seu destino. Mas ainda não. Mais para o Sul, pois de Belém de Judá anunciara o Profeta que um Príncipe sairia a apascentar Israel. Os magos, pela estrada de Belém, viram, uma vez mais à sua frente, a estrela que seguiam. E, aos pastores que pernoitavam nos prados em redor da Cidade de David, fizeram a mesma pergunta com que haviam inquirido um rei no seu palácio.

Ouvindo-os dizer “Messias”, a única palavra que entendeu do culto linguajar dos estrangeiros, os olhos de um velho brilharam num lampejo de felicidade. E, correndo à frente deles como criança que fosse, morriam as estrelas já no firmamento quando parou, numa casa de pobres em Belém, e os fez compreender que era nela que vivia o Messias prometido. Os magos pensaram que o velho não teria perfeito o seu juízo, mesmo ao olharem para o céu e perceberem que Júpiter e Saturno, enquanto lentamente se extinguiam, se apartavam também. Ou seria mais certo esse sinal do que as dúvidas que tinham?

Mas Gaspar, depois de o pastor ter voltado aos prados e ao rebanho, desalentado pediu que procurassem noutro lugar Quem procuravam. Belchior, julgando loucura imaginar que ali vivesse um rei que era o Messias, sentou-se no chão a descansar, antes que fossem, como queria, ao encontro do Salvador de Israel.

Só Baltasar, lembrando Ciro e Dario, Alexandre e César, todos os grandes reis libertadores e todos os poderosos conquistadores, pensou que deles não viera nunca a verdadeira salvação. E acreditava que o sinal que ele primeiro vira fora um sinal do Senhor que os guiara sem engano.

“A salvação não vem dos poderosos da Terra”.
Os seus olhos brilhavam ainda com a mesma luz que em Sippar.
“De um humilde há-de querê-la Deus, para que melhor se entenda que de Deus vem”.
E foi ali que entregaram os seus presentes de oiro, incenso e mirra.

Daniel de Sá



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 9 de Janeiro de 2008 às 01:04
mifas,
vai xonar, ó musa.


De mifá a 9 de Janeiro de 2008 às 01:00
Daniel,
um comentário só para mim é mais do que as minhas expectativas e muito mais do que mereço.
Aliás, a minha reclamação ao Rui foi mais pela ausência da manifestação do apreço, admiração e simpatia que nutro pelo Autor e pelo Homem que o Daniel de Sá " são".
É um raio de sol nestas "ilhas de bruma"( eu sei que a primeira metáfora é estafada e a segunda, roubada mas o adiantado da hora e o cansaço e as brigas com o Rui são pouco propícios às musas).


De Rui Vasco Neto a 9 de Janeiro de 2008 às 00:29
viram, viram?
para mim um corno e metade d'outro.
nem olá.


De Daniel de Sá a 9 de Janeiro de 2008 às 00:24
Mifá, não será privilégio por aí além haver um comentário só para si, mas, se o considera como tal, pois que o seja. Agradeço muito, mas mesmo muito, o apreço em que tem a minha escrita. Sem querer comparar-me com o meu grande amigo Tomaz Vieira, há uma coisa em que sou parecido com ele: continuo a maravilhar-me quando recebo elogios à minha obra.
Aos outros amigos que tiveram a paciente humildade de aqui deixar uma opinião tão deliciosa, o mesmo obrigado e outros, mas iguais, abraços.
Daniel


De mifá a 8 de Janeiro de 2008 às 23:00
É o que eu digo : este rapaz parece que anda com a cabeça na lua. Ou muito me engano ou anda, por aqui, rabo de saias. E, depois, arranja cada metáfora mais alienígena!
Vamos ao que importa, que já se faz tarde: disse eu, em comentário transacto, que, na impossibilidade de o dizer melhor, subscrevia os comentários anteriores (eram, então, os dois primeiros, únicos existentes, à data). Mas, agora, subscrevo todos.


De Rui Vasco Neto a 8 de Janeiro de 2008 às 22:23
cigarrónimo,
a vida é uma caixa de surpresas.
sete vidas dá sete caixas, no mínimo.

sam,
pôr o daniel a render não dá grande guito, mas sempre se goza, meu amigo. consola, ler o homem, não é?

daniel,
vai para dentro, não te maces.

mifas,
já expliquei aqui que esta coisa tem uma vida própria, às vezes, tipo o montro da sigourney weaver no allien 2 ou 3 ou lá o que é...
mas quando a gente vai à procura encontra-se.
ora, eu fui à procura nos cantos possíveis e não estava lá nada.
logo, sugiro uma medicação suave após as refeições e - sobretudo, muito importante - nada de álcool.
nem mais uma gotinha.
jocas

carmo&trindade,
gadinho ingualmente.


De carmo rosa a 8 de Janeiro de 2008 às 18:23
Aos dois, naturalmente.


De carmo rosa a 8 de Janeiro de 2008 às 18:22
O escritor Daniel de Sá tem a habilidade de nos tocar a alma em cada palavra. E é um grande prazer poder ler aqui a sua colaboração mais uma razão para eu passar neste blogue, senhor Rui Vasco Neto. Os meus cumprimentos as dois.


De mifá a 8 de Janeiro de 2008 às 18:09
Ai Rui, andas a trabalhar pouco e mal: então que é do meu comentário ao Daniel, hem?
Agora vi o comentário dele aos comentários e fiquei invejosa.
É só ´desarrumação aí na loja, é?
Trata de o recuperar ( o comentário, claro).


De Daniel de Sá a 8 de Janeiro de 2008 às 01:47
E dá gosto escrever para ter o prazer de saborear comentários desses.
Obrigado, amigos.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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