Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007
Açores porque sim.
Terça-feira, 18 Dez, 2007
Dezembro é Dezembro. É sempre assim, ou sou eu sempre assim. È o que é.
Com o avô de vermelho ainda vou lidando, m
as na parte do menino Jesus confesso algumas dificuldades. Não é por mal, antes pela ausência do bem. E pelo brilho das luzes, talvez, muito jingle bells e festa rija. Por isso me lembro tanto do sentir açoriano cada vez que o assunto é esta imensa aventura da fé dos homens no divino.
O outro lado da festa, por assim dizer.

Arrepia. Passam em baixo da minha janela, de noite e de dia, na chuva e no sol que acontecem à vez em S. Miguel. As vozes em coro com os passos fazem o tal cantar que arrepia. É o carisma da fé, a força que move um mundo de almas em redor da crença comum que Deus existe. E da esperança particular que Ele se lembre e cuide da aflição de cada um de nós. Para tanto oferece-se o corpo e o espírito, o sacrifício físico de um e uma prova extrema da humildade do outro perante a grandeza divina. Exposto e despojado, o romeiro dá-se ao olhar de todos como uma evidência da força do querer que existe em cada ser humano e que de facto pode mover montanhas. Nem que seja com uma pá pequenina, daquelas que levam pouca terra de cada vez. Tão pequena como cada passo que faz a longa caminhada da romaria. O cantar, esse, anuncia que chegar ao final é coisa certa, como um tilintar de riqueza.

Sereno ou aflito, o ser humano desde sempre dobrou o joelho á omnipresença de algo que foi descobrindo á sua custa não conseguir compreender, muito menos controlar. Talvez por isso a relação dos homens com Deus foi tendo, ao longo da história da humanidade, as mais variadas características e alguns episódios caricatos, para ser suave no adjectivo. As famosas bulas Papais que limpavam por decreto os pecados da nobreza com a prata dos plebeus são disso um bom exemplo, ou os monumentos megalómanos e outros bezerros de ouro oferecidos como moeda de troca por mil imperadores em busca dos favores mais diversos. É a face patética da impotência e do medo levado ao extremo. Pode até ser um dobrar de joelho, mas não tem seguramente nada a ver com humildade. E não tem seguramente nada a ver com aquilo que leva o romeiro pelos caminhos de S. Miguel.

Os testemunhos que tenho ouvido, de viva voz, dão-me um entendimento diferente do fenómeno. Falam-me de outras coisas, outros valores, outras posturas no ajoelhar. Falam de aflições, claro, deixam antever medo, alguns, claro mais uma vez. Quem não tem medo? Eu tenho. Contam-me promessas de sacrifício, teimas de contrição, caminhos de dor e muito, muito sofrimento. Falam de procura, também, e de encontro, a maior parte. Na solidão dos passos mais escondidos aos olhares dos outros, entregues apenas a si próprios e aos seus pensamentos, colocados pelo rigor da própria natureza na correcta dimensão da sua pequenez de meros humanos, é quando me dizem ter conhecido o mais perto que alguma vez conseguiram estar do estado de graça que lhes faltava e pelo qual saíram á estrada. E assim regressam renovados e mais capazes.

Na madrugada passada o cantar chamou-me à janela. Vi o rancho passar sem me ver. E lembrei-me de um bom par de figuras tristes que fiz em conversas de amigos quando, pateta e convicto, repeti que gostava de ir numa romaria. Como quem diz que gosta muito de folclore e comida típica. Como quem diz uma outra coisa qualquer. Tola bravata! Esta madrugada vi o quão longe me encontro de estar á altura da caminhada, neste desencontro em que vivo, comigo e com o céu, ao ver passar aquela gente que me parecia tão perto e no entanto caminhava tão longe de mim. O único momento de contacto foi no arrepio, demasiado breve para uma partilha digna desse nome. Depois voltei para o meu mundo pequenino de coisas importantes, enquanto eles seguiam o caminho importante das coisas pequeninas, como nós, sempre a cantar. Eu não fui, mas como podem ver o eco ficou comigo.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel de Sá a 22 de Dezembro de 2007 às 01:27
Rui, o meu Dezembro é sempre de muito que escrever. Este, para não fugir à regra, foi pior do que o de 2006.
Esta tua romaria interior é extraordinária. Podes crer que, com boa intenção, como foi certamente o caso, tens o mesmo merecimento de um romeiro de estrada.


De Rui Vasco Neto a 21 de Dezembro de 2007 às 20:32
mifas,
só hoje vi este remoque que muito agradeço, embora me preocupe que insistas em não tomar Fosfoferrero, para a memória. È que as melhores malassadas que eu comi (julgo até que as primeiras desta leva d'Açores) foram-me servidas na tua casa... no natal.
Seja como for, por umas aulas práticas de terminologia eu faço (quase) tudo. Até comer e beber.

(sabes que os aviões voam para os dois lados, daqui para aí e do vice para o versa)


De Rui Vasco Neto a 18 de Dezembro de 2007 às 22:52
sam,
gracias.

canal,
old habits die hard.
e um feliz carnaval para ti também.


De mifá a 18 de Dezembro de 2007 às 18:01
Um bravo para o texto e dois para ti, Rui. A humildade e os desencontros são alguns ( quiçá os mais importantes ) alicerces da sabedoria.


Quanto às malassadas, caro, convém não confundir com as filhós : entre outros pequenos desacertos, estas são típicas do Natal, enquanto aquelas o são do Carnaval. Cá, terias de te contentar com o bolo-natal que, esse sim, já rescende.
Licores, sim há muitos que, nesta época, a "miginha do Menino Jesus" quer-se bem variada. Aparece e logo provas, além de aproveitares para uma reciclagem da terminologia pantagruélica açoriana , com direito a aulas práticas .

Abraço-te.


De Rego Costa a 18 de Dezembro de 2007 às 17:21
Lembro-me ... e ainda bem que o eco ficou contigo !!! MERIQUERISTEMAS!!!!


De samuel a 18 de Dezembro de 2007 às 15:24
Belo texto, companheiro!


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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