Domingo, 3 de Fevereiro de 2008
Canduras
Domingo, 03 Fev, 2008
Dizer que a coisa começou com Marinho Pinto é mangar com a gente, tenham paciência. Pois sim, não havia corrupção antes, nada naducha, logo não havia o que acusar, logo ninguém tinha necesidade de acusar ninguém até aparecer aquele desbocado em roda livre no trombone da denúncia nacional. E falamos da grande corrupção, claro, que nunca existiu. Porque se falarmos da pequena trafulhice - eu dou-te a ponte mas tu pagas portagem, toma lá casino ó assis, arbitra o jogo mal mas vê lá bem, dá cá projecto que eu assino por ti, tu ganhas aqui mas eu ali também, uma mão que lava as duas - enfim, cambalachos de somenos, essa então não só nunca existiu como nunca existirá, que o ser humano é incapaz dessas coisas. E o político, esse pilar, nem se imagina: jamé! Alvitrar tamanha monstruosidade justifica bem a indignação de qualquer primeiro ministro.

Só que os jornais falam, as televisões mostram, as rádios contam e a gente vê. Lá se vai o mito da incorruptibilidade. E lá vem a classe política para a ribalta da atenção nacional, neste jogo de vermelhinha em que o pagode nunca acerta na melhor de três, por mais que vote, embora julgue que não tira os olhos da jogada dos eleitos com o seu voto. E lá vêm as capas de jornal, as aberturas de noticiário, o escândalo servido com o jantar diário na mesa dos portugueses. Ora, quem escreve para viver acaba vivendo a escrever sempre mais do mesmo e com palavras gastas, ou feridas de intenção pessoal. Por isso fui buscar socorro para a ocasião. Às minhas palavras sobra inconsequência e falta legitimidade e competência para um juizo milimétrico de acerto. Mas Natália topava-os bem, mesmo ao tempo, que a Correia tinha olho para a rataria. Se não, atente-se nestas quadras publicadas em 1983 no Bisnau e reproduzidas em poema integral aqui, onde eu fui beber estas 'malvadas línguas que dão fel à fama'. Um mimo de actualidade. E não fui eu que disse, uff.

Malvadas línguas que dão fel à fama
Dizem que nestes lúdicos quadrantes,
Os políticos querem é ter mama.
Como não hão-de querer se são lactantes?

Onde os meninos de tudo são senhores
Forçoso é que da asneira haja fartura.
E se alguns deles são uns estupores.
É só por traquinice. É só candura.
(Natália Correia, lida aqui)


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 5 de Fevereiro de 2008 às 22:32
sam,
boa memória. Era uma peça de canhão, Deus a tenha lá no panteão dos loucos, que não a vejo a querer estar em mais lado algum.(estás a vê-la aos gritos pelo Dórdio lá no céu?)

mariiiiia,
abreijos é fixe.

cris,
pois, mas eu ando a trabalhar nisso. mais cinco vidas e meto a Correia num chinelo, vai ver.


De CristinaGS a 4 de Fevereiro de 2008 às 14:53
Clarividência que nos vai faltando.


De Anónimo a 4 de Fevereiro de 2008 às 09:40
Belo post!
Sem dúvida.
Ela é enorme!!
abreijos,
Maria ( a açoriana, com "i" :)).


De samuel a 4 de Fevereiro de 2008 às 01:19
Belo post!
A tua patrícia é grande!
Foi a minha primeira letrista oficial. Adorei cada minuto que passei com ela no "Botequim", mesmo os mais embaraçosos. Naquela idade, meses depois de gravar o primeiro disco, era um bocadito penoso ouvir a Natália dizer no seu delicado volume de voz, em pleno Botequim cheio, "ó Samuel, cante lá uma das nossas cantigas!"


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