Segunda-feira, 12 de Novembro de 2007
A minha história
Segunda-feira, 12 Nov, 2007
Falo de uma vida inteira, toda uma existência que passámos juntos. Cinquenta e dois anos, para ser exacto. Desde 1954, ano em que Baleizão ficava marcado a sangue no mapa de um Portugal a preto e branco. Lembro-me de tudo. Ou quase tudo, pelo menos, que a memória já me vai atraiçoando aqui e ali. Dizem que é natural, aos 77 anos. Mas recordo o essencial. A primeira imagem que guardei dela, o namoro, o encanto, a malandrice, a primeira vez.. Depois os filhos, tivemos quatro, todos aí bem criados para Deus ver. Lembro os dias felizes, as zangas, as festas, os funerais, os aniversários, aquele dia em que fomos passear mais aquele outro em que fomos jantar fora. Recordo as férias que passámos, as lágrimas que chorámos, a televisão que vimos, sempre juntos, o nascimento das crianças, as esperanças no rosto de cada um deles. As desilusões, a alegria e a tristeza, tudo e tudo e tudo, uma vida inteira, lado a lado, em casa e na rua, na mesa e na cama. Cinquenta e dois anos.

Já não sei quando é que me começou a irritar cada gesto seu, cada palavra dita, cada silêncio acusador. Terei ganho resistência ao seu cheiro e alergia ao toque, todos os dias e a todas as horas. Aquela sua ladainha dos fins de tarde dava nervos a um santo, garanto, e a sua energia nas manhãs deixava-me tonto. Discutíamos cada vez mais, é certo. Gritávamos um com o outro como se cada impropério tivesse o condão de suavizar a vida e perspectivar finalmente a morte, oferecendo-nos um lugar de paz nunca antes alcançada. Para isso fazíamos a nossa guerra. Como se cada insulto resolvesse tudo e acertasse as contas da diferença entre tudo aquilo que queríamos da vida e o pouco poucochinho que ela afinal nos deu. Chegou a um ponto tão insuportável que eu todos os dias pedia a Deus que Ele a levasse, ou a mim, ou aos dois, consoante a ira ou a mágoa do momento.

Mas os momentos nunca passaram disso mesmo, mais ou menos breves, nunca fugazes mas sempre passageiros. Até hoje. Hoje fugiu-me o chão debaixo dos pés. Paciência, a gente chega a velho e sabe que o chão se pode acabar, o problema não é esse. O problema é que fugiram também cinquenta e dois anos de vida num só instante, num só gesto, num tiro, numa só loucura que durando um momento apenas, se instalou para sempre naquele lugar que foi de nós dois e onde já não mora ninguém porque eu assim quis sem querer. Mais do que o chão debaixo dos pés foi-se-me o céu que me cobria a vida e garantia a pouca luz que me restava e que agora se escoou no rasto de uma bala. E que se apagou para sempre. Foi-se tudo. Hoje e pela minha mão.

Estou confuso. Estou cansado. E estou velho, pois claro, olha se não, aos setenta e sete anos de idade... Agora não quero saber de mais nada, já não quero mais decidir, opinar, dizer e fazer coisas. Não quero mais nada. Por isso vou-me sentar aqui à espera, até que me levem ou que eu vá por mim e sem tugir. Já não demora, que eu não quero. Vou ter com ela e peço-lhe perdão. É assim que eu quero que seja.


(JN, 12 Nov)
«O Supremo Tribunal de Justiça manteve a pena de 13 anos de prisão para um serralheiro reformado que matou a mulher com um tiro de caçadeira, em Rio Tinto, no concelho de Gondomar. O arguido, de 77 anos, foi condenado em primeira instância pelos crimes de homicídio simples e detenção ilegal de armas de fogo, mas recorreu da decisão, argumentado, entre outras coisas, que o disparo fatal resultou de um "acto irreflectido", no calor de uma discussão, e sem intenção de matar.»



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Rui Vasco Neto a 14 de Novembro de 2007 às 00:08
pypamary,
eu cá não quero nada, estou só a dizer coisas.

jcnónimo,
sim senhor, vou já tratar disso.
é só um momento.


De Anónimo a 13 de Novembro de 2007 às 22:00
Tretas!
J.C. ficou lá 3 dias e ainda consta do Guiness!
Qual "momentos", qual "yeap"?!
Ponham mas é o gajo a ver o sol aos quadradinhos...em repouso espiritual...a reflectir no momento.... em que ela deixou de ter momentos.


De Rui Vasco Neto a 13 de Novembro de 2007 às 18:26
yeap.


De pypamary a 13 de Novembro de 2007 às 16:41
Lá diz o ditado que "Não há bela sem senão ..." ou, citando RVN, (não) se encontra amor perfeito
amor tem de ter defeito
quando se olha mais de perto ...
Diz-me lá, amigo, queres que eu tenha dó do velhinho ???


De mifá a 13 de Novembro de 2007 às 16:36
" Há momentos que sepultam mais do que a própria morte.".


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas