Domingo, 25 de Maio de 2008
Peggy Sue casou-se, ontem à noite. Eu fui.
Domingo, 25 Mai, 2008

Peggy Sue casou-se, ontem à noite. Lembram-se do filme? Katheleen Turner era Peggy, Nicolas Cage o seu par, o impagável Charlie. E depois havia os outros, os eles e as elas coleguinhas de liceu e amigos de sempre, visitados pelo enredo da história em dois tempos, dois estádios das suas vidas com um hiato de trinta anos a separar um, o tempo do liceu, a juventude dos sonhos e de todas as expectativas, do outro, o tempo presente, a realidade de cada um dos personagens depois de crescidos, casados, com filhos, empregos, responsabilidades. Vidas passadas em vez de vidas em aberto. Pois Peggy Sue casou-se, ontem à noite. Quase trinta anos passados sobre o dia da minha última aula no Liceu Camões, alguns dos que comigo estavam nessa sala, nesse tempo e nesse dia, referências únicas de uma idade que fui, juntaram-se ontem para um jantar comemorativo do assinalável facto de estarmos todos vivos, um hábito ritualizado por este grupo nos últimos treze anos. Exactamente, treze anos, vinte e oito jantares : hardly a joke! Ontem fui convidado e aceitei. Assim, Peggy Sue casou-se, ontem à noite. E eu lá dei por mim, a assistir a tudo e a ser quem fui (por vários e doces instantes) sem deixar de ser quem sou por um instante que fosse, god forbid. Está bem feito, isto.

 

A noite aconteceu como se tudo se passasse no aconchego de um filme de nós, na segurança do registo em película, esse protector temporal, e com uma banda sonora de época, perfeita, síncrona, característica. Um por um os meus personagens traziam memórias, episódios, importantes pedaços da minha vida, presos por laços de incontáveis histórias minhas em comum com cada um dos que ali estavam, a enfeitar a lapela das suas jaquetas de época, todos iguais, todos diferentes, a farda que nunca tivemos.

 

É certo que uns foram mais significativos que outros, ao tempo, na vida do rapaz que eu era, como é natural. Tiveram mais peso na minha própria formação, teremos sido mais amigos, talvez. A adolescência é feita disso mesmo, amigos para sempre sim, mas à vez. E nos entretantos aquela pureza, irrecuperável, da entrega total e incondicional do nosso 'eu' juvenil àquele que nos ouvia e entendia, sonhos incluídos, claro, que essa era a primeira partilha obrigatória, sem a qual nada nos nossos dias faria sentido. Hoje, olhando um por um os rostos que faziam o meu sorriso há trinta anos atrás, procuro neles para além da patine dos anos, para lá da tensão do momento, leio-lhes nos olhos como eles nos meus, adivinhamo-nos uns aos outros no mais imperceptível da linguagem corporal, nas inflexões pontuais, nas interrogações mudas que já trazem resposta dada e nos sorrisos que dizem tudo o que há para dizer. No saber de nós, o essencial de cada um, uns sobre os outros, um conhecimento que trazemos aprendido desde que aprender era tudo o que fazíamos na vida. E bem. 

 

Durou umas horitas, aquele jantar. Está a durar um pouco mais, esta minha viagem ao passado na boleia vertiginosa deste escorrega da memória. Ando perdido por mil nove e carqueja, persigo a juventude como um louco, vivo em Lisboa, a vida está cara, fumo às escondidas e namoro o que posso. Ou seja: se não fossem os cabelos brancos, os meus e os deles, as costas que me doem, o disparate de vida que esbanjei e mais uns dois ou dez pormenores, eu cá dizia que praticamente não mudou nada nestes trinta anos. Quase nada, mesmo. Nadinha, nadinha.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Samuel a 25 de Maio de 2008 às 02:23
Já embarquei duas ou três vezes nesse navio e tirando um ou outro pequeno pormenor de tempo ou de modo, não alteraria nada à história.
É uma saudade saudável, (quase) sem culpas ou remorsos...
E tu?


De Rui Vasco Neto a 25 de Maio de 2008 às 02:27
Eu, sam?
Eu por um qualquer decreto divino que desconheço não sou assim tão linear e resolvido em nada, assim que me lembre. Já me disseram que era castigo e eu próprio já pensei o mesmo. Falta só descobrir é porquê ou de quê, mas prontes: nã se pode ter tudo.


De Teresa a 25 de Maio de 2008 às 05:29
For we possess nothing certainly except the past.

Palavras de Eevelyn Waugh, em Brideshead Revisited


De Rui Vasco Neto a 26 de Maio de 2008 às 16:30
Porra!
Palavras do Ti Manel da Burra, ao ler as tuas palavras.


De Teresa a 26 de Maio de 2008 às 22:35
Aqui a burra do Ti Manel devo ser mesmo eu, que não te percebi... :)


De Anónimo a 25 de Maio de 2008 às 13:04
Nesse tempo havia mil primaveras, mil tempos de crescer...


De Rui Vasco Neto a 26 de Maio de 2008 às 16:17
préjuvenónino,
ouch!!
essa doeu...


De Anónimo a 27 de Maio de 2008 às 20:30
Não era para magoar.
Acredito é que importa deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Não podemos voltar atrás e fazer as coisa voltarem a ser como eram!


De Pirate a 25 de Maio de 2008 às 23:08
Long ago it must be, I have a photograph...
Aquelas memórias que não se esqueçem e que de quando em vez surgem em flash back e nos põem um sorriso nos lábios... :-)

Carpe Diem, my friend...

Pirate


De Rui Vasco Neto a 26 de Maio de 2008 às 16:26
pirata,
e por falar em memórias: lembras-te do dia em que uma certa artista foi cantar uns fados num fogo de campo, acompanhada por dois ilustres guitarristas, cada um com a sua viola? e o instrumental com o solo à vez, ora um ora outro?
e ferreira do zêzere, diz-te alguma coisa? aquelas adegas das pipas de água-pé, aquele circuito obrigatório de correr as capelinhas, prova aqui e prova ali?
e o amênoin? a costa e o parque, a praia? e .... mais ...... e mais .......... e mais.......
grande abraço, velho pirata!
um abraço de irmão.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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