Sábado, 31 de Maio de 2008
Um palhaço de Deus
Sábado, 31 Mai, 2008

O meu amigo Daniel de Sá está enfatuado. Sim, é factual, está enfatuado. Estou evidentemente a adjectivar a partir do termo 'enfatuated', que eu sempre achei uma graça exactamente pelo aparente paradoxo semântico que carrega. Mas não estou a fazê-lo à toa, tenho cá as minhas razões para o que digo. Ora vejam. «Meu caro, se o texto abaixo te parecer que merece publicação, cedo-to com muito gosto. Aliás, escrevi-o especialmente para o nosso Sete Vidas.Vai também uma foto da moça, vestida de palhaço, ela de certeza não se oporá. Isto é surpresa que eu quero fazer-lhe.» Junta-lhe «Um abraço» e manda com o texto que se segue e que eu li, como os senhores vão ler. E vão perceber, como eu percebi, que ele não está apaixonado, babado, alvoraçado, encorajado, nada de nado: ele está é enfatuado, isso sim. E eu, fã incondicional das almas gentis neste mundo ogre e egoísta, não só percebo como dou a minha benção. E passo a publicar.

 
Em baixo: "Um palhaço de Deus"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

A Cristina é uma amiga brasileira que diz que me ama. Mas calma aí, os brasileiros usam com muito menos restrições do que nós este verbo, pois a nossa tradição secular de marialvismo faz-nos pensar no amor como sendo sempre de perdição, Camilo e Ana Plácido, Simão e Teresa. Ela ama também as personagens dos meus romances, e sofre com elas. E briga comigo se não salvo um condenado de Auschwitz ou se não caso um pastor com a sua pastora. E ama os leprosos, os drogados, os sem abrigo, para que sofram um pouco menos. É capaz de se vestir e pintar de palhaço para os fazer sorrir. Entre os leprosos, há quem tenha sido levado aos vinte anos, à força, porque uma mancha suspeita lhe apareceu no corpo. Há quem tenha estado escondido no mato, para não ser caçado como um cão vadio. Há quem tenha ido para esse desterro definitivo por uma alteração da pele que nada tinha que ver com a doença maldita. Há quem se tenha casado na leprosaria e tido filhos que nunca mais pôde tocar, só de vez em quando os vendo de longe. E mesmo assim conseguem ser felizes...

 

Um dos leprosos que a Cristina ama muito é “cadeirante”, palavra suave para dizer que está amarrado a uma cadeira de rodas. Chama-se João e é doente mental. Pelo Natal, desejou um rádio, e a Cristina ofereceu-lhe um. Mas o que ele mais queria era ver as luzes, principalmente as da Avenida Beira Mar. Ela quis levá-lo no seu carro a passear pela cidade, mas não lhe deram autorização para isso. Então resolveu levar as luzes até ele. A Cristina contou-me isto assim: “Levei um monte de pisca- pisca, decorei um quarto e o levei para ver as luzes e ao abrir a porta ele falou: É uma reunião de vagalumes.”

Quando a Cristina está triste, porque não consegue ser palhaço de si mesma, vai até à Avenida Beira Mar e pensa que aquilo bastaria para fazer o João feliz.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Anónimo a 31 de Maio de 2008 às 21:57
Palhaço: choro por dentro e riso por fora. Bem aventurados todos " Os Palhaços de Deus"!
Bem haja, Daniel de Sá, pela maravilhosa partilha!
Abraço-os aos dois, Daniel e Rui, com muito carinho.


De maesdoc a 31 de Maio de 2008 às 23:57
Passei pela primeira vez por este sete vidas. E logo me deparei com a história de uma vida que se preenche, simplesmente, dando alegria á vida dos que precisam perceber que podem caminhar e ver e sentir com as pernas , os olhos e o coração de quem nos ama. Como se fossemos todos iguais, como se todos fossemos donos do mesmo sorriso. A Cristina desta fabulosa história ,nunca pode estar triste, nunca deve estar triste. Porque se algum dia isso acontecer , ela fique com a certeza que do lado de cá deste imenso oceano, existe alguém que passou também a amá-la.
Manuel Estrada


De Cristina a 1 de Junho de 2008 às 19:20
Querido Manuel

Como posso agradecer estas palavras tão carinhosas e tão doces ?
Daniel além de me presentear com sua existência, sua literatura ,a companhia de suas personagens, ainda me oferta a graça de conhecer pessoas tão maravilhosamente doces e ternas como você.
Não existe distância para o amor, este é uma energia tão forte e tão límpida que é capaz de iluminar nossas vidas seja qual for o tempo e espaço o qual estamos inseridos.
Se podem compreender meu trabalho, pronto , minha luta valeu a pena. Há maioria das pessoas não enxergam com estes olhos, na verdade há aprovação social é mínima por aqui.
Logo que a dor da saudade estiver acomodada aqui dentro quero que saibam que sou uma pessoa alegre e divertida, que ama a vida e seus mistérios, e que ter amigos verdadeiros é uma meta nesta existência.
Doce Manuel, receba minha amizade, e gratidão por tuas palavras ternas. Um beijo no coração.


De Rui Vasco Neto a 2 de Junho de 2008 às 01:56
manuel,
bonitas palavras, exalam cheirinho a genuíno.
é portanto a primeira vez por aqui, manuel?
quero acreditar que se trata da primeira de muitas, vai uma aposta?


De Lia a 31 de Maio de 2008 às 23:59
Para começar, a Cristina é linda, com rosto sereno, olhar expressivo e atentamente doce.Lembrou-me a Patrícia Pilar, penso que é assim que se chama a artista brasileira. Depois, a Cristina é daquelas almas de Madre Teresa, quando a gente pensa que todos os anjos estão nas alturas, indiferentes ao nosso sofrimento. Gostava de conhecer a Cristina e pedir-lhe que se multiplicasse em millhares de cristinas" "pisca-pisca", porque o mundo teria o encanto da mão suprema do Deus Criador.Assim se justifica a nossa existência , Linda Cristina, "Palhaço de Deus", Deus vivo no resplendor da Sua juventude.
Bem-haja, Cristina, por O teres revelado neste testemunho de vida tão profundo.


De Joaquim a 1 de Junho de 2008 às 01:16
“Conheci” a Cristina pela forma como se emocionou com as personagens do Daniel. Verifiquei depois que essa emoção era apenas um pequena parte daquilo que é capaz de sentir, da capacidade de o aplicar aos que dela necessitam para serem mais felizes. Não merecia o golpe agora sofrido mas tenho a certeza que a sua cara bela e chorosa recuperará o sorriso. E a felicidade que merece.
JBacalhau


De Daniel de Sá a 1 de Junho de 2008 às 01:24
O Quim, outro que faz parte do grupo. O seu comentário entrou enquanto eu escrevia o anterior. E, já que ele o referiu, a Cristina perdeu a Mãe há pouco mais de uma semana. Tinha-lhe arranjado uma casinha que ela mesma pintou com as suas mãos. Ela esteve de passagem nos Açores, fez serão aqui nesta sala, que o Manel e o Quim conhecem muito bem, de longas cavaqueiras e renhidos jogos de sueca, voltou feliz para Santa Catarina, e deu com a Mãe em estado de coma por um daqueles acidentes vasculares que acontecem por vezes até depois de uma operação simples, como foi o caso e que não era de risco, que a Mãe fez a um joelho.


De Cristina a 1 de Junho de 2008 às 19:35
Querido

Acredito mesmo que me conheças, assim como construí Daniel através de sua literatura. Quando comecei a ler nosso Daniel a vida renovou dentro de mim encontrava alguém que sentia a vida como eu a sinto, e isso significava muito, porque eu não me encontrava tão só neste mundo imenso, o que eu não pressenti é que Deus me permitiria gozar de sua amizade e muito menos que seus amigos tão queridos algum dia pronunciariam meu nome. Diante de tudo isso, viver já valeu a pena. Saber que entendem o que faço é quase um milagre, não é assim que ocorre por aqui no meu dia a dia. Afinal , não é um trabalho remunerado, e quando o é, ganha-se pouco, e por ganhar pouco não é valorizado, afinal estamos inseridos numa sociedade capitalista. Apesar de eu estar num momento muito particular de minha vida ,hoje posso dizer que sinto-me feliz por ter sido compreendida .
Um grande beijo no seu coração, e receba minha amizade.


De Daniel de Sá a 1 de Junho de 2008 às 01:17
Rui, enfatuado? Talvez maravilhado. Há pessoas cuja perda como leitores meus eu não trocaria pelo Grande Prémio da APE. Falo rigorosamente a sério. A Cristina faz parte desse grupo. Como o Manuel Estrada e a Lia.
Do anónimo, nada sei, mas o seu comentário demonstra uma alma digna de emparceirar com estas três que acabo de citar. De certeza que a Cristina ficou, ou vai ficar, com os olhos, que são lindos, mais humedecidos ao ler os vossos comentários. E vai contá-lo, sem dúvida, aos "seus" leprosos, que ela toca e beija como se fossem sãos. Felizmente não houve apenas uma Madre Teresa.


De Daniel de Sá a 1 de Junho de 2008 às 01:26
Desculpem, não pensei que a ordem dos comentários iria aparecer trocada, por eu ter respondido no do Quim.


De Lia a 1 de Junho de 2008 às 10:20
Cristina,

Acabo de ler no comentário do Daniel que perdeu a mãe.O que dizer ao rio que perdeu o mar?
Só lhe posso deixar este testemunho. Perdi a minha há três anos e mergulhei no poço. Mas a dor adoçou-me mais a alma e eu quis ser o prolongamento da minha mãe na compreensão e no amor pelos outros, seguindo o testemunho de vida que ela me deixou. Eu chamo-a e sei que ela não foi a lado nehum , porque está ao meu lado, na eternidade do afecto e na bondade dos gestos que vou semeando. A sua só pode estar vivíssima e a sorrir, pela beleza da filha que tem .E elas estão em todo o lado para nos abençoar e beijar.
Um enorme abraço para si, luminoso "Palhaço de DEUS


De Cris a 1 de Junho de 2008 às 19:08
Querida
Agradeço de coração suas doces palavras. É exatamente assim que estou, como um rio que corre sem misturar-se , parcerias, sem dono, sem afluentes. Temos que continuar, embora com os passos um pouco mais lentos. Sei que logo a dor vai se acomodar, e as forças se restituirão.
Abençoadas sejam estas palavras, saber que não estou só neste mundo imenso onde tantas vezes e em tantos momentos somos órfãos da alegria.
Daniel e seus amigos tem sido para mim uma providência divina, agradeço muito a Deus que existam pessoas assim como vocês, devolvem-me a crença na humanidade. Relaciono-me com seres humanos que diante dos olhos sociais perderam sua humanidade, e eu os amo e os defendo, vou insistir em lhes recontar para mantê-los vivos, mesmo quando partirem.
Minha querida, um terno beijo em seu coração e receba minha amizade.


De Lia a 1 de Junho de 2008 às 22:18
Cristina,

Será que de algum modo posso proprcionar ajuda às pessos com quem trabalha ou mesmo si? Se tal for o caso, peça o meu émail ao Daniel, porque tentarei dar um mãozinha a quem me permitir ser mais cristã e mais fraterna. Beijinho par si, minha já querida amiga.


De Cristina a 1 de Junho de 2008 às 22:26
Querida amiga

Penso que já começou a ajudar , quando dispensas palavras de ânimo, dando-me forças a continuar , pode haver ajuda maior ?
Deus te abençoe por dispensar teu tempo e amizade comigo, e posso te afirmar que preciso muito de amigos anjos como vc. Deus sabe o quanto me ajudastes com estas palavras
Vou pedir sim o seu email, e desejo tb poder acrescentar algo a vc, por hora te ofereço meu coração e minha amizade.
Um grande beijo.


De Saci a 2 de Junho de 2008 às 01:51
Não sei o que é melhor: se a doçura do texto ou o encantamento dos comentários.

Bela leitura antes de ir dormir.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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