Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008
A primeira pedra
Quarta-feira, 06 Fev, 2008
Alguém se lembra ainda do 'caso Gisberta'? Dos treze menores envolvidos nos maus tratos que conduziram à morte de Gisberta, a transexual morta há cerca de dois anos num prédio inacabado da Baixa do Porto, dez já cumpriram as medidas tutelares de internamento a que foram condenados pelo tribunal e estão em casa de familiares, inseridos na sociedade. Uns estudam, outros trabalham. Apenas um, actualmente com 15 anos, está num Centro Educativo dos Olivais, diz hoje o DN. "Espero ter uma decisão do Supremo até à próxima semana. O David deve voltar para casa, estar com a família e fazer a vida normal de um adolescente, pois o que se passou há dois anos foi culpa dos responsáveis da Oficina de São José, que não souberam cuidar e educar os jovens que lhes foram confiados", disse ao DN Pedro Mendes Ferreira, advogado de defesa. Os restantes dois - que não foram sujeitos a internamento - permanecem na Oficina de São José, instituição tutelada pela diocese do Porto. Já o local do crime está igual, continua tal e qual. Até hoje, o prédio na Avenida Fernão de Magalhães permanece exactamente na mesma e, através do gradeamento, são visíveis vestígios de ocupação do edifício pelos sem-abrigo, que, à semelhança de Gisberta, aproveitaram o local para tentar fugir ao frio e à falta de uma cama. As obras pararam há anos, ainda durante a gestão socialista na Câmara do Porto, por falta de liquidez dos promotores. O DN traz hoje o assunto à estampa e eu lembrei-me deste texto, escrito e publicado dias depois do crime. Eu cá acho-o actual, que dizem?


Pergunta: quanto tempo leva a matar um homem a soco, ao pontapé e à pedrada? Resposta: depende. Se forem precisos treze rapazes entre os 13 e os 16 anos e se eles estiverem assim meio a brincar, sem se aplicarem por aí além, leva um fim de semana. E ainda sobra tempo. De sábado para domingo passado, um homem de 45 anos foi morto a soco, ao pontapé e à pedrada por uma besta descontrolada composta por treze garotos, os mais novos com 13 anos e apenas um, o mais velho, com 16. A besta era uma só, a besta do preconceito e do ódio, desta vez com treze cabeças, vinte e seis braços e vinte e seis pernas, números exactos. Recorde-se que a exactidão aqui é importante, já que cada um desses membros foi um instrumento activo neste massacre. Os pés pontapearam, as mãos deram os socos e atiraram as pedras, as cabeças deram o tempero do veneno desta besta que é a vergonha de todos nós. Às vezes a besta tem mais cabeças, mais braços e mais pernas. O seu corpo muda e adapta-se a cada clima que encontra favorável, já desde a memória dos tempos. Esta é a mesma besta, do preconceito e do ódio, que matou judeus em Auschwitz, pretos na África do Sul, amarelos na China e vermelhos na América. É esta mesma besta que explode cafés e supermercados na Palestina, estações de metro em Londres e torres em Nova Yorque, tortura árabes em Guantanamo e queima mesquitas no Iraque. A mesma força, a mesma ignorância, a mesma crueldade, o mesmo motivo. A besta do preconceito e do ódio esmaga todo e qualquer sinal de diferença com o calcanhar pesado da bota gigante da estupidez humana. Da estupidez de todos nós.

Para muitos portugueses, quem morreu espancado e apedrejado no passado fim de semana no Porto não foi bem uma pessoa. Foi um maricas que era travesti e prostituto. Era um paneleiro, dirão. E era um drogado, o gajo. E dormia na rua, não se lavava, era porco. E era brasileiro. Como se vê, não era bem um dos nossos, ninguém nos pode comparar ou misturar com esse tipo de gente, com certeza, a nós ou aos nossos filhos. Este era um filho da outra, há aqui uma diferença, já se sabe. E depois isto é o tipo de coisa que só acontece com os filhos dos outros. Os tais garotos que fizeram isto, por exemplo, mesmo com treze anos, também não são iguais aos nossos filhos. Estes eram na maioria pretos, para começar. E vadios, delinquentes, com antecedentes criminais e internados numa instituição do Estado. E com certeza que eram drogados também. Como se pode ver, vista com outros olhos a coisa fica bem diferente. Tudo é relativo.

É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que cada vez mais se divide entre aqueles que não dizem merda e aqueles que vivem enterrados nela todos os dias das suas miseráveis existências. É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que tem governantes que agora se dizem ‘chocados’ com o linchamento de um travesti drogado, mas que no entanto vão mantendo zonas vermelhas de submundo dentro das nossas principais cidades, onde é possível o tráfico de droga e a prostituição, o crime e o vandalismo, a violência e até o homicídio, sem que a polícia lá entre, interfira ou queira descobrir o que quer que seja que se passa dentro dos seus limites. É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que diz ter centros de acolhimento e recuperação para ‘menores em risco’, que continuam em risco quando confiados à guarda de um Estado que não tem a mais pálida ideia sobre o que há-de fazer com o seu presente, como se vê, quanto mais com o seu futuro. É uma sociedade hipócrita e criminosa esta que sabe tudo isto, vê tudo isto e vive bem com tudo isto todos os dias de todos os tempos. Que permite bolsas de miséria onde se desenvolvem todas as doenças sociais que são verdadeiramente cancerosas para a evolução da espécie humana e nada faz para as erradicar, convicta que nada daquilo acontece aos seus filhos dilectos. Só aos filhos dos outros e aos filhos da outra como Gisberto Silva, brasileiro, travesti, drogado, prostituto, homossexual e sem abrigo, que foi assassinado no passado fim de semana na cidade do Porto. O seu corpo, em estado de adiantada decomposição, foi encontrado no edifício onde morreu, que está abandonado há 15 anos e é terra sem lei, conhecida e reconhecida como centro de múltiplas actividades criminosas. Gisberto foi morto por treze adolescentes, com 13 a 16 anos, a soco, ao pontapé e à pedrada. As investigações sobre o que realmente aconteceu ainda não começaram mas já se sabe quem atirou a primeira pedra. Fui eu. Foi você. Fomos todos nós.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Rui Vasco Neto a 7 de Fevereiro de 2008 às 02:30
leonor,
incrível, não é? e muito humano, diga-se.


De Rui Vasco Neto a 7 de Fevereiro de 2008 às 02:27
lita,
as melhoras, amiga.

saci,
infelizmente assim o creio também.


De Leonor a 6 de Fevereiro de 2008 às 22:02
Touchée mesmo. ou de como podemos hipocritamente ir assobiando para o lado e fingir que coisas destas só se passam "lá fora".

infelizmente, o texto continua muito actual


De Insaciável a 6 de Fevereiro de 2008 às 21:44
Rui

Não há muito a dizer a não ser que o texto está excelente. E actual. E aposto que infelizmente daqui a um ano também estará. E dois..e três...


De Ângela a 6 de Fevereiro de 2008 às 17:54
Neste, como em muitos outros casos, o preconceito e a indiferença (seja esta pura e simples, ou seja face ao preconceito de outros) são quase mais execráveis que os actos em si mesmos.
É indamissível que se mate (ou se considere, sequer, como "brincadeira") um outro ser humano só porque é diferente. É que, caso ainda ninguém tenha reparado, nós somos todos diferentes uns dos outros! E, por isso mesmo, estamos todos sujeitos a que um dia um qualquer "artista", novo ou velho, se ache no direito de espancar/matar outro só porque achou que esse outro não era igual a ele. Travesti, estrangeiro, dependente, incompreendido. Quem nunca se sentiu assim? Graças a Deus, alguns de nós não se atravessaram nesse dia com uns miúdos traquinas... Como, infelizmente, aconteceu com a Gisberta.
(Rui, desculpa, a gripe deixa-me ainda mais intransigente!)


De Rui Vasco Neto a 6 de Fevereiro de 2008 às 17:33
sam,
gadinho, viu?

carmónima,
a indiferença é quase pior que o preconceito. quase.

mifas,
gadinho. viu.

adolfo simões,
um não sei quê técnico deste Blogger imprevisível fez cair o seu comentário, mas obrigado na mesma.


De mifá a 6 de Fevereiro de 2008 às 15:50
Um mea e nostra-culpa, num excelente texto.
Touchée ( em várias acepções ).


De Anónimo a 6 de Fevereiro de 2008 às 14:23
A culpa é realmente de todos nós nem que seja pela nossa indiferença.
Carmo


De samuel a 6 de Fevereiro de 2008 às 14:12
Não li então... tiro o chapéu agora!


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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