Sábado, 19 de Janeiro de 2008
Érre tê quê, Açores?
Sábado, 19 Jan, 2008
Dois avisos importantes. Esta crónica é longa e não tem preocupações de simpatia para com ninguém. Nem pretende ter antipatia seja para com quem for, tampouco. Mas está seguramente longe de ser aquela que mais amigos me vai arranjar, isso é garantido. Tenho plena consciência desse facto logo à partida da opinião. Pronto, não é nada a que eu não esteja habituado. É uma opinião adiada de dois, vai para três anos, esta que hoje escrevo. Preferia não ser eu a levantar este debate. Na verdade, eu sou parte interessada. Mas sou parte interessada como açoriano, não como jornalista. Porquê e porquê agora? «Preferia não ser eu a levantar este debate. Colaborador da RTP/Açores durante três anos, corro o risco de ser tomado como parte interessada. Na verdade, eu sou parte interessada. Mas sou parte interessada como açoriano, mais do que como jornalista. E, como mais ninguém levanta o debate, levanto-o eu. Porque é urgente.» Palavras de Joel Neto, um ex-colaborador ao que diz jornalista, publicadas ontem no Açoriano Oriental, que eu subscrevo na totalidade. «É urgente que os açorianos, cada um por si e em conjunto, tomem uma decisão clara: nós queremos continuar a ter uma estação regional de televisão? Se não queremos, tudo bem: deixemos andar. Se queremos, temos que mobilizar-nos. Mas mobilizar-nos já. Porque a RTP/Açores vai acabar. É uma questão de tempo.» Sim senhor, estamos de acordo.

Estas são as primeiras palavras de um lençol delas, muitas justas, publicado ontem no principal jornal diário dos Açores como artigo de opinião. Que diz muita verdade, no cômputo geral. Que fala de uma verdade que todos os residentes e visitantes da região sabem ou ficam a saber se ligarem a televisão e assistirem a cinco minutos, quatro bastam. E que a arranja e decora, à verdade dos factos escolhidos, pinta e borda para mostrar à madrinha como um todo verdadeiro, o que está longe de ser verdade, é bom que se diga também. Joel Neto sabe tanto de televisão como Tino de Rans ou Zé Maria, presumo. Afinal, os três têm em comum cerca de três anos no écran, se a memória não me falha no que toca aos últimos dois. Saberá muito mais de Açores, estou certo, açoriano de cepa que não duvido excelente. Mas perdoará que lhe diga, a ele e a todos os que me lerem, açorianos ou não, que tal qualificação me parece escasso curriculum para o cargo de estratega televisivo nos Açores, Burkina Faso, Escócia ou Timor. Seja na programação, seja (e sobretudo nunca aí) no jornalismo, um tema onde as opiniões deste cronista sobre Pedro Bicudo revelam uma visão iluminada: «Um dia, pediram a um jornalista que fizesse o papel do administrador e fosse lá pôr mão naqueles tipos que andam a gastar dinheiro nas ilhas. E o jornalista, como sempre fazem os jornalistas quando chamados a cargos de “responsabilidade”, fez-se mais papista do que o papa, guardou a chave da casa de banho no bolso e gritou: “Aqui quem manda sou eu!”.» Sobre isenção estamos conversados, embora curiosamente a sua opinião sobre Osvaldo Cabral, ex-director da estação mas também jornalista de profissão, (tanto quanto eu saiba), pareça ser bem diferente. «A direcção de Osvaldo Cabral era despesista? Admitamos que o era. O alinhamento da estação de Osvaldo Cabral tinha maus programas? Admitamos que os tinha. Mas havia uma estação. Havia uma programação. Havia açorianos na televisão dos Açores.» Sem comentários. (Só um, vá lá...) Não! Sem comentários. Apenas as palavras do próprio, numa cavalgante análise técnica, desta vez. «Numa altura em que o mundo se globaliza de forma cavalgante, e os Açores com ele, a RTP/Açores era uma das poucas coisas que nos restava para evitar a esquizofrenia de sermos absolutamente iguais a toda a gente do mundo inteiro.» Sobre competência de programador, para não falar de senso comum, estamos mesmo conversados. Definitivamente.

Esta mania da diferença como selo de qualidade é uma invenção da minha terra, chego a acreditar. É certo que Alberto João existe para me contrariar esta teoria (e outras, também), mas não fora esse Jardim, um Pinto da Costa e dois ou três Avelinos Ferreira Torres que por aí andam e eu acharia que o bairrismo parolo era exclusividade dos meus patrícios, tantas são as demonstrações públicas e notórias em todos os sectores. A começar pelo político, como de resto se viu durante a recente deslocação de Costa Neves ao jardim de Alberto João, para ser usado como glosa do tema 'regiões autónomas' com direito a refrão de independência e tudo. E a acabar na comunicação social açoriana, cheia de bons profissionais mas editorialmente mais provinciana que Dias Loureiro e Marques Mendes os dois juntos, antes de serem descobertos por pai Cavaco.

Eu não fui colaborador da RTP/Açores durante três anos, como o Joel Neto. Mas estive disponível para sê-lo durante cerca de dois, o tempo que duraram as conversações com a antiga direcção de Osvaldo Cabral, que terminaram com a assinatura de ambos num protocolo que previa a produção de uma série de programas semanais. Que eu próprio decidi não fazer, não a RTP, no enquadramento da altura e face ao boicote geral do meio, com horror a comparações de fora. E dos notáveis da treta, avessos a mudanças de qualquer espécie que lhes possam destapar a consistência, revelando o vazio craniano na esmagadora maioria dos casos de eminência parda. Sou ex-funcionário e ex-colaborador da RTP nacional, jornalista e profissional de televisão há vinte e sete anos. E açoriano, se me permitem. E ainda e sempre açoriano, mesmo que passe pela cabeça a algum tolo não mo permitir (o que já quase aconteceu e nos Açores, imagine-se).
Dispenso compadrios de interesses locais e/ou regionais para dar a minha opinião sobre um tema que me diz duplamente respeito. E, muito sinceramente, estou-me nas tintas para os umbigos que se sentirem melindrados com as minhas palavras.

A RTP/Açores é um escândalo nacional. Um escândalo de inoperância, mau gosto, despesismo, amiguismo, saudosismo e incompetência, que não rima mas é verdade, infelizmente. Quando eu digo que Joel Neto diz muita verdade no seu artigo, é certo que assim é. Ao dizer que mais vale uma janela na RTP Memória do que o que há hoje em dia tem razão este cronista. A actual (dos últimos anos) programação da RTP/A é absolutamente inacreditável, só vendo, mesmo. Produção própria miserável e miserabilista, alguns apresentadores inenarráveis (outros de excelente qualidade), reportagens da tanga, tangas nas reportagens, produção externa de brincadeirinha, gravada e editada em suportes técnicos amadores, cenários de TCB (Tv Cá do Bairro), pobreza franciscana de colaborações, estreiteza de vistas, iluminação às escuras e sinal manhoso, sempre uma aventura fora de Ponta Delgada. Realizações inacreditáveis, vi eu, com estes dois, do mais anos 70 que imaginar se possa, gente bem intencionada mas parada no tempo do U-Matic, perdida nos corredores da TV a preto e branco e com material da época, na sua maioria. E sentada na sua própria incapacidade, rosnando imprecações contra tudo e todos que são os culpados do dia, conforme o dia.

O desinvestimento na produção televisiva açoriana é um clássico. Desde sempre a RTP nacional mandou as suas peças de museu para renascerem como novidade nos Açores, com direito a fanfarra à chegada. Circo em vez de pão, mas com leões sem dentes e treinadores na reforma. Desde sempre a casa mãe exigiu contenção de custos com base no princípio nunca assumido do 'para quem é bacalhau basta'. E desde sempre, hipócrita e saloiamente, houve quem na Região se aconchegasse à situação e, medíocre, pactuasse com a mediocridade geral na esperança (por muitos joéis concretizada) de ter uma azeitona que fosse naquele olival. Até hoje é assim, mais que nunca. Essa é a realidade da RTP/Açores, feudo de meia dúzia que se defende com unhas de leoa acossada na sua exclusividade territorial. E não me venham com balelas que isto é de agora, que já em 1992 fiz lá eu como pivot uma noite eleitoral para o canal 1 da RTP e já era assim.

Dizer que a RTP está agora pior, desde a chegada de Pedro Bicudo, parece-me, a mim que não vejo RTP/A há quase um ano, um absurdo inimaginável. Porquê? Porque os senhores não estão bem a ver o que era a RTP/A de Osvaldo Cabral, mais um 'bom rapaz' com direito a lugar na prateleira dos Luis Pereira de Sousa do audiovisual nacional, feito director por vacatura de alternativa menos má. Pior que aquilo é obra, um coxo faria melhor marca nos 100 metros. Perder na comparação é o pior dos resultados possíveis para Pedro Bicudo, um ex-correspondente na América que tudo indica ter vindo descansar para os Açores, pelos vistos, sentado naquele gabinete com vista para a Praça de S. Pedro, coçando o saco, ordenando re-re-re-re-re-petições, papando uns almoços e não fazendo mais inimigos do que o estritamente necessário. E fazendo os amigos certos de sempre. Açores no seu melhor. O costume, no fundo. Previsível, de resto.

A programação da RTP/A, hoje como ontem, não é mais do que uma boa caricatura da antiga radiotelevisão portuguesa, boa noite senhor tele-espectador e muito, muito obrigado, voltamos dentro de momentos píiiiiiiiii, pum, mete o separador das hortências ou o Aníbal Raposo ainda de bigode e o Zeca Medeiros quase de fraldas. Eh, pá, tão giro, lembras-te? Uma, duas, vinte, cem, mil vezes isto. E o Pedro Moura, ok, está bem, três horas de manhã que repetem à tarde com as notícias que qualquer vizinha contou à freguesia antes do almoço. Falta de gosto, falta de imaginação, falta de evolução e ausência de criatividade, total, geral, sem exagero, é o retrato de há anos na RTP/A. Por isso ninguém vê. Só quem não tem opção, que a TVCabo é uma miragem territorial com acesso priveligiado por critério geográfico. E vêem cada vez menos, mesmo esses.

Na RTP/Açores as portas estão fechadas a novos talentos e a talentos em geral, se não forem da cor ou do grupo de amigos, que é pequeno e restrito, o mesmo desde a morte de Gonçalo Velho, quase. Departamento comercial não existe. Não se vende nada, zero. Ninguém compra porque ninguém vê, ninguém vê porque ninguém compra. Não há um spot, para amostra, de produção e promoção comercial local. Nem nacional, diga-se, salvo um ou outro institucional que é imposto por Lisboa e se vê com gosto e saudade da televisão a sério. É uma experiência totalmente nova, garanto, apreciar um anúncio solitário perdido numa programação contínua. De resto, nem um anúncio, nem um spot, uma promoção, um trailler. Apesar de quaisquer duzentos, duzentos e cinquenta euros (ponho por extenso para não pensarem que é engano meu) chegarem para um patrocínio mensal de programa. Eu disse mensal, sim, centenas de inserções, entre programas e promos. E ninguém patrocina, mesmo assim. Inacreditável, não?

Como é que é possível, numa região que precisa de qualidade informativa e cultural como pão para a boca, alimento para a inteligência que cresce naquela terra como o verde, não haver formação constante via televisão para os seus mais novos, que se atascam nas referências dos seus avós, venerandas sem dúvida, mas sem direito a conhecer em paralelo as alternativas que com o rolar dos tempos a própria terra produz? Como é que é possível que o mundo inteiro bata palmas a Nuno Bettencourt, more than words, e a RTP/A não tenha a mais elementar decência de convidar o seu irmão Luis Bettencourt, génio da guitarra a viver na sua Terceira natal numa imperdoável penumbra, para o seu espectáculo de 30 anos de existência, onde Nuno foi convidado de honra e gelou o sorriso do Coliseu Micaelense quando, antes de encantar toda a gente com a sua mestria de executante, disse ao microfone, para a gravação, que a RTP desprezava 'um guitarrista melhor que eu, o meu irmão Luís: ele é que devia estar aqui mas ninguém o convidou', repetiu.

Expliquem-me, por favor, que eu nunca consegui entender: como é que o negócio televisão, que toda a gente quer e vende, só dá prejuízo nos Açores? Deve ser da tal 'identidade cultural própria' de excepção e imensamente superior que a guarda pretoriana do sentir açoriano defende existir e insiste em preservar. Culturalmente pobres. Mas orgulhosamente sós. Dez anos de delay na recepção de cada sound byte, como num circuito a quatro fios. Toda a gente a pagar do seu bolso para poder fazer televisão. Produtores de filmes caseiros que custeiam a produção das suas fantasias para aparecerem na RTP/A. E produtores profissionais, como a Íris, produtora institucional de institucionais com lugar cativo e quota em todas as grelhas, composta por ex-funcionários da RTP que construiram até um estúdio de raiz para as suas produções dos próximos anos. Convidaram-me a visitar os estúdios e tiveram a gentileza de me levar num tour ainda aos caboucos da nova obra. A meio da visita, entre o espanto e a curiosidade pelo impossível, perguntei delicadamente como é que tencionavam meter um charriot com uma grua a funcionar num espaço com uma escassa dezena de metros de altura, feito de raiz para ser um super-estúdio de televisão, único na ilha, topo de gama. Devo ter sido inconveniente na questão, porque não só não obtive resposta, como deixaram de me falar depois disso.

«É urgente que os açorianos, cada um por si e em conjunto, tomem uma decisão clara: nós queremos continuar a ter uma estação regional de televisão? Se não queremos, tudo bem: deixemos andar. Se queremos, temos que mobilizar-nos. Mas mobilizar-nos já. Porque a RTP/Açores vai acabar. É uma questão de tempo.», escreveu Joel Neto no Açoriano Oriental de ontem. Estou de acordo. Por mim, preferia não ser eu a levantar este debate, confesso. Na verdade, eu sou parte interessada. Mas sou parte interessada como açoriano, mais do que como jornalista. E sei que esta crónica, que não tem preocupações de simpatia para com ninguém nem pretende ser antipáctica seja para com quem for, está seguramente longe de ser aquela que mais amigos me vai arranjar, isso é garantido. Pronto, não é nada a que eu não esteja habituado, seja. Mas era uma opinião adiada já de dois, vai para três anos, esta que hoje escrevo. Já vai tarde, mal me perdoo por isso. Porquê agora? Porque tem razão, desta vez, o saudosista Joel. É urgente que os açorianos, cada um por si e em conjunto, tomem uma decisão clara: nós queremos continuar a ter uma estação regional de televisão? Se não queremos, tudo bem: deixemos andar. Se queremos, temos que mobilizar-nos. Mas mobilizar-nos já. Porque a RTP/Açores vai acabar. É uma questão de tempo.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De sopro de Zéfiro a 23 de Janeiro de 2008 às 12:32
ai,ai, não "fechei as aspas".

pode ser que,a partir d' agora, o autor do texto dê a cara, para reinvidicar os direitos de autor. eheheheh


De sopro de Zéfiro a 23 de Janeiro de 2008 às 11:58
Ena, Pessoal Bravo!!! ehehehehh

Pois é, "açore(i)anos" são mesmo assim:

"Vivem em nove belas Ilhas no
meio do Oceano Atlântico.
Dizem ser o centro do Mundo, os últimos picos da Atlântida - o Continente perdido, a terra de Neptuno. Falam de forma diferente. Cozinham a comida em buracos na terra, com o calor dos vulcões.
Fazem jogos com touros e perdem quase sempre. Nadam com golfinhos. Mergulham com baleias que antes caçavam em pequenos barcos e depois gravavam-lhes os dentes.
Há 500 anos que resistem a tremores de terra, a tempestades com ventos de 250 km por hora, e ondas do mar com 20 metros. Pescam os maiores peixes do Mundo - espadartes e atuns. Dividem os terrenos com flores, principalmente hortênsias. Criam vacas e chamam-nas pelo nome pr´prio.
Comem comida temperada com especiarias
vindas das Índias, Áfricas e Américas.
Festejam o "Espírito Santo" que dizem ser o seu "Senhor".
Usam uma ave - Milhafre- como seu símbolo mas chamam-se
Açori(e)anos.
SÃO UNS ESTRANHOS E SIMPÁTICOS LOUCOS!

A todos os estranhos e simpáticos loucos que interviram, nesta "discussão" aqui fica o meu grande, grande abraço.


De Anónimo a 23 de Janeiro de 2008 às 00:57
E agora estava na altura de discutir a RTP-Açores: do ponto de vista da sua programação, dos recursos humanos, dos custos,etc,etc,


De Rui Vasco Neto a 22 de Janeiro de 2008 às 23:28
Pessoa com pêzito,
É pena, acredite. Era bem vinda aqui, mai'los seus tijolos para esta casa que queremos ver construída. Mas se partiu, partiu. Por morrer uma andorinha não se acaba a tal, que ainda nem começou.


De pessoa-açoreana-espectadora-telespectadora a 22 de Janeiro de 2008 às 23:19
Caro Rui Vasco Neto,

Venho agradecer-lhe o espaço que me deixou usar neste seu blogue.

Apresento-lhe, também, as minhas depedidas. Não por mágoa ou "ressentimentos" mas porque desejo partir para outras vôos aonde a ânsia (mesmo que subjectiva e /ou conveniente)do "óptimo" não castre o que possa ser bom.

Parto, ainda, porque não me identifico com o purismo/puritanismo da linguagem ou da línguística em deterimento da liberdade de pensamento, de expressão e sentimento.

Parto, porque não me identifico com uma escrita que se pretende tão correcta que incorre na incorrecção de não olhar a meios.

Parto, porque não me revejo no burburinho das comadres, nem nas tesouras das beatas.

Parto para manter intacta a ausência de ressentimentos e com a de quem quer manter as duas faces inteiras.

Parto (em suma) porque quero VOAR!

Desejo-lhe a maior sorte e sucesso.

Um obrigada a todos, a si em especial, pela anfitrianidade, e à Mifá, em particular, pela latitude de alma.


De Daniel de Sá a 22 de Janeiro de 2008 às 23:15
Querida Amiga Mifá
Peço-lhe duas coisas, por favor: a primeira, que leia isto; a segunda, que dê sinal de que leu.
Não é meu costume corrigir Português em blogues. Se noto alguma coisa mais grave, escrevo ao autor directamente, porque, tal como no caso do Rui, quem não gosta de errar gosta de aprender. Faço parte dessa turma.
A questão de “açori(e)ana” não fui eu quem a lançou. Apenas dei a minha opinião, depois do desencontro de entendimentos entre o Joel e a minha querida Amiga, tendo pelo meio a anónima que não soube manter o diálogo com elegância. E isto doeu-me. Não sei porquê, os blogues têm destas coisas, sobretudo a cargo de anónimos ou pessoas mal identificadas. A Mifá decerto nunca viu aqui eu chamar antes a atenção para qualquer erro, nem voltará a ver. Maus fígados, tão-pouco. Mas, perante a aleivosia que me foi dita, eu não poderia reagir de outra maneira. Ou talvez pudesse. Mas, permita-se-me o paradoxo ou anacoluto (que eu de figuras de estilo não sei quase nada), embora podendo não consegui poder.
Um abraço a todos os que participaram no debate. A todos, o que inclui todas, obviamente.
Daniel


De Rui Vasco Neto a 22 de Janeiro de 2008 às 21:35
mifas,
Senta-te e ouve antes que eu me zangue: se te atreves a deixar-nos serei radical. Postarei uma foto minha e outra do daniel, de frente, núzinhos os dois, num outdoor em frente à tua casa para colapsares logo de manhã com uma apoplexia fulminante ante tamanho deslumbre. Gostarias de morrer assim? Bem me parecia que não.
É'mlhé, tás me dêxande menénte. Fica já quétáí.


De mifá a 22 de Janeiro de 2008 às 21:17
Minhas senhoras. Meus Senhores.

O tom é propositada e assumidamente pomposo. Com efeito, merece-o o propósito desta minha intervenção: despedir-me desta efémera vida de bloguista.
Porém, não quero fazê-lo sem, antes, dizer algumas coisas que penso e sinto, pondo o mais longe possível de lado a auto-censura que o mesmo será dizer, expôr-me à hetero-censura. Pese embora , prometi-me e vou fazê-lo.

Proponho-me dividir este texto em duas partes : uma que me é particularmente antipática e
inusitada pois nela farei nada mais nada menos do que puxar dos galões ; e a outra que, ao invés da primeira, me é particularmente simpática e usual, pois, nela, procurarei exercitar o meu sentido de justiça.
Comecemos pelos amargos de boca. Sou licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa.
Por entre literaturas,linguísticas e línguas ( Latim e o Grego, inclusive ), navegando, tive o privilégio de ter como Mestres alguns dos nomes mais prestigiados das Humanidades dos nossos dias. Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira, Andrée Crabée Rocha, Lindley Cintra, Ivo de Castro, Helena Mateus, Alberto Ferreira são apenas alguns dos nomes dos figurões( na boa acepcção do termo )que se contam entre os meus antigos lentes. Não me ufano de tal circunstância que, mais do que as línguas, linguísticas e literaturas, deixaram-me eles outro legado : a noção de que tudo o que sei, somado ao que, alguma vez, poderei vir a saber e multiplicado por tudo o que não sei nem saberei, nada mais é do que um cisco na imensa poeira cósmica. É assim, aliás, a pensamento humanístico : um saber que nunca se sabe bastante.
Todo esse "cadastro" ao qual se associa uma natural tendência para a descontracção e para a auto-confiança, tem-me permitido uma certa imunidade à crítica. Por isso mesmo que entendi não dever ressentir-me de algumas correcções de que aqui fui alvo. Por outro lado, não deixo de reconhecer a desoportunidade ( não sei se há ou não o termo. Para mim, e agora, há pois que é o que melhor espelha o meu pensamento) de alguns "acertos" pelos motivos que passo a expôr.
Primeiro, entendo que não será este o espaço adequado para excessos de purismo literário-linguístico; segundo, porque a correcção implica sempre uma asserção, uma certeza (e eu já tive oportunidade de afirmar que cada vez as tenho menos); terceiro e último, porque corrigir implica sempre a existência de um corrigido ou corrigendo. E nem mesmo as pessoas que estão na disposição de o serem estão sempre dispostas a sê-lo. E , depois, há as expectativas. Eu explico : ao vir deixar num blogue algum comentário faço-o com a leviandade e ligeireza que a predisposição para descontrair legitima. Admiro muito o purismo de um Camilo ou de um Castilho mas nem sempre eles me apetecem. Gosto de vestir uma toilette a rigor, mas não de levá-la para a praia.

Ora, deu-se o caso de alguém que foi amável comigo, que eu não conheço se conheço mas que deve conhecer-me, ter sido "atingida". E, meu Deus, ainda por cima, por uma gralha(?) menor. Que bem mais substancial matéria teria encontrado uma vista mais treinada. Pois bem, eu encontrei-a. E sabem o que pensei? Interferência da oralidade na escrita. É que tal gralha , desta feita sem parêntesis, é uma nota dissonante num discurso (repito) extenso, bem estruturado e com conteúdo. Aceso ou acendido? Também. Mas, que diabo!, açoreana ( confesso que aqui persiste dúvida e irreverência e muita, muita liberdade) que se preze tem vulcão na alma! Ainda por cima eu acabara de levar uma massagem no ego...
Por tudo o acima exposto, tomei a atitude que tomei e que MANTENHO.
Também me pareceu que houvera algum excesso que, aliás, não subscrevi nem subscrevo. Mas, a resposta cresce geometricamente em relação ao estímulo. Isso para já não falar no factor vulcanológico!
O melhor, mesmo, é não atirar a primeira pedra.
Pelos vistos há quem tenha reconhecido que o fez e lamentado tê-lo feito.
Felicito-o e asseguro que perfilho da ideia de que há muito mais coragem e mérito no reconhecimento do erro do que na ausência deste.
Quanto ao meu amigo Daniel, por quem nutro a simpatia que já por mais do que uma vez lhe demonstrei neste espaço, rogo-lhe que saiba distinguir um dizer dos dentes para fora de um dizer da alma ( que julgo que foi o que aconteceu), que continue nas suas práticas catequísticas ( se eu o tivesse tido como mestre, também nessa matéria, por certo não estaria agora às avessas com Deus) e que relaxe, relaxe, relaxe linguistica e literariamente falando, se não o Rui vai ter a tasca vazia em breve porque ninguém aguenta estar aqui a tecer comentários com os dicionários ( unilingues, bi, onomásticos, toponímicos, de sonhos - ai esse não!- ...) todos em riste.
Olha, e com tudo isso se calhar já não vou cumprir o prometido: abandonar a tasca (acho que foi isso que eu disse, no começo).
É que, no fundo e à superfície, eu sou assim: inconstante no pensar mas constante no sentir.
E agora, Daniel amigo, vou terminar matando dois coelhos com a mesma cajadada : nem vou ter o trabalho de corrigir o que escrevi nem vou tirar ao Daniel o prazer de o fazer.
É que eu ainda estou no activo e, agorinha mesmo, tenho a seguir-me os olhinhos de umas dezenas de testes que aguardam correcção. E que de matéria teria o Daniel se lhes pusesse a mão!

Abraço a todos.

( se não tivermos cuidado, os comentários a este post vão atingir um número obscenamente elevado! )


De Rui Vasco Neto a 22 de Janeiro de 2008 às 21:16
Pessoa com P grande,
Devo-lhe desculpas pelo lapso. Foi de facto você quem fez a referência ao Onésimo. Sua ou de quem seja, para mim a citação vale o meu peso em ouro (98Kg, no momento, e já jantei).
Quero acreditar que não há ressentimento nas suas palavras. Não faria sentido, depois do que lhe vi escrito para o Joel, alma em branco e tudo o resto.
Repito o que disse atrás: vejo entre as suas linhas uma pessoa de bem. E agradeço-lhe a correcção que acabou de ter comigo. Com todos nós ,no fundo. E só não digo 'pelos Açores' porque um destes dias ainda dou por mim a dizer frases ocas e não sentidas só para soar bem, como faz muita vedeta da minha terra.
Aceite um abraço sentido.


De pessoa-açoreana-espectadora e telespectadora a 22 de Janeiro de 2008 às 21:04
Caro Rui Vasco Neto,

Não vou tomar muito do seu tempo.
Apenas corrigi-lo (se me permite) que a citação do Onésimo foi trazida por mim e não pela Mifá.
Não que a Mifá não seja capaz de igual ou bem melhor, mas por um certo cansaço, meu, de omissões, de donos aos que não são donos e de seus aos que não têm dono.

Quanto ao meu comentário, de resposta a "Daniel etc" faça o que achar melhor (eliminá-lo, inclusivê)

Para mim, tanto faz! Mais importante do que dá-lo a ler, foi mesmo tê-lo escrito.

Melhores cumprimentos


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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