Segunda-feira, 5 de Maio de 2008
Morra o Dantas, morra! PIM!
Segunda-feira, 05 Mai, 2008

Sempre me causou uma profunda impressão, desde que me lembro de ter aprendido o personagem, a figura de Almada Negreiros, homem e artista. Recordo-me dos primeiros dados que registei sobre o pintor e de quem mo 'apresentou', digamos assim. Lembro-me também, já vagamente, da introdução programática que tive ao Almada escritor, no liceu, feita por Virgílio Ferreira, meu professor de Português nesse ano. Acho que terá sido referido o 'caso Dantas' nessas aulas, tenho quase a certeza que sim, mas sei que não foi aí que 'descobri' o 'Manifesto'. E sei que não foi aí porque sei exactamente quando foi e quem me ofereceu a prodigiosa revelação do 'Manifesto Anti-Dantas' de Almada Negreiros: foi Mário Viegas. Nem mais.

Foi depois de ouvir, julgo que no saudoso 'Palavras ditas' da RTP, este diseur de excepção debitar o Manifesto com a naturalidade de quem traz aquelas palavras na alma, como suas no sentir, e não na cabeça, decoradas como tabuada, que eu fui descobrir o 'caso Dantas', Almada Negreiros, a geração 'Orpheu' e a aventura do modernismo literário português, disputado à bengalada verbal entre o grupo da 'Orpheu' e a geração conservadora que via em Júlio Dantas um modelo literário a seguir e manter. Com este 'Manifesto Anti-Dantas', Almada desferia um golpe memorável na arrogância conservadora e assinava, aos 23 anos de idade, uma criação literária que ficou para a história como um verdadeiro tratado de ironia.


À força das palavras deste Manifesto junta-se o poder avassalador de uma carga irónica e mordaz sem par na literatura portuguesa, não nestes termos. E quem melhor que Mário Viegas para dar voz a essa ironia, ele que tinha na alma o ‘boneco’ da mordacidade em pessoa? Este mesmo Mário Viegas que aqui fica, à distância de um clic, neste 'Manifesto Anti-Dantas' que em boa hora eu encontrei, por puro acaso, e que não resisti a dividir. Por duzentas e vinte e quatro razões, conto só duas para não maçar.


A primeira está dita: Mário Viegas. Recordar o actor é um privilégio tecnológico a que já ninguém liga, nesta era digital, excepto eu que me deslumbro sempre que ouço as primeiras inflexões daquela voz mágica e me deixo embalar até ao fim, deliciadamente prisioneiro da sua arte maior.

A segunda razão é o texto em si. As palavras. Sim, eu sei que conhecerá o texto, enfim, mais ou menos, mas há quanto tempo não o ouve inteiro, lido por si ou por outrem? Nunca é demais recordar estas palavras, primor de ironia inigualável, memórias de um talento que eu invejo e admiro. Porque sim, meus amigos, também eu diria do coração a uns quantos Dantas que conheço que, se todos fossem como eu, haveria tais munições de manguitos que levariam dois séculos a gastar.

Mais os do Almada, naturalmente. PIM.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Jofre Alves a 5 de Maio de 2008 às 04:58
Encontrei este blogue com um conteúdo deveras importante e interessante, a merecer mais e futuras visitas. O “Manifesto Anti-Dantas” é uma das mais violentas peças literárias do século XX, ainda o autor era um jovem de vinte e dois anos (mais ou menos, pois cito de memória), e marca o início do Movimento Futurista. Em termos culturais foi uma bomba atómica! Boa semana, com tudo de bom.


De Rui Vasco Neto a 6 de Maio de 2008 às 01:31
jofre,
obrigado pelos votos, mas há uma maneira segura de tornar a semana melhor: vá aparecendo, verá que resulta.
cumprimentos


De Samuel a 5 de Maio de 2008 às 14:06
É nestas alturas que eu fico todo inchado por ter feito tantos recitais de poesia e cantigas, mano a mano com o Mário, de que guardo dentro da cabeça (e do coração) os meus vídeos privados.
Esses ninguém me tira!...

Abraço


De Rui Vasco Neto a 5 de Maio de 2008 às 19:14
sam,
pois podes acreditar que eu estava a escrever este post e estava a pensar em ti, que tu te sairias com um comentário deste género, como saíste, e que eu iria sentir uma pontinha dimbeja, como. (e às vezes só petisco...)
toma lá abraço, ó baidoso.


De Daniel de Sá a 7 de Maio de 2008 às 02:07
O Almada deu uma fama tão ruim ao Dantas que o pobre nunca mais se livra dela. Mas pudessem muitos ser capazes de escrever contos tão bem urdidos como os da "Marcha Triunfal". Aquele "Moleiro de Sula", por exemplo, é de nunca esquecer. Fui ao Google ver se havia referência, e está lá o conto, para quem duvidar. E o moinho para as bandas do Buçaco, para quem quiser ver.


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