Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008
Lição de Português
Sexta-feira, 29 Fev, 2008
E que tal uma sopinha de letras, uma lição de português dada a sorrir com carinho de professor açoriano? Escreve-me o meu amigo Daniel de Sá: «Mando-te uns versos rimados, posivelmente publicáveis, que pode ser que ensinem uma nisca de Português a alguns leitores e, sabe-se lá, talvez te façam sorrir.» Junta-lhe «um abraço enorme» e deixa-me feliz, como sempre. Um luxo, este fruto da minha ilha.

Em baixo: "Lição de Português".
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá.
Trocas o “xis” com o “ésse”?
Procura igual em Inglês.
Splendid não te parece
Esplêndido em Português?
“Dispendere” é bom latim.
Gastar dinheiro compensa,
Se o despendes com o fim
De encher, e bem, a despensa.
Podes ter uma obsessão,
E podes ser obcecado.
Faz acto de contrição
Se acaso já tens errado.
Obcecar é ficar cego,
Mesmo se é paixão simpática.
Como homem, faz-te estratego
Para escolher bem a táctica.
Confundes o indirecto
E o complemento directo?
Pois pensa no Brasileiro
Que é Português verdadeiro,
Um pouco mais a cantar.
Se ouves dizer “dei a ele”,
Para o mesmo afirmar
Diz “dei-lhe”, que é o legal.
Ou, se ouvires “eu vi ele”,
Não hesites, diz “eu vi-o”,
À moda de Portugal.
Confundes com os pronomes
A desinência verbal?
Pois aceita o desafio:
O “mos” em lugar dos nomes
É caso raro, tão raro,
Que convém é não dizê-lo,
E melhor não escrevê-lo,
Porque te fica mais caro.
Se “mos” puderes trocar
Pela forma feminina,
Então podes separar.
Como tens cabeça fina,
Vou já exemplificar
Com damas e seus bordados,
Ou com damas e com rendas.
Oh! que lindos! Dá-mos, sim?
(E só te pedi as prendas
Dos seus dedos tão prendados.)
Mas se eu te dissesse assim:
Oh! que lindas! Dá-mas, sim?
(Bem podiam ser as rendas...
Ou as damas. É o fim.)

publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De amadorismos a 3 de Março de 2008 às 15:53
De nada daniel, mas sou uma "a" e não um "o"...

beijinhos


De Daniel de Sá a 2 de Março de 2008 às 00:53
Leonor, quando agradeci aos outros, ainda não estava cá a sua mensagem. Obrigado, querida amiga.


De Daniel de Sá a 1 de Março de 2008 às 01:27
Alfredo, é pena não dar para fado...
Mifá, bom coração, como sempre.
Quanto ao "amadorismos", não o parece lá muito. O que escreveu foi mesmo a sério e com muita graça.
Obrigado.


De lenor a 1 de Março de 2008 às 00:08
Bonito, divertido e carinhoso. «dada a sorrir com carinho», como disse RVN.
lenor


De Amadorismos a 29 de Fevereiro de 2008 às 15:20
E há mais dois truquezinhos
Que conheço desde a escola
Se se me baralha o h
Que às vezes anda com o à
Peço ajuda a um estrangeiro
Que numa lingua diferente
Que não fala como a gente
Um there is ou il y a
Tira-me a dúvida do h,
Que o falar é diferente
Mas é verbo como cá.
O "mos" já está explicado,
Mas com o "se" o que fazer,
Que há quem ponha tracinho
Onde é verbo e não pronome,
Quando afinal é tão fácil
Também esta resolver,
Se se souber dizer não
Como nos manda a razão,
Que ser sempre positivo
Não é o mais avisado.
Ter-se dúvidas é o caminho
Não se ter pode dar asneira,
Que o traço só fica lá
Se não saltar para cá
A terminação matreira.
Escrever-se bem não é fácil
Mas não se escrever é desleixo,
Se não se nasce ensinado
Não é triste o nosso fado,
E não sirva de pretexto,
Que soubesse-se sempre tudo
Que não se sabia nada.
Ensinasse-se sempre assim,
A brincar e a cantar,
Que não se via tanta gente,
A perder-se no meio das letras,
Sem se saber encontrar!




deixa o diabo entrar
e estragar o ditado


De mifá a 29 de Fevereiro de 2008 às 13:26
Ó Daniel, cuidado, se não ainda vão obrigar os professores a leccionar a matéria em verso!
Com as exigências que por aí vão...

(Excelente. Como sempre.)

Abraço.


De Alfredo Gago da Câmara a 29 de Fevereiro de 2008 às 03:13
Que bonito!!! Já não vinha ao blog há algum tempo, mas agora, que acabei de ouvir e gravar fado, soube-me tão bem ler isto que o Daniel escreveu. Alguem me saberá dizer porquê?


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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