Quarta-feira, 4 de Junho de 2008
Contas à vida
Quarta-feira, 04 Jun, 2008

Um, dois, três, quatro, cinco, zero. Estou na rua, estou em casa, estou no espaço, estou sem ele, estou na terra e estou aqui, estou ali, estou no mar. Estou de dia, estou de noite, estou à hora do meio-dia, até, que agora nem por isso é o 'meio' que era dantes, já nem isso está na mesma... tudo mudou menos eu, que insisto no absurdo de estar, estando assim. Mas que vou estando, enfim, e sempre que estou (ou desde que esteja, vai dar no mesmo) tenho-te comigo, instalado no pensamento, gravado a sangue (esquece o suor, pensa nas lágrimas). Sempre, a todas as horas, pois que cada segundo é um pretexto, um 'a propósito' que, junto aos outros mil, soma este despropósito em que vivo, de assim estar por tu não estares. Repara que é injusto tu não estares se eu estou, (uma vez ou outra, que seja). E algo perverso, também. Ou não vês? Pois se quando eu estou tu estás, por que diabo não poderás tu estar onde eu também esteja, comigo lá eu onde estiver? É que é tudo o que nos falta, aos dois e a cada um, neste momento e há tempo demais: deixar que o 'estou' passe a 'estamos' para estarmos juntos e um com o outro (coisas distintas, porém compatíveis). E é isto tudo e o que eu mais peço à vida, todos os dias, o meu desejo mais repetido, para dentro e para fora, desde a prece muda até ao murmúrio acanhado, daí para a voz alta, e a seguir mais alta um pouco, ou mesmo dois poucos, três poucos e um berro, dois, três, gritos aflitos da angústia de não te saber. Moral da história? A puta é surda que nem uma porta, fechada para mim por ti há tempo demais. Abre, por favor. Sou eu, lembras-te? Sou eu.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Raposinha a 4 de Junho de 2008 às 23:53
Não é sorte escrever ideias tão certas por palavras tão bonitas. Não é sorte. É arte, talento. Um dom.

Sorte tem o destinatário de um texto assim.

Muito bom.


De Rui Vasco Neto a 5 de Junho de 2008 às 02:18
raposa,
agradeço-lhe as palavras, ainda bem que não disse: 'estão verdes', como a sua colega.


De Saci a 5 de Junho de 2008 às 22:39
Não, não disse "estão verdes".

Quando muito diria: este texto está tão maravilhoso que eu, se tivesse capacidade para o escrever, assiná-lo-ia com muito orgulho.


De Alfredo Gago da Câmara a 5 de Junho de 2008 às 00:43
Ai, ai. Será que vida te está a pedir contas!!!??? Ou estás voluntáriamente a prestar contas à vida? Se é isso, não percas tempo com contas complicadas. Tira os zeros por igual número às duas parcelas. Fica mais simples. Afinal, eles não contam para a prova dos nove. Desculpa, detesto contas.
Abraço


De Rui Vasco Neto a 5 de Junho de 2008 às 02:20
alfredinho,
eu sei, e tu sabes que eu sei que tu sabes que eu sei, sabias?
sabes, estas coisas sabem-se sempre.


De Anónimo a 5 de Junho de 2008 às 01:19
« Saboreei por muito tempo a minha vida perdida; pensei com alegria que a minha juventude tinha passado, porque é uma alegria sentir o frio invadir-nos o coração, e poder dizer, tateando-o com uma mão, como uma lareira que ainda fumega: já não queima. Lentamente fui recordando todas as coisas da minha vida, ideias, paixões, dias de cólera, dias de luto, latejos de esperança, tormentos de angústia. Revi tudo, como um homem que visita as catacumbas e contempla lentamente, dos dois lados, os mortos alinhados uns a seguir aos outros.

Todavia, se contar os anos, não foi há muito tempo que nasci, mas tenho inúmeras recordações que me oprimem, como os velhos são oprimidos por todos os dias que viveram; às vezes, parece-me que já vivo há séculos, e que o meu ser contém os restos de mil existências passadas. Por quê? Amei? Odiei? Procurei alguma coisa? Ainda duvido; vivi à margem de todo o movimento, de toda a acção, sem me mexer, nem pela glória, nem pelo prazer, nem pela ciência, nem pelo dinheiro.
Ninguém, nem aqueles que me viam todos os dias, nem os outros, soube alguma coisa do que vai seguir-se…»

Novembro, de Gustave Flaubert


De Rui Vasco Neto a 5 de Junho de 2008 às 02:23
flaubertónimo,
mil obrigados pela partilha, há gestos preciosos. Todavia, tenho para mim que este Gustavo me tirou as palavras da boca, por assim dizer...
Mande mais, quando tiver.


De redond(ilha)mente falando a 5 de Junho de 2008 às 17:59
Quis fazer contas à vida
e fechei para balanço;
fiquei a meio, perdida:
nem recuo, nem avanço.

Das horas que a vida tem
Foi essa a mais mal empregue:
A vida não se detém,
a vida segue-que-segue...

Então, não mais contas fiz
e aprendi a lição:
a vida pr`a ser feliz
não precisa de razão.


De Rui Vasco Neto a 5 de Junho de 2008 às 22:39
buc


De Anónimo a 6 de Junho de 2008 às 06:57
Muito bonito. Mas o presente é hoje, aqui e agora. Acredito é que importa deixar no passado os momentos da vida que já se acabaram. Não podes voltar atrás e fazer as coisa voltarem a ser como eram!


De Anónimo a 12 de Junho de 2008 às 22:12
Porque é que todos os homens interessantes são... casados? não, digo, apaixonados por outra?!...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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