Segunda-feira, 10 de Março de 2008
Os dias, todos os dias. É a vida.
Segunda-feira, 10 Mar, 2008
«Todos os dias ela se levanta para se sentar a ver a vida a passar». Todos os dias, sem excepção. Nenhuma, de há uns bons anos a esta parte, pelo menos, diz-me quem agora a vê todas as manhãs. É que tempos houve em que eram diferentes os seus dias, lembro-me bem, uma mulher fascinante numa azáfama imparável a salvar as vidas dos outros, a salvar o mundo em cada momento de cada um dos seus dias, meses, anos da sua própria existência. De tal forma que a sua vida deixou de ser a sua e passou a ser dos outros, de todos os que havia para salvar, sempre muitos como imaginam, milhares e milhares deles, todos carentes de atenção. Uma fila ininterrupta de gente à espera de salvação à sua porta, mãos vazias e desesperadas estendidas suplicantes para as suas próprias mãos, impotentes e sempre ocupadas. A angústia dos outros deitava-se consigo, à noite, lado a lado na cama que amanhecia sempre revolta como se a paixão tivesse por ali passado e não apenas a tristeza insone. Ganhou prémios, ganhou palmas. Perdeu-se no esforço, sem dar por isso.

Até que um dia tudo parou. Acabou, de repente, de um dia para o outro, sim porque sim e pronto, já está, já era. Acabou-se. ‘Não quero mais’, terá pensado e decidido, num dia igual aos outros, por nada de especial. E no mesmo repente os seus dias mudaram, amainaram, relaxaram, tomaram o gosto a outra vida que descobriram existir, uma vida feita de tempo para viver, um oásis de tranquilidade paralelo ao afogueanço do resto do mundo, sempre a correr atrás da cauda. Custou até sentir-se autorizada à felicidade, demorou até se atrever a saborear, muito mais do que tardou a provar, sequer. Mas provou e terá gostado, já que se foi deixando ficar, aprendendo a infância na idade adulta, testando a sua fantasia na realidade alheia, a cada manhã enganando as noites escuras de angústia com bonitos dias de sol na alma. Existindo. Vivendo. E assim desapareceu da vida de todos.

Passaram-se os anos. Corriam os dias, não mais a passo, quando voltei a encontrar aquela figura inesquecível, sentada a olhar as voltas dos outros. Parada no tempo, perdida na vastidão dos horizontes tardiamente encontrados. Dizem-me que enlouqueceu, que perdeu o norte e com ele o contacto com qualquer realidade que não a sua. Tentei falar-lhe, busquei-lhe o olhar e nele um lampejo de reconhecimento, uma qualquer faísca que tivesse ficado da chama irresistível que por ali brilhou já, em dias que não esqueci. Mas nada feito. Os olhos espelhavam paz, é certo, mas uma paz sem alma, uma paz sem gente lá dentro. «Todos os dias ela se levanta para se sentar a ver a vida a passar», diz-me quem agora a vê todas as manhãs. Todos os dias, sem excepção. A vida continua, a salvação escasseia ainda entre aqueles que a procuram e o mundo gira como dantes, só com menos uma, nada mais. É a vida, dirão. Deve ser isso, com certeza. A vida, claro.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Anónimo a 12 de Março de 2008 às 13:57
Com certeza, obrigada, claro.


De Rui Vasco Neto a 12 de Março de 2008 às 00:33
senhores,
estou sem palavras (coisa rara, como sabem). obrigado a todos.


De mifá a 11 de Março de 2008 às 12:40
Belo tributo para nenhuma e, ao mesmo tempo, para todas as mulheres!
Muito melhor que qualquer dia internacional da mulher!
Bravo, Vasquinho.


De maya a 11 de Março de 2008 às 09:59
Belo e profundo!Fiquei completamente presa no campo magnético deste magnífico post!
Aquele abraço,


De Alfredo Gago da Câmara a 11 de Março de 2008 às 03:49
História triste e muito bem escrita. Não sei porquê, mas fico com a nítida impressão que ainda é bem mais triste para quem a descreve e a comenta do que própriamente para a protaginista da própria história. Porque será que fiquei assim com esta sensação tão injusta?


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