Terça-feira, 27 de Novembro de 2007
A morte das Vidas Reais
Terça-feira, 27 Nov, 2007
Até ao incontornável 'Vidas Reais', a minha proximidade aos chamados reality shows não passava disso mesmo: próximo mas noutro fuso horário. Nos idos de 1986 já eu dividia o mesmo ecrán com Gugu Liberato, mas ele na dele e eu na minha, ambos na TvRecord/SBT, onde o meu patrão da altura, o ainda mais incontornável Sílvio Santos, apresentava o creme de la creme da estação: um programa de onze-horas-onze, ao domingo, composto por onze-rubricas-onze, todas diferentes e com uma hora de duração. Uma dessas rubricas determinou para sempre a minha cultura pessoal e profissional.

Chamava-se 'Tudo por dinheiro' e era isso mesmo. Tudo por dinheiro. O que é que você está disposto a fazer por dinheiro? Uma hora disto, gravado. Sílvio escolhia uma rua, praça, um jardim. E interpelava as pessoas que passavam com uma mão cheia de notas. "Você está disposto a fazer isto ou não?", perguntava Sílvio. E as notas iam saindo a cada negativa. "E agora?". Mais notas ainda se era não e mais e mais, até à esmagadora maioria de sims. Eu juro que vi gente comer merda, ipso factum. E tomar banho em fontes públicas, vestida e calçada, dançar e zurrar na calçada. Vi tirar a roupa, gatinhar e ladrar, toda a galeria de ilustrações populuchas tiradas da imensa e perversa imaginação de Sílvio Santos, génio televisivo e um dos maiores intrujões da comunicação mundial. E todos sorriam no fim, agradecendo e dizendo adeus para a camera, abraçados ao sorriso cintilante do patrãozinho.

O fascínio da televisão é isto. É o que é. Um fascínio, do Lat. fascinu, encantamento, mau olhado, quebranto, diz o dicionário e eu acredito. Como que enfeitiçadas, as pessoas prestam-se a tudo pela pantalha. O 'Vidas Reais' era assim, claro. Todos os programas do género o são. Neste ponto é importante que se desiludam aqueles que esperam de mim rituais de arrependimento e uma boa negação em voz alta antes do galo cantar três vezes. Não vai acontecer. Fiz quase três anos de programas, entre diários e bi-semanais, sem que de um deles, para amostra, eu sinta vergonha pela minha prestação pessoal como moderador. Tenho orgulho no trabalho de comunicação que ali fiz. Mas vi coisas vergonhosas, é certo. A face feia e mórbida do vil exibicionismo. A natureza humana tem destes abismos negros, bem lá no fundinho das almas. E a fingir ou a sério, revelam-se no pior se lhe dão essa oportunidade na televisão. Encorajar essa tendência natural é acender um fósforo numa fuga de gás.

É público e sabido que a série 'Vidas Reais' terminou por comum desacordo entre mim e a produção do programa. Razões várias desgastaram uma relação que - só o saberá quem faz destas vidas, atrás ou à frente das cameras - foi muito intensa e muito tensa também, coisa que faz parte do próprio conceito de televisão em directo. Passaram dois anos sobre o final da série e nunca falei publicamente do assunto, exactamente por entender que não havia assunto para falar. Hoje, ao ler este post sobre este caso, entendi que era tempo de comentar o fenómeno 'Vidas Reais', mais que o programa em si.
"O Diário de Patrícia
" é um reality show da Antena 3 espanhola que é uma mistura de 'Fiel ou Infiel' e 'Ponto de Encontro'. Svetlana era uma jovem russa que aceitou ir ao programa para conhecer um homem que lhe propusesse casamento. Sem lhe dizer, a produção do programa aceitou a candidatura do ex-noivo de Svetlana, que depois de cumprir onze meses de cadeia por maus tratos infligidos e denunciados pela própria, foi ao 'Diário de Patrícia' ajoelhar, tirar do bolso o anel e propor novamente casamento à sua ex-vítima. Vá lá perceber-se porquê, a jovem disse que não. Vá lá perceber-se porquê, o homem matou Svetlana dias depois, ainda no eco da sua pública vergonha.

Dizem os brasileiros que 'não se cutuca a onça com vara curta' e têm razão. Picar e repicar o balão de emoções do povo com provocações afiadas por especialistas é um convite directo ao estoiro e ao barulho. E essa é a técnica das produções de programas como o 'Vidas Reais', o 'Fiel ou Infiel' ou o 'Diário de Patrícia'. É assim. Faz parte daquela específica arte de fazer. Sim, dirão os demagogos mais puristas, isso é arte? Claro que é. Criar as perfeitas condições no estúdio para alcançar um objectivo previamente definido em guião é nada mais que concretizar competência, que se traduz em pontos de audiência. Ninguém quer trabalhar em equipas fracas, seja em televisão, no futebol ou nas obras. Qual é o realizador que brilha em planos de corte de uma assistência apática? Qual é o produtor que mostra valor se só tiver duas cadeiras e um pano preto para arranjar? Qual é o apresentador que brilha sem uma luz em condições, um cenário digno, uma plateia activa, se for esse o tipo de programa? É preciso ir tão longe na baixaria, descer à sexta cave do óbvio para encontrar um bólide vencedor na corrida das audiências? Na minha opinião não, não era preciso. Por isso acabou o 'Vidas Reais'.

Ver o 'Fiel ou Infiel', o 'Você na TV', a 'Fátima Lopes' ou as 'Tardes de Júlia', é ver em acção o mesmo exacto princípio que faz o 'Prós e Contras'. Sem tirar nem pôr. Aqui d'el rei, dirão as sumidades do costume, grande disparate, que programas tão diferentes! Deixem-se disso. E das caganças de quem até nunca viu o Goucha, nunca, talvez só uma vez ou duas, taltrês. Claro que sim. Gente séria não gosta de peixeirada. É por isso que o 'Porque no te callas' do rei de Espanha não é já um videoclip de sucesso no you tube. Na produção televisiva da era moderna, 'tele-espectador' é a tradução de sentido exacto para 'voyeur'. E a 'peixeirada' para as classes C e D é a 'polémica' para as classes A e B. Este é o abc do produtor e a regra primeira do criativo de televisão, que precisam de trabalhar como toda a gente. Daí ser a regra de ouro do director de programas.

Onde está então a linha que separa audiências e fracassos, direitos e deveres, bom senso e sucesso, lixo e qualidade, peixeiras e polemistas, sensatez e animação? E quem a define? E porque não se aplica, se está definida? São três boas perguntas para as quais não tenho respostas, que imagino só possam ser encontradas nos milhentos estudos de audiência que enchem as gavetas dos programadores e determinam a cultura dos portugueses. O ovo e a galinha ou a pescadinha de rabo na boca, causa e consequência numa ordem por definir. No Portugal contemporâneo são os programadores de televisão quem melhor domina a ciência dos gostos nacionais. Eles é que sabem o que o povo gosta.

Por isso Sílvio Santos, meu ex-patrãozinho e ainda dono do maior império de televisão do Brasil, o SBT, hoje com centenas de pequenas emissoras de rádio e TV em cadeia, apareceu ainda recentemente em todos os meios de comunicação, em directo da varanda do seu apartamento de Miami, sentado numa cadeira de rodas, ar frágil, manta sobre os joelhos e côr amarelada no rosto. Veio informar o mundo que estava em estado terminal, com um cancro, e que por isso iria vender o SBT. As lágrimas caíram e as acções do grupo subiram. E quando o mundo soube que era mentira, muito tempo depois e pela voz do próprio, entre outras, Sílvio resolveu o assunto com a risada gutural e aquele mesmo sorriso cintilante com que cai num aquário em directo, ou manda comer merda por dinheiro no seu programa de domingo. E não é que acabou tudo numa grande salva de palmas?

É este o grande encanto da televisão, o fermento das vidas reais, a atracção do número mágico e o vírus que matou Svetlana em Espanha. É o básico que vende, quanto mais primário melhor, que o boçal é cultural e é barato. Dá milhões. Ninguém quer qualidade, que é difícil e cara. Custa milhões. Por isso nada se inventa, tudo se decalca, o mau em cima do pior. A morte de Svetlana em Espanha é a morte das vidas reais, fiéis, infiéis e teledifundidas, de programa em programa, de telejornal em telejornal, até ao colapso final de toda a decência numa qualquer megaprodução em directo do inferno das nossas piores expectativas. Mais um campeão de audiências, naturalmente.




publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De e agora, e agora?? a 29 de Novembro de 2007 às 18:45
O prometido comentário ou uma baba de camelo?? Estou dividida.... que faço? Um, dó, li, tá...


De Rui Vasco Neto a 28 de Novembro de 2007 às 23:48
d.maria,
como é que se chamava o programa?

pearl,
percebo o seu ponto. mas esses tempos a que se refere quando a rtp faria 'o cerejal' eram tempos a preto e branco num mundo que já era a cores e a gente não sabia. e isso também não era grande coisa, convenhamos. esses anos que vivi no rio foram de absoluto deslumbre com um tipo de audiovisual que eu só sabia que existia porque o via fora do meu país, onde um satélite ainda era notícia de primeira página.

teresa,
não deixe isso ao lume que se queima. venha ele.

pãonónimo,
mas, mas... por quem sois, por quem sois...


De Anónimo a 28 de Novembro de 2007 às 11:23
O vidas reais era menos mau que os outros programas que mencionou, mas o apresentador era um PÃÃÃOOO !!! Dava gosto vê-lo ... Lavava-se as vistas, pelo menos !!!


De teresa a 27 de Novembro de 2007 às 22:37
pearl,

Dou por mim a não concordar consigo na questão das massas sossegadinhas e caladas com tantas anestesias. É que sabe, desde o tempo do Pão e Circo que qualquer poder que se preze tenta anestesiar a tal da massa. Lembra-se do trinómio do futebol, fado e fátima? Sim, claro que se continuam a atirar uns croissants à populaça para ela acalmar os urros, mas a chatice é que agora massa que se preze descobriu os microfones e por baixinho que guinche há sempre uma mãozita disponível para lhe aumentar o som e vender em prime time.

Por acaso acho que foi a SIC, com uma coisa chamada "Praça Pública", que começou a levar as câmaras e os micros ao "povo". Foi de tal forma diferente, a noticia saiu do gabinete e passou para o fontanário, que cada vez que aparecia uma câmara, fosse de quem fosse, era da SIC com certeza. E olhe que sei do que falo.
Acho que foi assim que se percebeu o que era isso do 4º poder e de como era mesmo o mais fácil (e este "fácil" é no sentido de p... mesmo) para quem não tinha outro. Digamos que se juntou a fome com a vontade de comer.
As massas não questionam? Como acha que se fazem telejornais de 1h30m? Questionam sim e chamam logo a televisão que é para não haver dúvidas nas respostas. Se as questões podem ser elevadas ao olímpo isso já é outro assunto, mas talvez se tenha de começar por algum lado.

(o comentário que realmente me apetece fazer a este vidas reais talvez venha mais tarde, que ainda estou a cozinhá-lo...)


De Pearl a 27 de Novembro de 2007 às 21:59
No que me diz respeito, que vejo cada vez menos televisão, sobretudo os canais portugueses, e não sou fã da Oprah ou do Dr. Phil, e nem me lembro sequer do Vidas Reais, já me dava por muito satisfeita se os canais públicos de televisão resistissem à tentação de aferirem qualidade com audiências, serviço público com estandardização de conteúdos.
"Ninguém quer qualidade, que é difícil e cara". O canal de televisão privado que tem na sua programação semanal, a transmissão de uma peça de teatro(??) dos moranguitos açucarados ou dos Hits de La Féria, não investirá mais se optar por "O Cerejal". Em tempos que já lá vão, a RTP fazia-o.
Deixando de lado o entertenimento: O que dizer de tele-jornais com 1h30m com notícias de faca e alguidar? É o que as massas querem, do que gostam?
De facto, quanto mais as anestesiarem,menos irão questionar.


De D. Maria a 27 de Novembro de 2007 às 21:55
Diga-me lá que sempre quis saber - aquilo era mesmo a sério?


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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