Domingo, 16 de Março de 2008
Eu, com bigode sindicalista
Domingo, 16 Mar, 2008
Por esta altura já me cheira mal esta ‘Luta dos Professores’, confesso. Não a luta dos professores, que essa julgo entender, ou pelo menos esforço-me, a tanto obrigado pelo meu interesse pessoal e por todo este alarido no Portugal pós-Campos, o Corrido. Não, não essa. A questão está na outra, na ‘Luta dos Professores’ que todos gritam. Qual é a diferença? Muita, suspeito. A diferença está no caixar alto, na bandeira que já anda de repente de mão em mão, a mesma para professores e profissionais do barulho, louças portas e Menezes às vezes. Pois que no mesmo repente arrisca o país deixar de falar de Educação para passar a braços de ferro, recuos e avanços, estratégias e jogadas, tudo truques e simbolismos, rasteiras e contra-manobras dos uns que põem os outros (tudo e todos) com os olhos na televisão para ver quem ganha. E assim fazem esquecer o que está de facto em jogo, que era o que nos interessava a todos nós no início da conversa. E agora discutimos uma árvore, com a floresta a arder, enquanto vaiamos os bombeiros. Esse é o problema nesta altura, ao intervalo, para mim.

Sei que tenho uma opinião escanhoada, se pensarmos no bigode sindicalista que Mário Nogueira vem dando à nação desde que a indignação desesperada (ou teria sido o desespero indignado) da classe docente disparou e acertou em cheio no coração do governo uma rajada de cem mil, todos juntos e a gritarem o mesmo de uma razão comum. Os professores contestam a avaliação, querem uma solução para esse seu problema profissional? Pois logo os sindicatos não querem, exigem uma. E o governo “não discute sob ultimato” e é tudo o que diz, grato pela borla para escapar ao debate técnico. E de repente já tudo gira em torno do tom de voz de um lado e outro, já tudo se resume à avaliação dos professores, ao que Sócrates tem que fazer, ao que o Ministério tem que ceder, ‘força!’ ou ‘forca!’ para Marilu, passe o exagero. Os professores, ou porque lhes interessa, ou porque é uma questão do seu trabalho, ou porque envolve a sua dignidade pessoal e de classe, ou porque os incomoda, ou porque é justo, ou porque os assusta, ou porque seja, não vêm a terreiro dizer que há mais e pior para corrigir quando falamos de Educação e Ensino em Portugal, que há outras questões que se calhar há anos os incomodam e perturbam o seu desempenho e a vocação dos que o são. Porque teriam que o fazer, aliás, perante o facto? Até porque só a questão da avaliação tem de facto pano para mangas, quer pela sua importância real, quer pela sua natural complexidade, não fosse o brio um requisito de humanidade de cada profissão. Resultado? Isto que vemos, isto que temos. Um mar de metades: meias verdades, meias medidas, meias desfeitas, meias curtas para estas pernas que fazem andar a cultura nacional, a educação e o ensino. E os putos sujeitos a quotas de dias perdidos. Os pais a pagarem essas quotas em cãs e numerário, nem sempre por essa ordem. E o país a perder agora e mais tarde, numa derrota colectiva com temporizador activado.

Tal como eu dizia, entre mim e o Mário Nogueira existe mais que um bigode sindicalista. Eu faria diferente se fosse a cara da luta dos professores (e não a cara da ‘Luta dos Professores’). Se tivesse acesso ao microfone principal do palco da reivindicação docente, também eu não aceitava que o Estado me impusesse a avaliação. Eu próprio impunha a avaliação dos professores, a minha avaliação, tão alto que o país pararia para me ouvir e o governo bateria a compasso quando eu exigisse uma gigantesca avaliação à prestação de cada professor. Nos termos que o ME sugere? Não, vamos carregar nas cores. Se resumem os senhores o tal ‘braço de ferro’ à avaliação, pois faça-se um aferir que inclua a prestação profissional nos critérios que preocupam o governo, sim, mas juntem-se ainda mais estes e estes e estoutros que espelham isto e mais aquilo e mais aqueloutro que prejudica a educação, que tolhe o ensino, no saber daqueles que há décadas o fazem e estão aí, insatisfeitos. E aí falemos de currículos, de colocações, de horários, de instalações, de carreiras, de números, de programas, do diabo a quatro que inferniza a escola em Portugal há anos demais. E de avaliação também. São os professores a exigi-lo. A gritá-lo, mais alto e mais duro que o governo. Querem conferir? Confiramos, mas todo o stock, não só a montra escolhida. E chamem-se os arautos do costume para mostrar o escândalo ao país e ao mundo. E faça-se tudo agora e com a mobilização de tudo e todos, professores, sindicatos, alunos, pais, varredores e apanha bolas - o país inteiro, porque o país inteiro não sobrevive sem educação, não respira sem ensino. E faça-se depressa, porra, numa só motivação, numa onda comum, que as crianças crescem depressa e tendem a reproduzir-se que nem martas.

Ninguém acredita possível este lirismo, certo? Mas eu respeitaria uma classe docente que fizesse tal exigência. Eu parava o meu passo, estacionava qualquer preconceito, encostava qualquer embalo para ver e ouvir um braço feito deste aço inox. Quereria saber mais da tal indignação que agora se confunde perigosamente nas sombras do jogo político, que se escoa na transparência das razões de todos (que todos as têm para a troca, é sabido e escusado discutir). E exigiria mais e melhor da outra parte, por mais minha equipa que fosse pela cor do voto, simpatia ou convicção. Que a verdade faz cair as máscaras, derrete-lhes o sebo de mentira que as cola à cara de quem as usa para sobreviver, politica ou profissionalmente. Por isso avalie-se o que se questiona de um lado, mas questione-se o que se avalia também, acrescentando as nossas razões na mesma exposição nacional. E porque não fazê-lo, se o essencial da classe docente, os bons que dão o seu melhor, não temem avaliações e não se deixam iludir com falsas questões? Mas ande-se para a frente com a carroça, que gritos e diz-que-disse, bigodes e porreirospá, só trazem fumaça e poeira aos tais avanços e recuos que dão meia volta e continuam em frente, para acabarem no mesmo sítio. Eles e nós.

(Deve-se este post a mais uma daquelas discussões aspirínicas que só lá, mesmo. Onde? Aqui, claro.)



publicado por Rui Vasco Neto
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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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