Quarta-feira, 7 de Novembro de 2007
Extensa ira
Quarta-feira, 07 Nov, 2007
É um Deus caprichoso este que o mundo inteiro ama e reverencia em Fátima, santuário da humanidade. Exigente. Não Lhe chegava o joelho rasgado do crente no arrastar das aflições pela calçada da Fé cristã. Não Lhe chegava o sangue das chagas abertas nos pés que há décadas calcorreiam estradas e pastos e quintais e caminhos de sacrifício, expostos ao olhar da populaça na sua contricta devoção. Não Lhe era suficiente o número de vidas roubadas até hoje em todo o alcatrão que leva à capital/altar da vaidade política e eclesiástica deste país. Dezenas, centenas? Quantos peregrinos atropelados, colhidos pela velocidade da sobrevivência nestes tempos modernos em que só mesmo a Fé anda apeada nas bermas das estradas? Muitos, estou certo. Demasiados, seguramente.

Agora quis Deus na sua infinita bondade que um autocarro de velhos se despenhasse numa ribanceira a caminho de regresso do santuário de Fátima. E que sepultasse uns quantos deles na doce ventura de uma morte iluminada pela proximidade desse farol do mundo onde Nossa Senhora deu conversa aos pastorinhos eternos. Terá sido uma morte santa, por certo. Um horror que se percebe com muita dificuldade.

Fui criado e bem ensinado no respeito à infinita misericórdia do Senhor. E a respeitar os seus altos desígnios. Graças a Deus muitas, graças com Deus nenhumas, de preferência. Venho cumprindo com mais ou menos esforço esta impressão digital que carrego. Mas ninguém me disse que era proibido ficar zangado com o Dito, nem que me estava vedada a capacidade crítica para Lhe perguntar na primeira oportunidade, delicadamente e por extenso, onde raio estava a Sua infinita misericórdia ás dezanove horas e quarenta e cinco minutos do dia 5 de Novembro do ano dois mil e sete da era cristã, ao quilómetro setenta e sete da auto-estrada A-23.
RVN


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 8 de Novembro de 2007 às 18:05
sam,
decididamente?
e o como sempre é meio palpite, que a gente já se vai lendo há uns bons textos.


De samuel a 8 de Novembro de 2007 às 15:07
Rui
Onde viste as certezas, ainda por cima "como sempre"?
Será que tenho certezas e não sabia? Bem preciso de umas tantas...


De Rui Vasco Neto a 8 de Novembro de 2007 às 13:50
mão,
tanta conversa para dar a mão à palmatória.

sam,
muitas certezas, como sempre.
ah, que inveja que eu tenho de gente assim...

daniel,
pois, eu conheço a sensação.
de resto, percebe-se que escrevo de joelho meio dobrado sempre que o assunto é o divino.
julgo que o enigma que fica da tua lembrança é o que tem sustentado a igreja ao longo dos séculos.
na dúvida,mesmo quem não acredita ou não quer acreditar, perante a hipótese (mesmo mínima) da existência da circunstância divina (Deus e o resto, o inferno, o castigo, o fogo eterno) entende ser melhor deixar a chance em aberto e pelo sim pelo não ir admitindo a coisa.. dizem que se chama open mind; eu cá chamo-lhe seguro de vida.

maya,
pode acreditar: sou eu esse velho índio.


De maya a 8 de Novembro de 2007 às 00:48
um velho índio descreveu certa vez os seus conflitos internos:
"dentro de mim existem dois cachorros, um deles é cruel e mau, o outro é muito bom e dócil. Eles estão sempre a brigar."
Quando então lhe perguntaram qual dos cachorros ganharia a briga, o sábio índio parou, reflectiu e respondeu:
"Aquele que eu alimentar."
(Com a devida vénia ao blogue do Spiritwolf)


De Daniel de Sá a 8 de Novembro de 2007 às 00:42
Estas coisas deixam-nos perplexos, pois. Mas, se Deus tivesse feito o automóvel safar-se a tempo de evitar o desvio do autocarro, que é que se diria? "Que sorte!" E sabe-se lá se alguma vez, ou muitas vezes, a sorte é um dos nomes de Deus?
Bem sei que não é justo pensar que Deus pode ajudar uns e não ajudar outros. Nem quero fazer juízos. Mas, pela primeira vez na minha vida, a alguém muito amigo, muito próximo, aconteceu algo inexplicável. Tendo esse meu amigo um problema de garganta que o fizera ficar quase sem voz, devido a dois pólipos nas cordas vocais, iria ser operado pelo Dr. Almeida Lima. Depois de ter rezado e chorado na noite de Sábado para Domingo do Santo Cristo, amanheceu com a voz normal, a que tinha há cerca de dois anos, quando os problemas começaram.
Que eu no próprio Sábado o ouvira e vira na RTP/A, tendo ele de interromper a conversa porque não conaseguia continuá-la, e que, uns dias depois falei com ele ao telefone e ele estava normal, e continua, é verdade. Do resto nada sei.


De samuel a 7 de Novembro de 2007 às 23:59
"onde raio estava a Sua infinita misericórdia..."

Na imaginação fértil de alguns, na falta de imaginação de outros, algures, se existe, mas ali, decididamente, não!


De mão amiga a 7 de Novembro de 2007 às 23:16
Sexta-feira, 2 de Novembro de 2007

Página 161, quinta linha completa.

(..........)

Publicada por Rui Vasco Neto em 19:25 8 comentários

Etiquetas: com um grande obrigadinho à mão amiga

Sabe, e eu sei que sabe, e você sabe que eu sei que você sabe, que esta mão está perfeitamente identificada. Ou não?

Quanto a respostas directas, falhas de raciocínio, trabalheiras e baralhanços sugiro uma observação atenta às horas dos comentários. Salvo melhor opinião, que a minha prejudicada está, foram escritos praticamente ao mesmo tempo...
Sim, eu sei que me julga uma mão perfeita, mas acredite que não consigo ler a sua mente.

No lavar de mãos vou ter de o deixar sozinho - Pilatos também não é dos meus!


De Rui Vasco Neto a 7 de Novembro de 2007 às 19:18
mão, (que não está identificada de todo, quanto mais perfeitamente)

como provavelmente já deve ter percebido (ou não?) de facto não lhe dizia respeito o post, ou então eu não me daria ao trabalho de lhe dar resposta directa a si, baralhada ou não, conforme pode comprovar lá em cima.

portanto sim, pode estar a falhar-lhe o raciocínio, prejudicando a sua opinião.
mas diga-me, isso não acontece a toda a gente? parece-lhe grave?

uma mão amiga lava a outra, dizem. seja pois a mão que embala o berço e apertemos as mãos numa despedida cordial.

mifa,

boa lembrança de antero, a tua.
(antero que como é sabido, teve um pequeno diferendo com Deus no encontro final)

e nada com o chicote, para mim.
a vida estala por si própria com fartura e sem a minha ajuda.


rvn


De mifá a 7 de Novembro de 2007 às 18:49
Alguns excertos de Antero :



"... o velho tirano solitário
..................................
Que um dia, de enjoado ou distraído,
Deixou matar seu filho no Calvário"
...................................


"Sou um parto da Terra monstruoso;
Do húmus primitivo e tenebroso
................................
Misto infeliz, de trevas e de brilho,
Sou talvez Satanás-talvez um filho
Bastardo de Geová-talvez ninguém"


"Deuses impassíveis ...porque nos criastes?
Porque é que para a dor nos evocastes?
Mas os deuses,com a voz inda mais triste,
dizem - Homens!porque é que nos criastes?"

"Ó Deus grande, ó Deus forte, ó Deus terrível,
Não passas de uma vã banalidade!"


"Chamam-me Deus,há mais de dez mil anos,
...................................
Mas eu,porém, não sei como me chamo".


Uma pequena e despretensiosa compilação de alguns excertos de sonetos de Antero, que eclodiram em mim,enquanto lia esta crónica.
A velha problemática a que, também este poeta filósofo ,não ficou indiferente, e que não poucos dissabores lhe trouxe conduzindo-o a aceso conflito entre,por um lado, um natural ascetismo e uma sólida e tradicional educação e, por outro, uma razão portentosamente clarividente e crítica.Não será por acaso que oscila entre a ira que lhe suscita um Deus indiferente e despótico e a compaixão que lhe merece um Deus cabisbaixo e impotente.
Quanto à minha humilde pessoa: eu até que aceito a probabilidade da existência de Deus(es); agora do que ninguém conseguiu convencer-me foi da coexistência dos atributos da divindade.Tenham paciência, mas se omnipotência e bondade absoluta não couberam no mesmo saco que é a cabeça iluminada de Antero, o Santo, o Génio,não se admirem de não caber na minha minúscula cabecinha(aqui, o diminutivo não é afectivo, ele,diminutivo, indica mesmo pequenês).

rvn,
cordiais saudações e mão firme no chicote.


De mão amiga a 7 de Novembro de 2007 às 17:34
Essa dos bons amigos é comigo? Que saiba esta mão está perfeitamente identificada mas confessa que muito baralhada...provavelmente falta-lhe o raciocínio e as opiniões...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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