Domingo, 22 de Junho de 2008
Um nome acima de todos os nomes
Domingo, 22 Jun, 2008

Daniel de Sá brinda-nos hoje com «a introdução de um resumo histórico da Terceira, para um livro a editar pela Ver Açor, em co-autoria com o Joel Neto», segundo me diz em recado privado. Na prática e em primeira análise trata-se sim é de mais uma belíssima prosa deste autor açoriano, como de costume. O que só nos deixa água na boca para o que será o livro todo, se isto é a introdução.

 

 

Em baixo: "Um nome acima de todos os nomes"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Terá sido naquele lugar, onde quatro ribeiras desaguam, que os descobridores desembarcaram na ilha? Desse tempo, quase tudo é nebuloso. Só Gaspar Frutuoso deixou algumas coisas ditas, mas também ele já se vira obrigado a valer-se da tradição, nem sempre certa, ou da lenda, que pouco ajuda. E as primeiras dúvidas logo surgem quanto à razão de se dizerem dos Açores estas ilhas, ou de se chamar Terceira à que primeiro foi de Jesus, em homenagem à Ordem de Cristo ou por ter sido descoberta em dia de especial festa do Redentor.

 

A explicação mais imediata, já dita por Frutuoso e geralmente tida como certa, é a de que o nome se deve a ter sido a terceira das nove a ser descoberta. Mas esta razão não convence, porque não é fácil imaginar que, havendo ela recebido primeiro um nome acima de todos os nomes, décadas mais tarde ele fosse mudado para outro que honrava apenas a cronologia do descobrimento. De qualquer modo, parece claro, por uma carta do Infante D. Henrique, que se esta designação de Terceira lhe foi dada por ser a terceira do arquipélago, tê-lo-á sido por ser a terceira na ordem geográfica e não da descoberta. Nessa carta, em que D. Henrique concedia a capitania da ilha a uma das filhas do flamengo Jácome de Bruges, que viera cá a povoá-la, pode ler-se: “...a ilha de Jesus Cristo, terceira das ditas ilhas...” Quanto a Valentim Fernandes, na Descrição das Ilhas do Atlântico (1507), parece admitir as duas razões: “A ylha terceyra foi assi chamada porque foy achada depois das outras duas s. Sancta maria e sam miguel. E tambem contra hoeste jaz a terceyra em numero.”

 

É provável que o facto de a Ilha de Jesus Cristo ser a terceira na geografia tenha pesado na mudança do nome. Mas quase de certeza que tal não teria acontecido se estas ilhas não tivessem sido também chamadas Ilhas Terceiras. A explicação para este nome usado nos primeiros tempos traz pelo meio um claro erro de Gaspar Frutuoso. Diz ele que os Açores seriam chamados as Ilhas Terceiras em atenção ao facto de antes delas terem sido primeiro descobertas as Canárias e depois o arquipélago da Madeira. Nisto estará certo o cronista. Na alternativa é que está o erro, pois, excluindo na segunda hipótese as Canárias da lista, ele fala das ilhas de Cabo Verde como sendo “as primeiras de Portugal”. No entanto, quando os Açores foram descobertos nem sequer Gil Eanes passara ainda o Bojador (1434), e só em 1460 Diogo Gomes e António de Noli, no regresso de uma viagem à costa da Guiné, descobriram a primeira ilha do arquipélago de Cabo Verde, Santiago.

 

O próprio Frutuoso escreveu “A ilha Terceira, universal escala do mar do ponente, é celebrada por todo o mundo, onde reside o coração e governo de todas as ilhas dos Açores, na sua cidade de Angra...” Era portanto a esta “celebrada” ilha que sempre se dirigira a maior parte dos navegadores que viajavam no norte do Atlântico. E com certeza que, nos primeiros tempos, muitos se refeririam a estas como as Ilhas Terceiras. Ora acontecendo que, quase invariavelmente, o destino fosse aquela ilha Terceira, era natural que o nome lhe ficasse especialmente atribuído.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Cristina a 22 de Junho de 2008 às 22:38
Daniel de Sá é perfeito, incomparável , o talento como talha as palavras é único e para nós que somos presenteados com esta oportunidade de ler e decifrar sua alma que vem junto com tudo o que escreve é uma experiência indescritível.
Tudo e todos que são agraciados, ou eleitos como tema ou personagem, ganham com certeza um brilho que apenas Daniel seria capaz de lhes conceder.
O que mais poderia dizer aquele que há muito capturou minha alma?
Posso lhe enviar beijos no coração e dizer-lhe que o meu, fora roubado a muito tempo atrás.


De Samuel a 23 de Junho de 2008 às 01:30
A coisa promete!
Se o seguimento for assim... é para ler de uma assentada. Livro precioso para um continental que quer ir viver para lá...


De vovó Maria a 23 de Junho de 2008 às 05:59

Caro Daniel!

como terceirense que sou, fiquei encantada com o que escreve acerca da minha ilha! desconhecia tal possível pormenor, pois apenas sabia da versão de Gaspar Frutuoso.
que saia depressa o livro!
abreijos


De porqueviverepreciso a 24 de Junho de 2008 às 01:57
Não sei a que se deve o nome de "terceira". Sei que é linda, de uma ruralidade intensa a despertar os sentidos, de um verde-verde, já esquecido por quem habita cidades ditas capitais. Sei que conserva um misto de cheiro de África e da aldeia mais recôndita, sei que proporciona paz, sei que o mar ao redor não nos esmaga, sei que lá me sinto livre!


De Daniel de Sá a 24 de Junho de 2008 às 02:36
Cristina, és sempre uma exagerada quando falas de mim. Mas a gente aguenta muito melhor um exagero bom do que uma crítica dura mas verdadeira... Aquele par de beijos.
Samuel, se o que te interessa sobretudo são as pessoas, então nada melhor do que recomendar-te a Terceira, desde os avós aos netos, porque viver é preciso.
Três abraços.


De Lia a 24 de Junho de 2008 às 16:06
Mas o que é que a gente lê do Daniel que não seja uma laranja sumarentíssima, pesada e leve, daquelas que dão saúde, mesmo se mastigadas à noite?
Depois da leirura, fica-se com vontade de desembarcar nesta ilha da escrita, seja ela terceira ou primeira ou....
Cá para mim é primeira!


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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