Sábado, 7 de Junho de 2008
Cidades sem coração
Sábado, 07 Jun, 2008

 

Foi há pouco tempo, um mês, se tanto, no coração de Lisboa. Avenida Almirante Reis, junto à Praça do Chile, três da tarde de um dia-feira qualquer, com gente a escorrer pelas ruas a passo corrido naquele ritmo todo próprio da capital. Passeios à cunha, apertados para o cruzamento de pessoas em direcção contrária, bancas de fruta de um lado, quiosques de jornais do outro com estendal de brindes no chão, mais o pedinte que estica o coto de perna num cartão e mil outros obstáculos nesta corrida do dia-a-dia. Neste passeio apinhado de gente que se cruza, um homem tem um ataque epliléptico e cai no chão, entregue a contorções, uns bons metros à minha frente. Caiu atravessado na diagonal, pelo que só passando literalmente por cima dele é que seria possível passar, para um lado ou para o outro. Pois foi exactamente o que fizeram uns e outros, os que vinham daqui para ali e os do vice para o versa, todos alçando a perna por sobre as pernas do infeliz que estrebuchava na mais completa solidão e perante a absoluta indiferença da quase totalidade das pessoas que ali estavam naquele momento. Terá seguramente passado um pouco mais do que o minuto e tal que o homem deste video tem de igual solidão depois de atropelado, jazendo no asfalto sem que ninguém, entre condutores e transeuntes, se tenha abeirado para ver se ao menos ainda estava vivo (de resto a razão que levou a polícia de Hartford a divulgar este video a pedir a colaboração da população para identificar os culpados do acidente). São sinais preocupantes de uma sociedade doente, dirão uns com a sua razão. Eu cá vou mais longe, rural convicto que me tornei: acho que é mais grave do que isso, é o colapso de toda a decência urbana, entre seres com vidas tão diferentes que às vezes é difícil considerá-los da mesma espécie, sequer, para mais forçados a co-existir uns em cima dos outros, sob intensa pressão e em condições que já potenciam a agressividade e a revolta. Daí para a apatia social que podemos ver neste video vai um passo apressado, um passo apenas, humano, mais um passo igual aos muitos que eu vi dar, alçando a perna sobre o corpo caído, naquele dia-feira qualquer do mês passado, no coração desta Lisboa sem coração.
 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Samuel a 7 de Junho de 2008 às 12:16
A chamada humanidade tornou-se um local muito estranho...
Vivam as excepções!


De Rui Vasco Neto a 8 de Junho de 2008 às 22:34
sam,
que já são poucas e vão sendo cada vez menos, a julgar pelas amostras diárias. Pff.


De Saci a 7 de Junho de 2008 às 22:52
Acidentes é que é, xôr Rui.
O portuga é perito em acidentes. Nesse caso pára, dá os orçamentos, dá a sua opinião "médica" e só sai dali quando o alcatrão estiver limpinho.
Acidentes é que é.....


De Rui Vasco Neto a 8 de Junho de 2008 às 22:35
saci,
talvez, talvez, é uuma maneira de ver as coisas...


De shark a 8 de Junho de 2008 às 00:13
Como é que se dá a volta a isto?


De Rui Vasco Neto a 8 de Junho de 2008 às 22:35
sharky,
pior: será que se pode ainda dar a volta a isto, essa é a pergunta.


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas