Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008
A coisa, a dúvida e o razoável. Na América, claro.
Terça-feira, 22 Jan, 2008
Larry entrou na casa de banho do aeroporto de Minnesota para um xixizito rápido. Ou talvez não, who knows. De cara para a parede, olho no azulejo, alma no esguicho e perna aberta a novas aventuras, naquela postura mijante de quem não quer a coisa, Larry quis a coisa quando olhou para o lado e viu um homem que lhe agradou. Como o código morse não ajudaria na circunstância, Larry terá optado pelo mais internacional código cio, dando toques repetidos com o seu pé no pé do vizinho do lado e fazendo, por baixo da divisória dos compartimentos da casa de banho, sinais explícitos de que queria ter sexo.
Tivesse a estratégia dado resultado e três coisas não aconteceriam. Larry não teria sido preso. Eu não estaria aqui a contar a história. E o Partido Republicano norte americano teria sido poupado à dor de cabeça de mais um escândalo sexual.

É que Larry era e é Larry Craig, senador republicano do Estado de Idaho. E o pé da coisa do lado pertencia a um polícia à paisana que não quis a coisa, por assim dizer. Vai daí prendeu o senador no acto e deu origem a mais um estendal de porcarias privadas na corda há muito esticada do púdico voyeurismo americano. Se uma mama da Janet Jackson já é um hit, imagine-se o lugar que uma pila de senador não tem garantido no top ten do salivar da américa.

Acusado de conduta desordeira e assédio sexual em local público, Larry Craig pediu agora ao Tribunal do Minnesota que lhe retire a acusação de conduta desordeira, e a União Norte-Americana para as Liberdades Cívicas lançou uma campanha defendendo que praticar sexo num compartimento fechado de uma casa de banho pública é um acto privado.

A União escuda-se numa decisão tomada há 38 anos pelo Supremo Tribunal do Minnesota, que concluía que qualquer pessoa que tem relações sexuais numa divisória fechada de uma casa de banho pública "tem uma razoável expectativa de privacidade". Isso significa, diz a União, que o Estado não pode provar que Craig estava a convidar o polícia para sexo em público - assim sendo, mesmo que tenha existido convite, este não foi ilegal. Razoável. E sem dúvida.

"O Estado não pode provar para além de qualquer dúvida razoável que o senador Craig estava a convidar o agente para algo mais que uma intimidade sexual que não teria chamado a atenção num compartimento fechado numa casa de banho pública", é o argumento de base desta campanha que, por mais sucesso que venha a ter nos seus objectivos, dificilmente fará esquecer este episódio. Depois do cantor George Michael ter sido apanhado com a boca na botija e o senador Larry com o olho na dita, vai chegar o tempo em que as casas de banho públicas vão precisar de um zero zero nunes em cada urinol, a bem da decência e dos bons costumes, só para acabar com essa tal dúvida que mostra ao mundo o que é razoável na América.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 22 de Janeiro de 2008 às 15:33
minha senhora,
Não posso ajudá-la, lamentavelmente. Não tenho resposta, que eu, míope como sou, vejo a minha com dificuldade, quanto mais as dos outros.


De ernesta a 22 de Janeiro de 2008 às 14:49
(e como era aquela história das sensibilidades que quem não é não pode ter e da visão para o pormenor que só salta a algumas vistas? E sim, claro, estou a falar de pilas!)


De Rui Vasco Neto a 22 de Janeiro de 2008 às 14:09
nesta,
Só entre os senadores, ao que parece. Na academia de polícia, pelos vistos, cada um faz com a sua.


De ernesta a 22 de Janeiro de 2008 às 14:05
Isto só pode ser uma história de Cinderelos. Eu, que nem sou gajo mas já tive aflições suficientes para conhecer bem as casas de banho dos ditos, estava já a imaginar a fila de urinóis brancos, caras compenetradas a olhar para a parede e o rabicho, palavra que me parece apropriada dadas as circunstâncias, de olho colado na pila do vizinho. já ia lançada na história quando percebo que o olho estava afinal no sapato e que uma divisória separava o guloso do bocado que não estava guardado para quem o queria comer.
Uma biqueira de sapato vísivel e a dança do acasalamento a começar. Nem uma gaija que é gaija faria melhor - olhar para o lado, topar uma biqueira de sapato, sem dúvida que engraxada e sem esfoladelas, e talvez um pedaço de calça da melhor fazenda, e perceber que o que está para cima lhe agrada.
Poderei, talvez, aventar uma outra hipótese. Haverá, tal como para o morse e para o cio, um código macho que trace retratos mais ou menos musculosos através do barulho do xixizito a cair? Lembro-me de ser miúda e correr lá pelo ciclo que xixis barulhentos eram, limpinho limpinho, sinal de que a honrada virgindade já tinha ido à viola, e de como se inventavam torcidelas de pernas de pura acrobacia para evitar o barulho da vergonha.
Será que nos gajos, ou na América, também se lêem sinais no som das águas correntes?


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