Sábado, 7 de Junho de 2008
De praga, doença, obsessão, a caso de polícia.
Sábado, 07 Jun, 2008

Pesam-me os dedos para bater nesta tecla, tenho que dizer. Venho a pegar de empurrão, a querer fugir da raia, gato escaldado que estou, medroso e cioso das vidas que me restam, se é que me resta alguma. Venho a fingir que não mas a dizer que sim, a olhar para o lado mas a evitar pisar, contornando. Só que isto é merda que salta, não poia quieta e sossegada no seu canto. Faz questão de se bostar no meio do passeio para se colar em pedacinhos ao chinelo (de preferência) de quem passa e, na passada, a leva consigo já para casa. Daí até se habituar a ela é uma questão de tempo, já reza o dito que primeiro estranha-se mas que depois é o que se sabe, entranha-se, quantas vezes em afinidades, almas gémeas, chinelo igual, raiva comum. É isto que é uma praga. E eu tenho uma, alapada na minha vida há treze, catorze, quinze anos, mais um menos um, who's counting? Então e como é ter uma praga na vida? Numa palavra, insuportável. Não se deseja ao pior inimigo.

 

A minha praga já é uma rotina tão sabida, um frete já tão da casa, que a regularidade trouxe como que uma anestesia local em que a gente está a ver tudo, sabe o quanto nos dói e o mal que nos está a fazer mas escolhemos sentir menos, por mero mecanismo de defesa do organismo. Ou por pura cobardia, seja. E assim se vai vivendo, sobre. Não deixa de ser perverso, já que o ideal seria resolver, extirpar o tumor de vez, raspar as raízes e pôr um ponto final no assunto. Pois. Eu sei. Mas eu tenho uma praga na minha vida que é uma coisa assim... como dizer, diferente, talvez. Escrevi sobre isso recentemente, não me custa repetir, acho até que tem que ser. Não sendo o meu assunto preferido, a verdade é que chega uma altura em que não é mais possível fazer de conta que a casa ainda está de pé, enquanto olhamos para as ruínas que contam uma outra história bem diferente. Deve ser a isso que chamam o limite, creio eu. A parte curiosa é também eu ter um, pelos vistos.

 

Ter uma praga na vida é ter uma carga de trabalhos nas costas, uma canga que se carrega dobrado e sem hipótese de escolha. Praga não tem primavera, é nada mais que um longo inverno de tempestades, raios e trovões alternados com aguaceiros ligeiros, a suplicar abrigo e a pedir solzinho por favor. E depois lá vem tromba de água outra vez, quando a gente já está esquecida e de calção novo, a banhos noutra praia. É molhado que não seca por mais calor que apanhe. Ter uma praga na vida é uma porra, acreditem. 

O ódio é reconhecidamente uma praga, é certo, mas eu cá pergunto a mim próprio se o amor não poderá ser praga pior e mais corrosiva. Ser objecto da paixão assolapada de alguém é tragédia que nos deixa gregos. É nunca saber sequer que se deseja, é ter cá dentro um astro que bem podia ir flamejar outro, se faz favor, vá lá, irra, por obséquio, facilite e areje, pelo amor da santa! Mas nada feito. Foi uma atracção fatal assim que matou o gato ao Michael Douglas, quando Glenn Close acabou com o mito das sete vidas numa panela de água a ferver lá de casa. Não é a curiosidade que mata, é a paranóia. E ser o rosto fixado na imagem do acordar e deitar de alguém que não queremos em nós, mais a sua razão de viver para o resto dos dias, é mais e pior que telepatia de feira, é doença do foro psiquiátrico. Não é caso para brincadeiras.
Ser pragado é pior que ser praxado, na dureza e no tempo da provação. É explicar que não, não, desculpe, não, não dá. E ouvir que sim, sim, desculpe, sim, sim mas. É aparar golpe atrás de golpe sem estocar a espadeirada redentora do contra-ataque, insistindo na defesa por pruridos de nojo que nos vão levando à falência, moedinha por moedinha. E é carregar a cruz de Cristo numa via pouco sacra, onde nada é sagrado para a impiedade de quem nos nega descanso. Pura obsessão, teimosia, cegueira, despeito, loucura. Uma tristeza. Uma praga.

 

Terá um escasso par de meses que eu escrevi este texto, três, se tanto. E já na altura ele se me escapou porque estávamos em pleno ataque, mais um, outra vez debaixo do fogo cerrado de tanto azedume e malvadez que dir-se-ia verdadeiramente inesgotável esta fonte de ruindade alojada no lugar que deveria ser o de um coração de mulher. Em verdade vos digo que esta dor-de-corno, em particular, tem tudo para fazer história nos anais da dor-de-corno em geral, como um clássico de culto para todos os lunáticos da especialidade. O que, diga-se, poderia resultar deveras interessante do ponto de vista regional, social, psicológico, mesmo literário, se quiserem, não fora o facto de ser a minha própria história esta que está a ser escrita pela dor-de-corno de alguém evidentemente transtornado, para ser suave. Pois só esse pormenor já traz diferença que chegue à situação, da maneira que eu vejo as coisas; já estipula regras e limites para a indecência tolerável. Nada a fazer, por esse lado: antes o massacre sem resposta, do que descer ao nível rasteiro desta praga. Que se mantém activa, diga-se a propósito. Daí toda esta conversa.

 

Nos últimos dias, mais um novelo de intriga e má-língua rasteira se desenrolou e estendeu pelas vidas de uma, duas, três, cinco, dez pessoas, que sei eu! Quem pode garantir por quantas bocas passa um boato até finalmente se aquietar, nunca esquecido, num canto da memória colectiva ou individual? São assim as coisas, é assim a gente. A vida do 'gajo da televisão, sabem, aquele?', circulou mais uma vez em edição pirata, tão pirata que qualquer semelhança entre a verdade e a ficção só pode ser um mero descuido, não coincidência, da parte de quem mais uma vez se deu ao trabalho de inventar, desenhar, construir e colorir uma tragédia de brincadeirinha para achincalhar outra pessoa. Para cuspir e calcar, pela calada, iludindo toda a gente e ainda arregimentando para a causa um ou outro incauto que se ponha a jeito. É isto que é uma praga, um nojo de carácter. E eu tenho uma praga na minha vida, alguém tão desiquilibrado e ruim que os seus actos há muito revelaram não passar de um caso psiquiátrico, a requerer atenção médica urgente, que nunca mais chega. Mas que, por mais vergonha e embaraço que me possa trazer a mera constatação do facto, não deixa de ser mais um caso de polícia, tal como o de qualquer outro criminoso psicopata semelhante. Um caso de polícia exactamente igual àqueles em que um merdas qualquer persegue e agride sistematicamente alguém que não se pode defender. Um nojo de cobardia. Uma tristeza. Uma porra. Uma praga.

 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Samuel a 7 de Junho de 2008 às 12:14
Rui

Um grande, grande abraço!
Só neste post, pois lá atrás fiquei embasbacado...


De Piedade a 7 de Junho de 2008 às 17:08
Pois, pois e pois ... Se ao menos tivesses uma praga com classe, que não lavasse a roupa na pedra do ribeiro, juntamente com as outras lavadeiras !!!! São sortes ... Antigamente o folhetim caseiro e radiofónico que eu ouvia, em criança, era "a gata" ... Isto de andar aqui pela blogosfera dá-nos tantos conhecimentos ... Mainada, amigo, um beijão pra ti e arruma-o bem. Há beijocas que espantam as pragas, sabias ???? eheheh


De Saci a 7 de Junho de 2008 às 23:16
No seguimento do que disse a Piedade venho aqui só deixar beijocas.


(porque não se consegue escrever nada inteligente sobre a praga de se ter um praga na vida)

Beijocas


De Anónimo a 8 de Junho de 2008 às 00:54
Rui,

Abraço bem apertadinho e, vê lá, adivinha, adivinha quem eu te trouxe para uma boa conversa...


Construir em Vez de Combater

Creio que uma das atitudes fundamentais do homem humano deve ser a de reconhecer em si, numa falta de compreensão ou numa falta de acção, a origem das deficiências que nota no ambiente em que vive; só começamos, na verdade, a melhorar quando deixamos de nos queixar dos outros para nos queixarmos de nós, quando nos resolvemos a fornecer nós mesmos ao mundo o que nos parece faltar-lhe; numa palavra, quando passamos de uma atitude de pessimista censura a uma atitude de criação optimista, optimista não quanto ao estado presente, mas quanto aos resultados futuros. O mesmo terá já dado um grande passo para impedir os ataques, quando aceitar que só puderam existir porque a sua acção não foi o que deveria ter sido; quando se lembrar ainda de que toda a sua coragem se não deve empregar a combater, mas a construir.

Agostinho da Silva


De Rui Vasco Neto a 8 de Junho de 2008 às 01:05
Bom, nessa altura eu diria ao mestre, que várias vezes me zurziu esta prosápia de que sofro na sua varanda do Abarracamento de Peniche, que é isso mesmo que eu tento fazer no dia a dia. E se ele mesmo assim me sorrisse cáptico, perguntava-lhe como não gritar de vez em quando quando se vive com um dedo bicudo enfiado no cú. Suspeito - que digo eu, não suspeito, sei - que nessa altura se lhe transformaria o sorriso naquele rir sem dentes que me desconcertava sempre que eu acertava sem querer, depois de horas e mil tentativas a querer acertar sem conseguir. E assim me entendia, creio até hoje.


De sarrabal a 8 de Junho de 2008 às 03:45
Rui:
Não sei se me assiste o direito de chegar a alguma conclusão após ter lido o seu post. Provavelmente, acabarei por deduzir uma coisa ou outra, com o perigo de errar, é claro. Mas não foi a história, o relato a narrativa que me «agarrou» ao texto. Foi a sua frontalidade, Rui. Foi o confessar-se em público desassombradamente. A sua nudez de sentimentos perante nós, seus leitores, colocada assim, quase num desafio, quase num pedido de socorro a colocar-nos sob o fogo da sua mágoa, Tão sentida, tão perdida e tão lúcida ao mesmo tempo. O que senti ao ler o seu texto foi como se, perante uma encruzilhada, eu, sua fiel leitora, não soubesse, com muita pena minha, indicar-lhe o caminho certo, o caminho seguro, aquele que deve seguir.
Essa sua coragem, esse seu desabafo, essa partilha de problemas complicados que afectam a sua vida («praga»?), colocados à laia de um post no seu blog, partilhando-os livre e abertamente com aqueles que gostam de o ler (o meu caso), apenas o dignifica.
Só posso oferecer-lhe a minha admiração por si, um abraço amigo de quem não sabe como acudir-lhe e uma urgência e necessidade de enviar-lhe estas linhas (e já tantas são!).
Nada sei, sabendo alguma coisa (?). E nada me diz respeito. A não ser quando uma lágrima teimosa e cheia de ternura desliza sem pedir licença pela minha face. Aí, o caso muda de figura. Alguém angustiado, impotente, perseguido, fragilizado, transformado numa pessoa extremamente carente, a precisar de ternura, compreensão e amizade, chama por mim. Por isso aqui estou. Não por pena. É palavra que não existe no meu vocabulário. Pena, para mim, é sinónimo de solidariedade, de amizade, de amor. Neste caso, Rui, também de muito orgulho e respeito por si. (Dou-me a esta familiaridade porque julgo que já somos amigos aqui pela blogosfera. Será?)
Sol


De Anónimo a 8 de Junho de 2008 às 21:39
Nem tudo o que parece é!
Tenha cuidado! Há quem use o pseudónimo "Luisa" e Luíza Moniz" para atacar! Já o fez noutro blog!


De Robson a 26 de Novembro de 2010 às 18:12
Oi Rui, passo por isso a 7 anos, sei bem como é!, siga firme! Deus te ama e nos te tbm te amamos. se quiser um amigo real de verdade estarei aqui a sua disposição, junto poderemos conversar. abço.


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas