Terça-feira, 1 de Abril de 2008
Diário de um April's Fool
Terça-feira, 01 Abr, 2008
Hoje fiz uma visita rápida aos estúdios de televisão da Valentim de Carvalho. Aparentemente escolhi o dia das mentiras para o fazer, nem pensei na data. Fiz o caminho de sempre, pela força do hábito. Entrei pela porta do estúdio 2, o 'meu' estúdio, onde hoje se fazem 'As tardes de Júlia'. E com tanta pontaria o fiz que encalhei na porta estreita em direcção contrária à maré vazante do público que faz a figuração de plateau, umas dezenas de pessoas cuja maioria trabalhou também comigo durante os anos do 'Vidas Reais', naquele mesmo estúdio. Juro que a cena valia um Óscar, nem que fosse Acúrcio! A cara daquela gente que me conhece e que eu conheço, a expressão de incredulidade, o não saberem o que fazer, se andar, se parar, se falar, se acreditar ou não no que os olhos lhes diziam!! O episódio vai ficar como mais uma das minhas (muitas) estorietas de vida. Eu, pelo meu lado, estava dividido entre o sorriso algo divertido e o embasbacanço algo constrangido de quem se vê assim visto, qual Lázaro depois do túmulo, levantado e a andar pela graça divina.

A situação tinha alguma piada no ar e toda a gente estava sem saber muito bem o que dizer ou fazer, quando uma senhora de repente estaca na minha frente e começa a passar de azul pálido a verde-roxo e daí para uma brancura de face que quase nos matou de susto a todos, a começar por mim. Lá segurei a senhora, dois beijinhos, sente-se aqui, sente-se melhor? Lá recuperou o fôlego, pobre criatura, que com genuína emoção me explicou o baque que o seu coração já gasto tinha sentido ao ver ali, vivinho da costa e "a sorrir para mim, veja só!" o mesmo tal que o jornal tinha dito estar morto e enterrado, "meu Deus, como eu chorei, o senhor Rui não imagina, ai que feliz que eu estou de o ver...". Nas palavras de uma entroncaram as dos outros, todos com uma história para contar, o que faziam naquele dia em que souberam a notícia, quantos ais soltaram e quantas orações rezaram, o que se tinha dito e comentado, o que disse este e aquele e o outro... e tudo nos dias seguintes à famigerada publicação, pelo 24Horas, da notícia do meu passamento, dada por esse ícone chonchudo do jornalismo nacional que dá pelo nome de Castro, o Carlos.

Ali ficámos um nadita à conversa, entupindo a saída do estúdio onde ainda se gravavam as promos para o dia seguinte. O espectáculo tem que continuar, todos o sabemos. Banhei a alma naquelas beijocas repenicadas e retirei-me devidamente apalpado pelos apertões necessários e suficientes para o pessoal saber que estou vivo e quente, ainda a mexer. Vim consolado de afectos genuínos e desinteressados, mas a pensar no peso que tem a informação. E também no nosso Nunes, António, o tal que devia zelar pelo bem estar de todos nós. Vejamos: em cada maço de tabaco, por exemplo, consta a inscrição "Fumar prejudica gravemente a sua saúde e a de todos os que o rodeiam". É lá posta para prevenir os danos que o consumo daquele produto pode causar. Lembrei-me mais uma vez do rosto lívido daquela senhora que desmaiava nos meus braços de fantasma defunto, intoxicada por uma informação estragada, à venda ao público por um jornal diário. E não resisto a perguntar, mais uma e outra vez: então e um aviso luminoso, sonoro, bilingue, em cada exemplar daquele pasquim merdoso, não seria uma medida higiénica, to say the least? Nunes, António, pá: para quando, caraças?


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De João Villalobos a 4 de Abril de 2008 às 18:54
Muito bom! Não sabia da morte mas fico feliz pela ressurreição. Até agora só conhecia um caso e já se passou há 2 mil e tal anos...


De samuel a 1 de Abril de 2008 às 21:30
Alta estória!

"Pôe-lhes água fresca numa jarra
Dentro do teu quarto e junto á cama..."

Desculpa... fiz confusão. Este número também era com 24, só que eram rosas. Cantava-o a Rainha Santa Isabel, se não estou em erro.


De piedade a 1 de Abril de 2008 às 19:40
Talvez fosse bom acertares a hora do computador (ou andas a escrever muito cedo !!! LOL)


De piedade a 1 de Abril de 2008 às 19:38
Por acaso, vi hoje parte desse programa ...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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