Sábado, 12 de Janeiro de 2008
Makarov, fava e brinde
Sábado, 12 Jan, 2008
Oleksander Makarov não é um bolo rei. É um ucraniano de 50 anos que andou com uma tesoura na barriga durante um ano. E duas compressas. E ganchos de metal. E fio de sutura. Pois. Isso mesmo. Tesoura, compressas, ganchos e fio. Na barriga. Eu explico.

Makarov deu entrada nas Urgências do Curry Cabral a 13 de Dezembro de 2001 com dores abdominais. No mesmo dia, devido à gravidade do quadro clínico, foi sujeito a uma operação. Tinha uma úlcera perfurada no estômago. Seis dias depois teve alta e no final de Dezembro, conforme lhe fora recomendado, voltou ao hospital "nada tendo sido observado de anormal".

Apesar de ter vinte centímetros de comprimento, a tesoura foi esquecida durante a cirurgia na cavidade abdominal do imigrante. Mais o resto, claro. Já em 2002, Makarov começou a sentir-se mal, com dores, vómitos e ansiedade. E em Agosto vomitou uma compressa pequena, dois ganchos e fio de sutura. Coisa pouca. Só depois de recorrer a serviços privados e fazer um raio X é que Makarov foi parar às Urgências do Curry Cabral onde foi de novo operado para lhe retirarem a tesoura, fechada, do estômago. Chegou a recuperar das lesões abdominais, mas em Maio de 2004 seria "encontrado na via pública com comportamentos psicóticos", conta o Ministério Público. Foi transportado novamente para o Curry Cabral e depois transferido para o Hospital Júlio de Matos, onde lhe diagnosticaram uma "psicose delirante não especificada".

Quase seis anos depois, a 31 de Outubro de 2007, os dois médicos envolvidos foram acusados do crime de ofensa à integridade física por negligência. Vá lá perceber-se porquê, enfim. De acordo com a acusação do Ministério Público, "os arguidos actuaram de forma descuidada, imprudente e desatenta, em relação ao doente que se encontrava sob o seu cuidado". Uma acusação talvez um nadita dura para estes pobres clínicos, que ainda refere ter sido Makarov operado por uma 'equipa incompleta', uma vez que não integrava um enfermeiro instrumentista, a quem compete contar o material no início e no fim das cirurgias. Contudo, insiste que nesse caso os médicos deveriam ter delegado as contagens no "pessoal circulante", ou feito eles próprios esse trabalho, imaginem. Uma maçada a que evidentemente não se deram estes profissionais.

Oleksnder Makarov já regressou ao seu país. Voltou louco e doente, é certo, mas também não se pode ter tudo. Afinal, ele é hoje um verdadeiro embaixador do que de mais típico existe no nosso país: o serviço nacional de saúde e o cosido à portuguesa.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De ernesta a 12 de Janeiro de 2008 às 22:48
No mundo que nos leva a criar uns blogues para não morrermos entupidos com um cirurgião ou uma tesoura ou tudo o mais e o menos atravessados na garganta...


De Rui Vasco Neto a 12 de Janeiro de 2008 às 18:10
mifas,
pois, tadinho.

carlos,

O leste mudou tudo em Portugal. É a língua, acho, mais a rudeza, talvez. Sei que nunca aconteceria com um cirurgião brasileiro, treta do 'país irmão' à parte e tudo.

Era giro saber o que lhe aconteceu. Sete anos é muito tempo. Se resistiu é outro campeão, como este da tesoura.

Amigo, em que raio de mundo se tornou este nosso, não me dizes?


De Carlos Enes a 12 de Janeiro de 2008 às 16:34
A história deste desgraçado fez-me lembrar outra, de outro ucraniano, que conheci no ano 2000. Era cirurgião,com provadas dadas no seu país, e foi-me apresentado na sala do Conselho de Administração do H.S. João, do Porto, pelo então director clínico, Luís Cunha Ribeiro, hoje presidente do INEM. Fiquei surpreendido, porque falava português correctamente e contaram-me como. Em dois ou três meses tinha lido várias vezes um dicionário bilingue; de dia nos jardins do hospital e durante a noite à luz da vela, porque não tinha dinheiro para pagar um quarto mais uma conta de electricidade. O director clínico estava a tentar metê-lo nos quadros do hospital, mas o processo alongava-se contra múltiplas resistências burocráticas, tipo inscrição na Ordem, reconhecimento do percurso académico, congelamento de vagas e por aí fora. Só que, informalmente, este cirurgião já desempenhava uma função indispensável ao hospital, na qual era insubstituível. Traduzia as queixas dos doentes imigrantes de leste, cada vez mais frequentes, muitos deles vítimas de acidentes graves de trabalho. Fui ao HSJ por outras misérias, mas quis fazer a reportagem do cirurgião-tradutor que salvava compatriotas clandestinamente. Ele teve medo e rejeitou gentilmente. Lembro-me dele recorrentemente e foi por isso que a sua forte recordação me voltou a assaltar como um murro. É uma daquelas histórias que me pesa na consciência nunca ter contado. Talvez nos próximos tempos me informe. Mas aposto que, se conseguiu trabalho, não foi ele a esquecer-se da tesoura na barriga de ninguém.


De mifá a 12 de Janeiro de 2008 às 12:54
Rui, deixa de ser "tesoura"!
Já um médico não pode ter um piqueno esquecimento?!


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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