Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007
O Protesto do Burrinho
Quinta-feira, 27 Dez, 2007
O conto de Natal era a história de uma criança que escrevera um pedido ao Menino Jesus, e terminava assim: “Não vou pôr na chaminé nem sapato nem meia. Só um papel em branco, para que deixes lá uma palavra para eu usar como quiser, a palavra «de». E assim eu posso escrever que Tu és o Menino Jesus e eu sou um menino de Jesus.” Era um hábito antigo de Félix, poema, crónica ou conto, presença para si obrigatória na edição especial. Mas, nesse ano, as coisas haviam mudado. O director disse-lhe que não haveria edição especial. Nada de meninas pobres sem bonecas, nem de meninos a sonhar com uma bola de futebol, ou de poemas a rimar “luz” com “Jesus” sem uma gota de talento. O jornal ficava muito mais caro e a publicidade não compensava.

Tentou demovê-lo, mas em vão. Era o único jornal da cidade, não perderia assinantes por causa disso. E quase ninguém lia aquela ladainha de lamúrias sobre a condição dos pobres, ou os louvores ao Menino, a Sua Mãe e a São José. Perguntou se era palavra definitiva. “ Está decidido.” Félix desejou boas festas, e desligou o telefone. Nesse momento, o burrinho de barro escorregou das mãos da filha que se esticara para o pôr dentro da gruta, e partiu-se. Ela chorou. A mãe disse que no dia seguinte comprariam outro.

Na loja, a vendedora estranhou. “O seu também se partiu?” Sim, partira-se, mas que é que isso tinha de especial? “Já vendi umas duas dúzias deles hoje, e todos porque se partiram.” Não havia nada para admirar nesse facto, porque se faziam centenas de presépios na cidade, e sempre se quebrava uma ou outra figura, não seria verdade? “O que eu admiro é que ninguém apareceu a pedir um boi, um anjo, um São José, uma Nossa Senhora, um mago... Só burrinhos. Tenho de mandar buscar mais.” Ao chegarem a casa, a menina escorregou na escada e fez-se em cacos também aquele... “Não chores. Voltamos já à loja, meu amor.” Voltaram. A vendedora perguntou: “Vêm comprar outro?” Era. “Já vendi os últimos.” Mãe e filha estranharam agora ainda mais a coincidência. Talvez aqueles burrinhos fossem de barro muito frágil, deveria ser defeito de fabrico. Não era, garantia a vendedora. “E eles só ontem é que começaram a partir-se. Já veio gente aqui comprar um pela segunda e pela terceira vez. Amanhã teremos mais.”

Quando chegou a casa e soube do sucedido, Félix nem podia acreditar. Foi a casa de um vizinho, e perguntou se ele já armara o presépio. Não armara. “Se não fosse muita maçada, poderias mostrar-me o burro?” O vizinho ficou admirado com o pedido, mas foi buscar a caixa onde estavam guardados os bonecos. Ao entrar com ela na sala, um dos filhos apareceu correndo, a fugir do irmão, bateu-lhe no braço e a caixa caiu. Ouviu-se o ruído das figuras a fazerem-se em cacos. Os pequenos pararam a brincadeira e, aflitos, abriram a caixa para a inspeccionar. Tiraram os magos, intactos. Depois Nossa Senhora, São José e o Menino, sem uma beliscadura. Ao anjo não faltava nem uma ponta das asas. Todos os bonecos estavam inteiros, só o burrinho se esfanicara.

Ficou com poucas dúvidas. O burrinho do presépio arranjara aquela maneira de protestar contra a falta da edição especial. Foi ter com o director e contou-lhe o caso. Ele riu-se pensando tratar-se de brincadeira. Mas, perante a insistência e a convicção do amigo, resolveu mandar comprar um burrinho para mostrar como não o deixaria cair nem o boneco se partiria. Quando o tinha na mão, uma bola entrou pela janela e acertou em cheio no burrinho. “Coincidência”, disse. Foi ele mesmo buscar outro. Ouviu a vendedora falar dos muitos que se tinham partido. “Este não se partirá”. Pagou, pegou no boneco e, inesperadamente, espirrou, deixando cair mais aquele. Comprou mais um. Ia a sair a porta quando tropeçou no tapete, e, dessa vez, caíram ambos, ele e o burrinho. “Manda o conto. A edição especial há-de ser feita.”

E foi assim que o burrinho do presépio deu mais uma lição aos homens.

Daniel de Sá



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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