Sábado, 24 de Novembro de 2007
Porra, Doutor!
Sábado, 24 Nov, 2007
"As pessoas têm uma forma fantástica de dizer as coisas mais complicadas, de explicar as suas dificuldades", contou, ao JN, o otorrinolaringologista Carlos Barreiro da Costa, autor do livro "A Medicina na Voz do Povo", que reúne frases ouvidas em diferentes consultórios e diversas especialidades ao longo de trinta anos. O resultado é qualquer coisa de genial, no que encerra de sabedoria e ignorância popular, tudo junto e à mistura com a dor e o sofrimento de quem vai porque tem que ir: ao médico.

Foi nessa ignorante sabedoria que o autor se baseou para explicar aos seus alunos de medicina a manobra de Valsalva (realizada ao exalar forçadamente o ar contra os lábios fechados e o nariz tapado, forçando o ar em direcção ao ouvido médio se a trompa de eustáquio estiver aberta). "Uma explicação complicada, que um paciente traduziu da forma mais simples ao dizer 'quando me assoo dou um traque pelo ouvido'", contou. Mas há mais. Muito, muito mais nesta "Medicina na voz do povo". Tudo o que se segue, todas as palavras, nas frases respectivas, são tiradas do livro. Sic. Não são anedotas, é a realidade tal e qual. A arrumação é fiel ao sentido de cada uma, fidelíssima, até, mas é minha. Porque sim.

Doutor:

Tenho a língua cheia de áfricas.' Ouço mal, vejo mal, tenho a mente descaída.' A minha expectoração é limpa, assim branquinha, parece, com sua licença, espermatozóides.' A garganta traqueia-me, dá-me aqueles estalinhos e depois fica melhor.' O dente arrecolhia pus, e na altura em que arrecolhia às imidulas, infeccionava-as.' Na voz sinto aquilo tudo embuzinado. Não tenho dores, a voz é que está muito fosforenta. Tenho humidade gordurosa nas cordas vocais.'

Tenho de ser operado ao stick. Já fui operado aos estículos.' O Médico mandou-me lavar a montadeira logo de manhã.' Ando com o fígado elevado.' Já o tive a 40, mas agora está mais baixo.' Fizeram-me um exame que era uma televisão a trabalhar e eu a comer papa.' O meu reumatismo é climático. Metade das minhas doenças é desfalsificação dos ossos e intendência para a tensão alta. Além das itroses tenho classificação ossal.' O pouco cálcio que tenho acumula-se na fractura.'


Tenho esta comichão na perseguida porque o meu marido tem uma infecção na ponta da natureza. A minha pardalona está a mudar de cor.' O meu filho foi operado ao pence (apêndice) mas não lhe puseram os trenós (drenos), encheu o pipo e teve que pôr o soma (sonda).' O meu marido está internado porque sangra pela via da frente e pinga pela via de trás.' Ou caiu da burra ou foi um ataque cardeal.' Estava a ficar com os abéticos no sangue.'

Fujo dos antibióticos por causa do estômago. Prefiro remédios caseiros, a aguardente queimada faz-me muito bem. Tomo um vinho que não me assobe à cabeça.' Senhor Doutor, a minha mulher tem umas almorródias que, com a sua licença, nem dá um peido.'

Não sou muito afluente de vir aos médicos. Na minha opinião sinto-me com melhores sintomas. Quando me assoo dou um traque pelo ouvido, e enquanto não puxar pelo corpo, suar, ou o caralho, o nariz não se destapa.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De mifá a 25 de Novembro de 2007 às 23:23
rvn,
apardalada fiquei eu a ver os seus comentários!


De Rui Vasco Neto a 25 de Novembro de 2007 às 20:08
mifas,
e a pardalona? sim, que me dizes tu da pardalona?

maria,
eu não sou muito afluente de dormir cedo.

mifas,
sempre preocupada com os outros...
uma santa, é o que tu és.


De mifá a 25 de Novembro de 2007 às 14:36
maria,
já agora, se não for pedir muito, evite assoar-se, se não os vizinhos...


De Maria a 25 de Novembro de 2007 às 04:27
Gosto da técnica de destapar o nariz, no último parágrafo......
(agora em gargalhadas) .... coitada da "perseguida" pela "ponta da natureza"..........
Vou-me embora que a esta hora não posso rir muito senão os vizinhos.......


De mifá a 25 de Novembro de 2007 às 01:00
Ora digam lá se " perseguida" e "ponta da natureza" não são belíssimas metáforas, suas cabeças ... de alfinete?!


De ordem detectives privados a 29 de Novembro de 2011 às 01:29
bom dia muito obrigadao. foi muito agradavel... aquela publicação é mesmo fantástico, passei a ser faa 100% neste bloge... cmprmentos


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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