Terça-feira, 6 de Maio de 2008
Notícias de jornal
Terça-feira, 06 Mai, 2008

Todo o santo dia é a mesma coisa. Enfim, quase a mesma coisa, lá muda uma mosca ou outra. O resto é igual, são notícias como esta, muitas notícias como esta, e outras iguais, e parecidas, e outras parecidas e iguais. «A Polícia alemã deteve ontem, em Olpe (Renânia do Norte-Westfália), uma mulher por "grave suspeita" de infanticídio de três recém-nascidos encontrados na cave da sua casa, numa arca frigorífica.» Mundinho de merda, não é? Ouçam o resto, atentem no pormenor: «Os corpos foram descobertos pelo mais novo de três filhos de um casal com uma vida perfeitamente normal.», Os senhores não acham fantástica esta expressão, 'casal com uma vida perfeitamente normal', para descrever quem guarda três filhos mortos no frígorífico? E no entanto eles eram de facto um casal com uma vida perfeitamente normal, mais um neste mundo perfeitamente normal em que vivemos.

Bom, eu confesso que fiquei para aqui às voltas com o conceito de 'vida normal'. E daí para a frente já não parei, sabem como estas coisas são, isto dos assassínios são como as cerejas e agora com o Google não tem caroço, há de tudo para todos, até assassínios, com certeza. (Isto era eu a pensar cá com os meus botões, já pus a itálico para os mais distraídos apanharem). Pois bem, toca então de ir para o Google em busca de matadores para o meu post. Foi canja, como calculam. Eu é que nunca calculei, que se matasse tanta gente por metro quadrado no Google. Mães a matar filhos, por exemplo: há bué, por mais incrível que possa parecer. Mas como eu já tinha uma mãe a matar filhos, lembrei-me de procurar outras matanças, para ver o que havia. As coisas de que eu me lembro, é o que é.

Experimentei 'Filho mata mãe', para também não variar muito. Pimba! Cá vai disto, fez o Google, e vá de despejar uma tal matança de mães que até a mim me impressionou, eu que acho que 'mãe há só uma' exactamente porque ninguém aguentaria duas, meu Deus! (mãezita, desculpa lá esta). Escolhi a história de um tal Neotel Rafael, talvez pela singeleza da sua graça. «O indivíduo, solteiro e de 39 anos, matou os pais ontem de madrugada e a suicidou--se quase duas horas depois, na casa onde todos viviam no bairro do Catujal, freguesia de Unhos, Loures.», diz o jornal. O método usado pelo Neotel para matar os pais também teve o seu quê de singelo: «Ele atingiu mortalmente os pais, Alice e Domingos, no crânio com um martelo. Depois, após uma primeira tentativa falhada de suicídio com gás, o homem degolou-se.» É certo que quem escolhe Neotel para chamar a um filho sujeita-se às agruras da vida, mas quanta sanguinolência!


Por esta altura eu já estava por tudo, acreditem. Para piorar a situação, tinha acabado de ler a história deste filho-da-puta, um tal de Joseph Fritzl, o austríaco que manteve a própria filha presa numa cave feita de propósito para este fim quando ela tinha apenas 12 anos. O cativeiro demorou vinte e quatro anos, durante os quais a pobre teve sete filhos deste pai-monstro, os mais velhos com 19 e 18 anos passados sem ver a luz do sol! Por aqui já podem ver que eu estava com um humor de cão de fila, quando arrisquei 'Filho mata pai'. Tcham!, saiu-me um dois-em-um: «Matou o pai e fingiu-se morto para atirar na mãe, não houve sequer discussão, apenas o ruído de tiros, um dos quais em cheio no peito de Inácio Valente. "Só não conseguiu acabar com a mãe porque ela caminha mais devagar por causa dos problemas do coração", acrescentou um primo do alegado autor do disparo fatal.» Estava por um fio, a minha fé no mundo em geral e nos meus compatriotas em particular.

Resolvi tirar os 'filhos' da pesquisa. 'Agora só pais, pais com mães e vice versa', (isto era eu a pensar outra vez). Ora!, foi tiro e queda, passe a expressão, e teve direito a bónus e tudo: «Matou ex-mulher e sogra no dia dos anos da filha», googlou o JN; «Catarina fazia ontem cinco anos de idade, mas dificilmente voltará a festejar o aniversário com alegria. O pai matou a mãe e a avó materna, quando estas a vinham visitar e trazer-lhe um presente ao infantário, em Santa Marta de Penaguião.» 'Ok, seja!' (eu estava danado, já!). 'Tem de haver um pingo de decência nesta humanidade onde mães matam filhos que matam avós que matam pais que..'' Ooops! Foi aqui que me lembrei de uma para enganar o Google: 'Neto mata avó', escrevi convicto e sem medos. Ninguém mata uma avó, que diabo. Pois passei-me com a resposta, caramba; «"Neto confessou que matou a avó por causa do Benfica"», li e gelei, sobretudo com as explicações do próprio: «O Benfica jogava naquele dia e não estava bem da cabeça. Tinha bebido a mais e ela não me deu o dinheiro que eu queria». 'Porra!!', (foi o meu último pensamento).

Para mim o assunto estava arrumado, depois desta. Senti um arrepio de nojo pela espécie humana, um vómito de assistir ao Homem a comportar-se como um animal. Olhei para o meu cão, para o meu meigo e fiel cão, ali aos meus pés, e escorreu mel coado do meu sentir por ele. Ah, que bom é sentir que se pode confiar, a cem por cento; dali não viriam nunca facadas, tiros ou marteladas. 'Google, meu cínico, toma lá esta e embrulha!', pensei; e logo escrevi, com um sorrisinho irritante (espero!) de superioridade: 'Cão mata dono', sugeri à pesquisa, recostando-me na confortável certeza de um xeque-mate seguro. Mas…mas…Oh, Deus! «Cão mata seu dono com tiro durante caçada.», googlou o gajito, enquanto eu morria, ou quase, ali no chão. Li o resto à beira do enfarte: «Um homem morreu no Estado do Texas, nos Estados Unidos, depois que o seu cachorro pisou a arma que ele usava para caçar, atirando acidentalmente na sua perna, segundo a agência EFE.» Os senhores imaginam o choque que isto foi?


Olhei mais uma vez para o meu querido Gastão, para retemperar a fé antes de ir despachar o Google. A notícia abalou-me, é certo. Basicamente não podia ser verdade, estas coisas não acontecem, os cães não andam para aí aos tiros aos donos, talvez uma dentadita, pronto. Mas era mesmo verdade, que eu fui lá conferir, para matar a dúvida. E foi nessa altura que a coisa se deu. Mesmo por baixo do link desta história do tal texano abatido a tiro pelo cão, ali mesmo debaixo do meu nariz estava isto: «Um grupo de cães de caça feriu à bala um americano que caçava faisões, informou esta segunda feira o Departamento de Recursos Naturais de Iowa. James Harris, de 37 anos, saiu para caçar junto com um grupo de amigos na sexta feira passada, um dia antes de terminar oficialmente a temporada de caça ao faisão. O grupo disparou contra um ave, que caiu do outro lado de uma vala. Harris foi pegar a ave, pousou sua arma no chão e cruzou a vala. Foi quando os cachorros chegaram correndo, pisaram na arma e dispararam acidentalmente, ferindo Harris, que foi transferido para o Hospital de Iowa.» "Desisto!", rosnei. E desisti mesmo.


Lembram-se como começou esta nossa conversa? Com as notícias deste mundo doido, recordam-se? A mulher que matou os três filhos e os guardou no frigorífico lá de casa, o Joseph Fritzl que sequestrou e violou a própria filha durante vinte e quatro anos, o neto que matou a avó e o homem que matou a mulher e a sogra, entre outras? Pois é todo o santo dia a mesma coisa, enfim, quase a mesma coisa, lá muda uma mosca ou outra.


Por falar em moscas: pus o Gastão na rua, até ver, pelo sim pelo não. Não quero cá tiros em casa.



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Saci a 6 de Maio de 2008 às 14:28
Brilhante.
Rui Vasco Hitchcok e o seu post "The dogs"
Gostei muito.


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:19
nem tanto, nem tanto, mas tanquiú, éniuei.


De Pirate a 6 de Maio de 2008 às 14:47
Gastão era perfeito conduzido por seu dono
Em sonolências afeito às picadas dos mosquitos
Era Gastão milionário, vivia em tapetes raros
Se lhe viravam as costas...
Chamava logo a polícia...

Pobre Gastão... :-)

O fiel amigo, nunca nos decepciona, essa é que é Eça...:-)


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:19
Bem visto, velho pirata. E havemos de nos ver, também.


De Anónimo a 6 de Maio de 2008 às 20:30
Esse Gastão é o mesmo que fugiu do Ferro Rodrigues?


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:14
Nã senhôri. Com todo o respêto pelo dótôr Ferro, o único contacto com o PS que eu permito ao meu cão vem do Telejornal, influência que não lhe nego. Porque de resto acredito que nenhum nobre cão de fila nasceu para ser metido num saco de gatos.


De D. Afonso a 6 de Maio de 2008 às 23:00
Pena não ter continuado google fora. Teria descoberto que afinal este paías nasceu porque um filho bateu na mãe. Nada de estranho, portanto. Não é?


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:15
É o que eu digo: perfeitamente normal. Direi mesmo mais: ferpeitamente.


De PypaMary a 6 de Maio de 2008 às 23:06
Só relativo à etiqueta, porque o resto nem comento,(posso "regurgitar"), a pistola do lulu é para o ministro, né ? cortas-me os tintins, levas um tiro, claro !!


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:18
yep, nem mais.


De Samuel a 7 de Maio de 2008 às 00:41
Boa pesquisa. Eu sou já um caso perdido. On line ainda "gasto" os olhos nisto ou naquilo. Quanto às edições em papel já me tinha habituado à ideia de que uma das poucas coisas boas que poderia encontrar dentro, seriam castanhas assadas. Agora com a ASAE... danou-se!

Abraço


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:16
sam,
ser um caso perdido é das poucas opções que a vida nos dá, de facto.


De O_voo_do_lobo a 7 de Maio de 2008 às 01:02
Nestas situações, costumo pensar que há muitos mais vermes soltos do que os empalados num anzol...

Gostei do seu blog.
Até breve.


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:17
Ó quei. Sí iú.


De Afrika a 7 de Maio de 2008 às 20:48
Hummm, normal! Pois, neste momento estou assim também sem saber se se poder considerar "normal" o que é normal! Nada é normal, podemos ser comuns mas nunca normais. Se bem que existe um conceito sobre o que é normal, este não pode ser aplicado na actualidade. O ser humano não é normal. Não é normal, quando o namorado (gótico) passeia a namorada (gótica) pelas ruas de Londres com uma trela ao pescoço. Não é normal a quando das historias que retratas, não és normal a quando se classifica a obra de Francisco de Goya "Saturno devorando um dos seus filhos" como algo belo!... enfim, tudo nesta vida é normal. Como alguém me disse uma vez (a minha mãe) "com o passar do tempo, tudo passara a ser normal!"


De Rui Vasco Neto a 8 de Maio de 2008 às 00:17
Sábias palavras, as da senhora sua mãe. É tudo uma questão de tempo.


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas