Sábado, 8 de Março de 2008
E agora, José?
Sábado, 08 Mar, 2008
Há algo triste em comum entre a remodelável Maria de Lurdes Rodrigues e o remodelado António Correia de Campos, nesta mesma circunstância em que um se encontrou e a outra se encontra neste momento. Que circunstância? Tornaram-se ambos alvos maiores e mais apetecíveis do que os problemas sociais que representam na contestação nacional, é essa a circunstância. E o que têm de triste em comum? São ambos carne para canhão, um que já foi e outra que está no ir, ao que parece. Permitam-me que explique melhor.

Fazer uma reforma num sector como a saúde ou a educação não é mais que fazer aplicar novas regras e condições aos mesmíssimos meios existentes antes e depois da reforma. Certo? É mudar as regras de um jogo que continua obrigatoriamente com os mesmos jogadores, não há outros para o manter, são eles o próprio jogo, até certo ponto, certo? Ora, criar incompatibilidades viscerais personalizadas muito para além da falta de sintonia comum entre governo e governados, para lá da incompreensão programática entre os uns que mandam e os outros que obedecem, é instalar no presente debate sobre a educação nacional a ruptura sem retorno que afastou António Correia de Campos, deixando no chão as mesmas questões por resolver e no ar uma falsa sensação de alívio geral, só para não dar o tempo por perdido na totalidade. Ou seja, perderam-se de vista os problemas concretos das situações concretas para se cair na generalização fácil da indignação colectiva - sempre justíssima, tanto quanto a vida é sempre injusta para os mais fracos.

José Sócrates estará agora a saborear o travo amargo da promessa de doce diálogo que abriu caminho à chegada do seu partido ao poder. Recorde-se que Portugal vivia uma obediência sem bufar quando o Partido Socialista inventou o diálogo como cenoura eleitoral, por oposiçã
o na altura ao estilo duro e autoritário de Cavaco, o tal ‘nunca me engano e não tenho dúvidas’ que acabaria por custar nas urnas uma travessia de alguns anos ao só agora Presidente. Foi assim, advogando a bondade do diálogo prévio com o tecido social como base programática da governação, que o PS conseguiu encher os Estados Gerais com nomes que duvidosamente se chegariam à política sem esse chamariz, ao tempo. E foi assim, no embalo dessa cultura de diálogo, que Sócrates acabou por chegar a S.Bento, santo aureolado antes do tempo de todos os arrependimentos, este mesmo que agora grita ao país que ‘as políticas do governo não se alteram com base naquilo que se passa nas ruas’ (não totalmente desprovido de razão neste ponto) e que ‘são sempre os mesmos, os do costume, eu já os conheço’ (uma observação à Ray Charles) que se manifestam. Hoje, três anos de governação depois, o engenheiro está cansado da conversa e perdeu a frescura que lhe fazia a diferença do paleio. E agora não quer mais diálogo com o tecido social que faz este cobertor da educação, tal como já aconteceu no agasalho da saúde. Empurrado para becos sem saída pela via do diálogo, Sócrates força a mão pela via da imposição em nome da competência técnica que, a seu ver, apenas falha na comunicação e é perfeita no resto. Ontem Correia de Campos, hoje Maria de Lurdes Rodrigues. A mesma estratégia, autismo igual.

Esta tarde, à hora que vos escrevo, cerca de oitenta mil pessoas (números da PSP, mais de cem mil dizem os sindicatos) desfilam pelas ruas de Lisboa num protesto, com assinatura daqueles que ensinam os nossos filhos, contra as políticas que o Governo traçou para a Educação em Portugal. Oitenta mil pessoas numa manifestação de classe é muita gente. Muitos lá estarão motivados apenas pelo sistema de avaliação de professores, que consideram lesivo aos seus interesses de classe. Outros estarão lá porque o partido os mandou estar. Outros ainda por solidariedade pessoal ou profissional. Outros só vão ver a bola, estão pelo folclore. Alguns haverá que lá estarão porque acreditam de facto que é a coisa correcta a fazer face ao aparente desgoverno que grassa nos estabelecimentos de ensino, onde avultam os problemas de disciplina, de programas, de horários, de segurança, de regras de educação geral e específica, normal e especial, demasiados problemas para tão escassas soluções. Todos juntos somam várias dezenas de milhar de pessoas que comprovam, pela sua presença, a necessidade de mudar alguma coisa de fundo na Educação em Portugal.

Eu cá não sei se Portugal acabou por acreditar que era possível mudar e corrigir o que está errado, de tanto ouvir dizer que tal era possível se o tentasse pelo diálogo. Também não sei se lá em cima se chega a escutar o que se diz cá de baixo, nem sei sequer se poderá vir de baixo a lucidez que aparentemente falta em cima. Só sei que quanto maior for o braço de ferro político dos políticos, maior é a derrota colectiva do povo naquilo que realmente interessa, nas questões de fundo que fazem perigar o futuro de todos nós. Isso eu sei. Porquê? Porque é o que vejo a acontecer, nem mais nem menos.


publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De mifá a 9 de Março de 2008 às 15:29
Menino, faz favor de actualizar os dados: 100.000 (números da PSP).


De dizer bai custa tanto a 9 de Março de 2008 às 00:15
Jos� n�o partas, sem antes de dizer umas coisinhas:
vai && ##&&&&""!


De Correia de Campos a 8 de Março de 2008 às 20:13
Acha que ele ou a Lurdinhas se importam ? Nã ... já têm o futuro garantido - o povo que se lixe e os nosso filhos também são povo ...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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