Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007
O que é nacional é buuuum!
Quarta-feira, 26 Dez, 2007
Há qualquer coisa profunda, triste e genuinamente portuguesa na notícia "Popular encontra engenhos explosivos junto ao rio Tejo". Em toda ela, confiram e verão. No tom casual da descoberta, 'cidadão passeando o cão deparou'. Na justificação atribuída ao próprio, 'o rio estava anormalmente baixo e deparei-me com dois objectos que reconheci de imediato porque lido com eles devido à minha condição de militar'. Na medalha de mérito 'fonte da Brigada de Minas e Armadilhas disse à Lusa que o procedimento do cidadão Jorge Pereira "foi exemplar" ou na linha didáctica 'quem encontrar este tipo de objectos deve fazer o mesmo, ou seja, não tocar nos objectos, sinalizá-los e chamar imediatamente as forças de segurança'.

Mas a parte mais fascinantemente nossa é o parágrafo perdido lá nos fundos da prosa, naquela parte que já só lê quem procura mais que o essencial da notícia, quem busca o fait divers para compor a informação. O colorido local, por assim dizer. E reza assim o dito cujo:

«João Escarola, pescador, conhece as margens do Tejo há mais de 60 anos e, segundo disse à Lusa, muitos mais engenhos do género estarão espalhados pelas margens. "Uma antiga fundição que existia em Tramagal livrou-se dos explosivos atirando-os para o rio depois de um uma grande acidente em que morreram várias pessoas", contou o pescador, garantindo que "nas margens do rio, quando está baixo, é só procurar porque são às dezenas por aí espalhados".»

As linhas que se seguem são três, apenas, um louvor ao cidadão e dois avisos de cuidados a observar quando acontecer outra vez. Quando voltarem a aparecer 'três peças de artilharia, cada uma com um peso a rondar os 8,9 quilos', como agora. Ou quando explodir outra, como a que a Brigada de Minas e Amadilhas fez rebentar numa das três vezes que já foi chamada por ali.

Sobre a fábrica, sobre o Tramagal, sobre o acidente, os mortos, as 'dezenas' e o 'espalhados', sobretudo, nem uma palavra, nem uma vírgula. Foi ponto final e único. Um desabafo, enfim, coisas que se dizem, sei lá. Olhem, acabou como começou, pronto. Um popular encontrou, um popular comentou, um jornalista contou, aquilo nem rebentou, o natal até já passou, isto também já passou, pronto, vá lá, já passou, pronto, vá lá, já passou.

É tudo tão giro, no meu país. Tudo tão assim, sei lá, tão simples, tão tão.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 27 de Dezembro de 2007 às 21:55
pedro,
nem mais. na mouche.


De Pedro Braz Teixeira a 27 de Dezembro de 2007 às 18:07
É a tal "não inscrição" de que fala o José Gil.


De Rui Vasco Neto a 27 de Dezembro de 2007 às 12:47
daniel,
cá para mim foi um lápis língua (vês como eu sei latim?)


De Daniel de Sá a 27 de Dezembro de 2007 às 01:41
A Pearl escreveu:
"Palmita-me que a fundição foi reconvertida em empresa de peixe de conversa."
Leiam bem a última palavra. Se foi de propósito, é um belíssimo comentário. Portugal inteiro é uma grande fábrica de conVerSa.


De ernesta a 26 de Dezembro de 2007 às 23:31
Seria mais para todo o serviço...


De Rui Vasco Neto a 26 de Dezembro de 2007 às 23:01
pois, os de serviço.


De ernesta a 26 de Dezembro de 2007 às 22:53
os cabrões do costume, de certeza...


De Rui Vasco Neto a 26 de Dezembro de 2007 às 22:49
pearl,
pois, no mínimo.

esta,
não me diga, a sério?
deviam ter bons advogados, sei lá...


De ernesta a 26 de Dezembro de 2007 às 22:45
E é mesmo buum - continuam a rebentar sem quererem saber da água e dos anos.
A outra tal, a do Tramagal, teve uma explosão muito mais moderna - sem grande barulho, sem grande fogueiro, com os tais danos colaterais para os muitos do costume e as vantagens finais para os outros poucos do costume também..


De Pearl a 26 de Dezembro de 2007 às 21:11
Palmita-me que a fundição foi reconvertida em empresa de peixe de conversa. À linha, de arrastão, com explosivos... desde que o peixe seja nacional...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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