Terça-feira, 16 de Outubro de 2007
Triste e pior
Terça-feira, 16 Out, 2007
No dia em que o 24 Horas publicou aquela capa que dizia "Agarrem-nos" em cima das fotos de dois homens, eu senti um arrepio na espinha que me traz direito. Os dois visados eram, garantia o jornal nesse dia, os responsáveis pelo assassinato violento e estúpido de um jovem agente da PSP na Amadora, um crime que apenas poucas horas antes tinha abalado o país inteiro. A suas caras estavam agora na primeira página de um jornal diário com um apelo explícito à sua captura. E um apelo implícito à justiça popular. No dia seguinte o 24Horas lá trazia, em página interior, a explicação que não senhor, por acaso até não eram aqueles os assassinos, mas que já agora aqueles também eram pretos e por acaso um deles até tinha cadastro. E pronto.

Vinte anos de jornalismo foram-me ensinando as regras da arte. Continuo a aprender. Vou cumprindo sem grande incómodo na eficácia. Entendo que elas definem o essencial a seguir para fazer obra asseada. Não sou santo. Gosto é de fazer bem o que tenho que fazer. E de dormir bem com aquilo que faço. Quando chamei 'Nunca pensei dizer isto' ao post anterior estava a ser sincero.



O caso de 'Vico' é exemplar. Num tempo em que pedofilia é um dos palavrões mais repetidos no mundo, 'Vico' fez-se ao desafio. Mais que um pedófilo, 'Vico' quis fazer história no lodo. Vai daí publicou uma foto na Internet. Duas. Três, quatro, dez, setenta, duzentas fotos no total, mais coisa menos coisa. Têm número certo, o que é mais do que se pode dizer sobre as suas vítimas, cuja amostra publicada revela terem a partir de seis anos, isso sim. Mas não diz quantas foram. As fotos mostram só uma parte do que 'Vico' teve oportunidade de lhes fazer, onde tocou, como tocou, o que inventou mais o que pôs e o que tirou. E mais. Mostram aquilo que por decisão consciente, sua e de mais ninguém, ele quis que o mundo inteiro soubesse que tinha feito. O seu retrato risonho e maroto, que agora corre mundo sem máscaras de tecnologia, foi afixado pela sua própria mão no quadro global da Internet, onde a humanidade vai ás compras e aproveita para ver se há quartos para alugar e casas para vender. 'Vico' quis que todos nós soubessemos que há putos para comer ao almoço dos tarados mais espertos. A coisa correu-lhe mal.



A questão da certeza na identificação também tem contornos únicos. Numa estreia absoluta, a Interpol lançou um apelo mundial para a identificação daquele rosto das fotos já descodificadas. E as respostas chegaram, certeiras e credíveis, de inúmeras fontes em nada menos que três continentes por onde 'Vico' vem caçando no seu safari. O homem é definitivamente aquele. E quanto mais gente conhecer a sua cara, mais rápida será a sua localização, dizem. Acossado numa dimensão nunca vista, menos fotos novas serão tiradas, tem lógica. Tudo isto é rigorosamente verdade, estou em crer. Nada disto me deixa mais feliz com o facto de ter dito o que nunca pensei dizer.



Quando o assunto é pena de morte eu voto não sem hesitar. Acredito firmemente que não se mata o mal com choques ou injecções, e duvido com a mesma firmeza da infalibilidade total e absoluta da minha espécie. 'Há apenas duas coisas infinitas', dizia Einstein, 'o Universo e a estupidez humana e quanto ao Universo não tenho grandes certezas'. Pois. Porquê então este desejo assumido que 'Vico' conheça os prazeres da vida no cárcere, este assomo de bestialidade que me pesa e incomoda? Estupidez humana? É possível.



Com uma única excepção, não me recordo de nenhuma outra situação mais terrível, dolorosa e humilhante que um ser humano estar encurralado num redil de fraqueza e impotência perante o abuso sexual continuado d'um e d'outro, uma e outra e outra e outra vez. Como muito provavelmente irá acontecer com 'Vito', suspeito, em qualquer estabelecimento prisional para onde acabe por ir. A única excepção que ressalvo é se esse ser humano fôr uma criança de seis, sete, oito anos, sei lá, escolham a idade onde começa e acaba a inocência e vejam-na rasgada em pequenos pedaços espalhados por duzentas fotos que se riem nas barbas do mundo inteiro. Não consigo vislumbrar sequer um vírus mais terrível e infeccioso que este. Essa é a excepção na minha regra, pelos vistos. Fica por aqui o meu lado misericordioso?

Já sabia não ter todas as respostas para todas as minhas dúvidas. Descobri foi dúvidas novas, nem melhores nem piores. Pensei-as e resolvi cada uma dentro de mim como se fosse Deus a remendar rasgõezinhos pequeninos, um por um, neste tecido que sou. Como se calhar Deus podia remendar, que me perdoe o palpite, esse rasgão sem fim feito coisa corriqueira em todas as cadeias e que me faz pensar que, a ter que existir, então assenta como uma luva no fatinho que 'Vito' escolheu para si próprio. Não vejo ninguém mais indicado para a provação que ele. Fico de bem comigo nesse particular. Mas infinitamente mais triste com a descoberta irreversível que sou afinal bem pior do que pensava.

RVN




publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De sou eu a 17 de Outubro de 2007 às 15:12
Você não é mulher, a não ser que disfarce muito bem. Não percebo se a pergunta é pra mim. Porque é que hoje não escreveu ? Continua triste ? E pior ? Veja lá se vale a pena ... As culpas do mundo não são nossas ...


De Anónimo a 17 de Outubro de 2007 às 00:33
... pois... pois... aberrrações morais, uma estrutura social demente, desumanização à escala cósmica...Ai, o ABSURDO DA EXISTÊNCIA!

Que Náusea... Náuseaaaaaaaaaaaaaaa

Por favor, meu caro Rui, leve-me a ver outra "galeria" do seu Blog : ESTOU CANSADA DO PASSEIO INTERMINÁVEL pela "GALERIA DOS HORRORES"!!!!!!!!!

Criatividade e técnica apurada não lhe faltam para não se deixar cair
em determinadas armadilhas obvias...

Bem haja!


De Rui Vasco Neto a 16 de Outubro de 2007 às 22:47
eu sou:
eu sou mulher?

sol:

começando pelo fim, espero que tenha ultrapassado os problemas técnicos e venha mais vezes.
casa pia, segunda sessão, é o que penso nos aguarda nesta saison d'inverno.
suspeito que nossa catalina vem com saudades das luzes da ribalta e de fatinho lavado, sem pensar que ao agitar de novo o balde os salpicos são fatais.
vamos ver, tenha a certeza; estamos a isso condenados à partida.

venha sempre.

rvn


De Sol a 16 de Outubro de 2007 às 21:26
Cada vez sinto mais a vergonha que pesa sobre os nossos ombros de seres humanos. E pergunto: seremos mesmo humanos?
Esta história horripilante, onde se vislumbra um protagonismo afrontoso misturado com a impunidade que o tal “Vico” julgava ter, mostra que o Mundo está doente. E sem cura, para ser mais precisa e pessimista. Reparo que apesar dos factos e das pistas, o homem continua por capturar. Só espero que não demorem muito. E que não fique apenas obrigado à residência fixa e a apresentar-se, regularmente, no posto da polícia lá do sítio…
Nas prisões, os próprios presos, aplicam as suas sentenças. Por vezes muito mais pesadas e justas do que as aplicadas pela Justiça. Assim seja!
Por cá, caro RVN, depois das novas declarações de Catalina Pestana, esperemos os resultados. Não li o livro e não pretendo ler. O que já foi dito e escrito e visto, chega-me. As caras risonhas dos acusados, quer na televisão quer em revistas, para mim, é sempre de uma arrogância indecorosa. A tentativa da recuperação da “sua imagem pública” (feita com todo o descaramento) e o seu reencaminhamento para anteriores cargos que ocupavam (alguns já assumidos, outros, entretanto, anunciados, seja na política ou na TV), mostra o resultado que se adivinha.

Tive dificuldade em aceder ao seu blogue. Consegui utilizando o Google.

Abraço da Sol


De sou eu a 16 de Outubro de 2007 às 19:07
QUEM MORRE NÃO SOFRE MAIS !!! E este homem merece sofrer as piores dores que o cárcere lhe possa trazer !


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas