Domingo, 28 de Outubro de 2007
Chapeladas e um corno
Domingo, 28 Out, 2007
José Torres está doente. E a morrer. Eu não sabia. Quem é o José Torres? Tem razão, há muitos. Este é o Torres que já não é figura pública vai para uma ou duas gerações, pelo menos. Mas que foi grande no seu tempo, em nome e em altura. Era o cabeceador por excelência da selecção nacional pré-Figo & Cia, o jogador do Benfica pré-ordenados milionários e contratações das arábias, o que tabelava com Zé Augusto, Coluna e Eusébio, entre outros. Esse mesmo.

Jogava-se quase a feijões no tempo do Torres. Eusébio que o diga. E diz. Não é preciso dizer quem é o Eusébio, pois não? Pois é. Também não devia ser preciso dizer quem é o José Torres.

Para o 'mundo do futebol', essa pasta viscosa de interesses que faz mexer as pernas de toda a gente, (jogadores para jogar e público para ver), José Torres deveria ser conhecido. E reconhecido, já agora. Nas clássicas mariscadas dos donos da bola, enquanto chupam os dedos sujos de camarão, os homens do futebol não falam de Torres mais do que falaram de Vitor Batista, que já lá está, enterrado por outro coveiro que não ele próprio, no mesmo cemitério onde trabalhou os últimos miseráveis anos. A malta é solidária mas não é parva, não senhor. Elogios a estralejar é uma coisa. Pagar é outro verbo. E ajudar é palavrão.

Quando se recorda com emoção os cinco violinos, mais o Pinga, mais os Eusébios que nunca chegaram a ser reis e se chama 'velhas glórias' aos ídolos do futebol de outros tempos, com a voz embargada pela comoção e o copo estendido ao brinde, era de toda a justiça que as bocas encortiçassem aos que o fazem tendo responsabilidades clubísticas e federativas. Exactamente, encortiçassem. Sabem como é? Acontece quando a gente come muitos figos, ou quando exageramos no camarão. Aquela sensação de ardor e fogo amargo que nos queima o palato e não nos deixa apreciar bons vinhos, como aqueles que foram leiloados hoje em Santarém numa iniciativa particular de solidariedade para com José Torres, velha e doente glória do futebol nacional.
A generosidade do povo rendeu mil e quinhentos euros para ajudar às contas do hospital. Bem mais do que a generosidade dos donos da bola e do Estado português, pessoal do discurso fácil e emotivo. Essa e esses, desde que José Torres calçou as botas e até hoje, rendeu-lhe e renderam-lhe o mesmo de sempre. Chapeladas, um corno e metade de outro.
RVN





publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De atirador especial a 5 de Novembro de 2007 às 16:04
E que faz o Benfica, e este seu Presidente ? Que custa ao Benfica estabelecer um vencimento de por exemplo 1.000 euros, para ajudar a minorar o sofrimento deste grande jogador e enorme ser humano......
É só baixar o ordenado a estas pseudo estrelas que por lá pastam.


De Rui Vasco Neto a 30 de Outubro de 2007 às 16:57
Maria:
achou, não foi? Eu também. E Torres, provavelmente, achou o mesmo a vida toda.
Tenho cá para mim que já não acha agora.

venha sempre

rvn


De Maria a 30 de Outubro de 2007 às 05:00
Gosto de pertencer a este povo, que é solidário, que mostrou hoje tão nobre sentimento com o José Torres.
Sabia que estava doente, mas não tão mal. Sabia que tinha dificuldades, mas não tantas.
Achei, por um momento, achei que alguém do clube a que pertenceu e que tantas alegrias lhe deu pudesse ter tomado nas suas mãos o encargo de minimizar o sofrimento de José Torres. A todos os níveis...
Obrigada por este post.


De Rui Vasco Neto a 29 de Outubro de 2007 às 23:40
dois açorianos pelo preço de um é mais do que eu poderia desejar nas minhas melhores expectativas.

aos dois vos digo: triste país aquele que nos bebe à boca cheia e nos arrota com boquinha de peixe-rei, assim como quem não quer a coisa.
não?


De Nuno Barata a 29 de Outubro de 2007 às 22:15
Não me recordo bem do Torres como futebolista. Contudo, fui columbofilo (ainda sou mas a brincar) e visitei o pombal do Torres no Areeiro onde hoje está um enorme prédio de andares. Na altura ele yinha os melhores pombos correios de portugal e arredores que fazia o Madrid/Lisboa em 12 horas. Tive filhos de pombos dele que faziam Santa maria/São Miguel em 2 horas e Nordeste Ponta Delgada em 45 minutos.


De Daniel de Sá a 28 de Outubro de 2007 às 21:35
Os amigos poderiam servir para ajudar o José Torres, por exemplo. Que poderá não ter sido o melhor avançado-centro do seu tempo (para mim foi o Lourenço, mas eu sou suspeito), mas tinha um coração de oiro. Só que oiro deste, meu caro, não rende no banco, não é?


De Rui Vasco Neto a 28 de Outubro de 2007 às 17:26
Caro whatever:

Fico feliz que tenha reparado. É um marco invejável, de facto. Arrastei-me como um verme sem patas para lá chegar, devo dizer-lhe, mas cá estou. Vim na velocidade que pude e mesmo assim tive um problema aos 68, rodopiei e fiz pião. Mas sobrevivo com um sorriso nos lábios.
Mal tenha uma posição diferente sobre o assunto faço-lhe chegar o up date. Afinal, para que servem os amigos?

rvn


De Anónimo a 28 de Outubro de 2007 às 16:49
Um bocadinho de humor, não faz mal a ninguém:
Caro RVN, pousei os olhos no n.º de postagens e ... parabéns, chegou lá!
Aguardando a próxima posição,


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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