Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007
Por uma lágrima tua
Sexta-feira, 26 Out, 2007
Maddie McCann desapareceu há seis meses. Nunca escrevi uma linha sobre o assunto. Nem uma. Entendi que o mundo passaria muito bem sem mais uma opinião sobre este caso que tem já tanta opinião generalizada. Para além disso, para ser franco, não tenho uma que me satisfaça. É verdade. Não sei o que pensar do que vejo e ouço. De tanto especialista, tanto perito, nacional e estrangeiro, oficial e oficioso, português ou inglês, de tanta e tão horrorosa conjectura que me faz desejar que não venha a ser verdade a verdade que for.

No meio de um assunto tão sério dou por mim a ver e ouvir as bancadas de Heisel Park zangadas com Portugal. E a ver e ouvir a Polícia Judiciária portuguesa a dizer uma coisa e o contrário dessa coisa, dia sim dia não, durante meses e mais meses, quando o maior acerto do ignorante é saber estar calado. Leio os jornais, ouço a rádio, vejo a televisão. E sinto pena de ter o jornalismo cravado na alma, tantas vezes, que dava-me jeito ter nascido outra coisa qualquer nessas alturas.


Maddie McCann deixou de ter cheiro e textura, neste universo virtual. É natural que assim seja. Ninguém consegue não ganhar distância do factor humano de alguém que desapareceu e todos os dias é papel amarrotado no chão do Metro, ou imagem anterior à Floribela e interior do Você na TV. Como numa doença prolongada, a mente dos homens interiorizou o pior, pelo sim pelo não. E com a catástrofe em modo de processamento automático, a atenção de todos vira-se naturalmente para todos os outros aspectos da questão. Os mais suculentos primeiro, claro. E os pais, são culpados ou inocentes? E a polícia, agiu bem ou mal? E os ingleses, já viram o que dizem? E eles vão jantar e bebem oito garrafas de vinho? E a miúda não gritou, estaria drogada? Dizem que uma vizinha contou a uma amiga que tem um tio que é empregado de uma pastelaria onde vai um agente da judiciária que trabalha com uma senhora que chamada Luisa, ou Maria. E o que é que eu estava a dizer?

Toda a gente sabe, toda a gente ouviu dizer, toda a gente viu até aquilo que não havia para ver. Maddie é mais um nome, tão perto e tão distante de nós como Michael Jackson. E tão presente como Princesa Diana, na doçura da memória. As suas realidades enquanto pessoas estarão sempre muito aquém dos seus mitos enquanto nomes. É outro escalão, outro universo onde o sol é o ego de cada um.


Por entre a raiva e confusão que todo o espírito sente quando subitamente agredido pelo destino, Portugal e o mundo procuram desesperadamente um culpado porque desesperadamente não conseguem encontrar uma razão. Uma explicação para o que raio aconteceu. Ontem à noite, milhares e milhares de pessoas pararam as suas próprias vidas para assistirem a mais uma entrevista do casal McCann, numa busca ansiosa de uma lágrima em Kate, finalmente. Como quem até quer acreditar mas não consegue. Não sem lágrimas. Para servir com a entrevista, a SIC apresentou a opinião da pedopsiquiatra Ana Vasconcelos, convidada especificamente para analisar as lágrimas de Kate ou a ausência delas. Eu pensei em Maddie e no triste fado português. Por uma lágrima tua, isso sim que alegria. Me deixaria matar.

tags: ,

publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Rui Vasco Neto a 27 de Outubro de 2007 às 12:25
catedátrico? vem de cáteda? tri-cáteda?
ooops


De Rui Vasco Neto a 27 de Outubro de 2007 às 12:22
Daniel:

Melhor que ler-te só mesmo conversar contigo. Espero poder ter esse prazer muito em breve (nada confirmado ainda).

Ler a sequência dos teus 3 comentários (aprovados semi-automaticamente por este processo que também a ti deixou ás aranhas..) mostra-nos duas coisitas, a saber:
- o processo mental que seguiste, um mimo d'aflição adoçada pela vontade férrea de cumprimentar um amigo;
- que os homens brilhantes também fazem figuras de urso.

Ora imagina se logo eu, catedátrico em figuras de urso e outras, ia resistir a publicar a tua, que por algum tempo me vai servir a ilusão que afinal sou mais 'normal' do que pensava...

vem mais vezes.

abraço-te

rvn


De Daniel de Sá a 27 de Outubro de 2007 às 01:09
Ah, agora é que li! O proprietário tem de aprovar! Tens toda a razão, meu Caro Rui. (Portanto, a anterior e esta não precisam de figurar. Para eu não fazer figura de urso.)
Um abraço.
Daniel


De Daniel de Sá a 27 de Outubro de 2007 às 01:06
Não consigo deixar um comentário. Por que será? (Tento só esta frase, para não gastar palavras.)


De Daniel de Sá a 27 de Outubro de 2007 às 00:08
Rui, tu viajas do humor ao drama (acabo de ler-te no diálogo com o FV) de uma maneira magnífica. Mas nós somos assim mesmo. Hoje terá acontecido a dezenas, centenas, talvez milhares de crianças o mesmo que à menina inglesa. São números somente. Mas dêem-nos um nome, dêem-nos um rosto (branco, negro, mestiço, não importa), e logo virá, teimosa, essa lágrima. Pelo menos um nó na garganta.


De Anónimo a 26 de Outubro de 2007 às 16:56
Lindo,lindo,lindo,... lindo final!


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas