Terça-feira, 8 de Janeiro de 2008
Não somos menos que ninguém. Já se sabe.
Terça-feira, 08 Jan, 2008
O PSD-Açores entendeu dar um tiro de canhão para avisar o governo em particular e o mundo em geral que os Açores são uma região onde o crime está a ter uma escalada assustadora. «Os problemas de insegurança crescem e os casos de criminalidade aumentam», diz o alerta laranja, colocando um vermelho no mapa das mesmas escolhas turísticas que até aqui eram cativadas para visitar um 'povo sofisticado, paraíso ambiental'.

Eu cá não sei se o Engº Costa Neves, homem de grande experiência em rajadas a eito e com vários pés atingidos (pé açoriano, pé portalegrense, pé europeu e pé para a asneira), todos qual queijo suíço, tem uma verdadeira noção do que aconteceu à tal Pandora da caixa que não era para abrir. O que eu sei é que todos os estrangeiros, sem excepção, que já visitam ou poderiam visitar o arquipélago, têm uma noção diferente das palavras 'insegurança' e 'criminalidade'. Lá em casa deles é tudo um nadita mais sério, digo eu, um outro campeonato que não é o nosso. E que esperemos nunca venha a ser. A violência nos Açores é um rebuçado, para quem vem de tiros, bombas, sequestros e outros amargos de boca.

Sem querer menosprezar a seriedade da situação, face ao aumento de casos pontuais e até ao natural desgaste da antiga sensação rural de segurança na vida açoriana, lembro-me de duas situações que Costa Neves faria bem em recordar, antes de se meter com Pandora. Têm cerca de um ano, ano e pouco, as duas.

Uma, as declarações do presidente da junta de freguesia dos Biscoitos, ilha Terceira, feitas à Antena Um e que apelavam explícita e directamente à formação de milícias populares na região, assumindo que ele próprio e a sua freguesia davam já esse lindo exemplo para acabar com os assaltos a meia dúzia de residências nessa semana.

Duas, a situação descrita neste artigo que recuperei no meu arquivo, publicado no Jornal dos Açores e um bom exemplo da esmagadora maioria de ocorrências criminosas que preenchem as folhas de serviço da PSP micaelense. Graças a Deus, digo eu. Mas há quem veja mais longe que eu e seja mais regionalista. Mais amigo da sua terra. Mais açoriano, enfim. O quê, nós não temos crime? Pois, os gajos de Lisboa é que têm tudo. Nós não somos menos que os outros, aqui há de tudo como na Europa. Temos crime, sim senhor. Já se sabe.


O assunto é grave, concordo. Mas a cena de pancadaria de rua que aconteceu anteontem na Calheta tem o seu quê de anedótico e embaraçoso, para não dizer ridículo e confrangedor. Um indivíduo com um taco de baseball sovou dois outros, numa desavença de café. Dois polícias saem de um carro patrulha e tentam deter o homem, mas acabam entrincheirados do lado de dentro de uma agência bancária, onde se refugiaram porque o homem não quis ser detido. E onde estavam acoitados, coitados, com as portas bem fechadas por dentro enquanto o agressor se metia no carro patrulha para se ir embora. Valeu na circunstância a chegada de uma carrinha de reforços da PSP e a ajuda dos populares que não fugiram, e que terão segurado um dos homens até que os dois polícias saíssem do banco e lhe pusessem as algemas.


Foi um dos grandes temas da actualidade local de ontem, em todos os meios de comunicação social. Notícias e comentários tiveram em comum a mesma abordagem: o crescendo da violência na região e o desrespeito pela autoridade. O que não deixa de estar correcto e ser por demais verdadeiro. Estamos todos de acordo nesse ponto. Mas, vão-me desculpar a dissonância, há aqui qualquer coisa que não bate certo nesta história. Vejamos.


Dois agentes da autoridade, dois, cada um com seu bastão, par de algemas e pistola, tomam a decisão de se fecharem dentro de um banco para fugir de um homem armado com um taco de baseball? Abandonam o carro patrulha em condições de ser utilizado para a fuga do suspeito que tentam prender? Por mais que se puxe a atenção para o mau da fita, nem por isso os bons ficam bem neste retrato.


As regras a observar pelas forças de segurança em situações deste género são absolutamente claras e estão definidas em pormenor no manual de procedimentos da PSP, sendo naturalmente exigido a cada operacional da coorporação que as cumpra com o rigor que o seu bom senso aconselhe para cada caso em particular. Elas destinam-se a prevenir as várias hipóteses de evolução passíveis de acontecer em situações de ameaça violenta, como a deste caso. E a salvaguardar a integridade física quer dos agentes da autoridade, quer dos populares que possam estar presentes na circunstância. Nada disto me parece ter sido observado aqui.


Eu sei que este raciocínio não é simpático. Não é agradável admitir a hipótese que um polícia possa errar ou agir menos bem, se quiserem, mesmo que seja apenas a presunção de uma possibilidade. Mas uma observação sóbria e atenta da prática do trabalho policial é quase uma imposição para os portugueses, neste momento em que essas mesmas regras de procedimentos de rua são objecto de séria discussão envolvendo os próprios sindicatos de polícia, que vêm tentando implantar acções de prevenção com recurso a bastões eléctricos, por exemplo, e outras técnicas mais habituais nos norte-americanos que nos brandos costumes lusitanos.

Uma coisa é certa. A salvaguarda da integridade física dos agentes da lei e de civis inocentes não pode estar em causa, em nenhuma circunstância. Nem o respeito pela farda que é devido como condição primeira para a sua eficácia. Por isso, também por isso e sobretudo por isso, uma actuação com conta certa e medida oportuna é o mínimo que é exigível a quem anda na rua com a missão de ter mão na ordem pública. Com bom senso. Com justiça e com firmeza. E de preferência do lado de fora das portas que se fecham quando há porrada na rua.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Piedade a 9 de Janeiro de 2008 às 01:28
Ai Rui, eu avisei-te !!! "Saloiíce" ? Eu cá quero é ordem na minha terra e quero lá saber se vêm mais ou menos turistas.


De mifá a 9 de Janeiro de 2008 às 00:44
Rui,
acabei de fazer uma leitura, uma só, e muito enviesada. Ia, até, abandonar o pc. Se calhar, até, o comentário que vou deixar, amanhã, me parecerá menos exacto ou oportuno. Muito embora, adiante.
Misturas um tom sério com um menos sério. Não o critico e acho-lhe, mesmo, uma certa piada. Agora, o que não posso deixar passar, sem pelo menos insurgir-me, é a ideia de que há um reclamar de ocorrências de crimes para os Açores para que lhes seja burilada a pele saloia e eles possam parecer e aparecer com um ar mais urbano, mais cosmopolita, quiçá, mais civilizado. Aliás, não me parece que dos estudos sobre a geografia da criminalidade e suas estatísticas, se possa ou deva concluir que o maior número de crimes está associado às cidades mais urbanas (passe a redundância) ou aos maiores países. Talvez, às cidades mais pseudamente urbanas e aos países "mais grandes", que não maiores.
Portanto, a haver essa reclamação de " pé de igualdade", no que concerna a criminalidade, eu não a subscrevo.O que subscrevo, sim, é a seguinte constatação: o assalto, a violação de domicílio, a agressão (que pena não poder engrossar a lista com uma série de estripamentos e de facadas de esquartejar homem e rês, para não ficarmos aquém dos outros!...) está a aumentar em progressão geométrica. Não interessa se dantes era em progressão aritmética. Está a aumentar assustadoramente e, com ela, inevitavelmente, a insegurança. E eu quero e exijo a manutenção do meu direito a sentir-me segura: aqui, na conchinchina, ou no cú de judas. E, quando vejo, ou oiço, por exemplo que um energúmeno assalta pessoas de idade que vão buscar uns tostões mal paridos, fruto parco de toda uma vida de trabalho, ou que andam a atirar garrafas cheias de terra para dentro de moradias de pessoas idosas e respeitáveis e que nunca fizeram mal a ninguém, para saberem se a casa se encontra disponível para o saque, ou que andam a partir os vidros e a entrar em casa de outras, levando-lhes oiros, computadores, etç... eu passo-me.
Ai, aqui, sou muito boçal.E rural. E provinciana.
E, quando penso que estou a ser afastada e quase votada ao ostracismo como se fosse leprosa, por fumar marlboro, que compro com o meu dinheiro e, até contribuindo para engrossar largamente os cofres do estado, e que a grande maioria desses crimes se deve a problemas relacionados com o consumo de droga e consequente necessidade de a obter, salta-me a tampa. E salta-me porque há crime, há hipocrisia , há estupidez. Matar-se, mate-se quem quiser, que eu também o vou fazendo, com o cigarro ou sem ele.Agora, matar os outros, ai isso é que não!
Por isso, à semelhança do que aqui já disse, repito : quem se meter comigo ou com os meus vai, seguramente, arrepender-se.
Ah, eureka, lembrei-me, agora de um crime hediondo que aconteceu, em Ponta Delgada, há uns anos atrás: um sobrinho que esfaqueou uma tia idosa que o havia criado. Vês, Rui, sempre vou menos frustrada para os lençóis: talvez ainda haja esperança de estas ilhas virem a competir com a criminalidade metropolitana.
Francamente, eu sei que isto deve tresandar a fla, mas muito me riria se assim fosse!... Seria o cúmulo da ironia!


De Piedade a 8 de Janeiro de 2008 às 23:59
Quantos textos já publicaste aqui, de há um (ou dois?) anos atrás, que continuam actuais ? Realmemte, só no paraíso as coisas não mudam. Nem as moscas!!


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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