Quarta-feira, 25 de Junho de 2008
Maia
Quarta-feira, 25 Jun, 2008

O meu amigo Daniel de Sá escreveu-me ontem. «Meu caro: se te parece que temos leitores suficientemente pacientes e curiosos para ler isto, aqui vai à tua disposição. Se se notar interesse, tenho mais, a completar um pouco o essencial que há para dizer sobre a Maia». Respondi-lhe logo, mais lesto que a volta do correio. «Caríssimo: não me parece que tenhamos tais leitores, mas vou dispor dele na mesma, posto que mo deixas. E quero que saibas que estarei atento a todas as saliências e relevos suspeitos de serem sinais de interesse. Aviso-te mal ponha o olho num.» Juntei um abraço e enviei sem reler. Quando li fiquei preocupado, um bocadinho. Não é por nada, mas espero sinceramente que ele me tenha percebido bem.

 

Em baixo: "Maia"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

 

 

O nome e o povoamento

 

 

Ao chegar a Santa Iria, vindo de oeste, avista-se de repente uma vasta paisagem onde sobressaem três formosas pontas. A do meio está muitas vezes soalheira enquanto as nuvens cobrem a ilha, e a linha de sombra marca o sopé das colinas onde há cerca de dez mil anos acabava a terra, antes de os vulcões lhe acrescentarem mais aquela fajã.

 

Foi talvez por haver notado essa particularidade que Gaspar Frutuoso escreveu “a Maia é um lugar bem assombrado”. Porque a sombra nota-se mais onde há mais luz. Com frequência a própria chuva não passa abaixo da ponte da ribeira da Gorreana nem da curva da Cruz do ramal da Lombinha, e o nevoeiro detém-se sempre a meia encosta dos pequenos picos a que Frutuoso chamou “serra da Maia”.

 

Vindos provavelmente por mar, os povoadores ficaram certamente convencidos de ter alcançado a sua terra prometida quando pela primeira vez viram esta paisagem de perto. Pouco depois fundeavam num ancoradoiro seguro e inesperado, porque a costa das ilhas raramente recebe assim os viajantes nuns braços de lava entre agrestes arribas. E sem dificuldade deram com abundantes águas, para os gastos domésticos e para mover os moinhos.

 

Foi Gaspar Frutuoso que nos legou o nome de quem chefiava o grupo de pioneiros: Inês Maia, segundo consta no original das “Saudades da Terra”. Terá sido com certeza uma senhora da burguesia, talvez viúva, nada mais se sabendo a seu respeito, nem sequer se já vivera algum tempo nesta ou em outra ilha. O seu nome, no entanto, parece indicar como origem – dela ou da sua família – as Terras da Maia, coração da nacionalidade e berço de heróis famosos, durante muito tempo fronteira entre cristãos e mouros. Esta povoação micaelense foi mesmo a primeira que, em Portugal, se chamou apenas Maia. A da ilha de Santa Maria surgiu um pouco mais tarde, devendo o seu nome a Catarina Fernandes – conhecida como “a Maia” por ser filha de João da Maia – que ali possuiu algumas terras. Quanto à cidade continental nortenha, o actual nome só lhe foi dado em 1902, quando o antigo lugar do Picoto, da freguesia de Barreiros, sucedeu ao Castelo da Maia como sede do respectivo concelho.

 

Estava-se provavelmente ainda no século XV, uma vez que em 1522 a Maia tinha já um desenvolvimento considerável. As primeiras casas terão sido construídas junto à grota da Lajinha, porque normalmente os senhores das terras cediam apenas um pequeno espaço para os trabalhadores agrícolas, sempre que possível de modo a que as traseiras das habitações dessem para uma grota ou uma ribeira, e assim não lhes fosse fácil aumentar o tamanho dos pequenos quintais. Muito perto, foi erguida a igreja, dedicada ao Espírito Santo, advocação que se mantém na actual, construída no mesmo lugar. A esse núcleo primitivo foram sucedendo outros, sempre paralelos, formando ruas na direcção de Norte a Sul, unidos por pequenas travessas. De modo que a tão peculiar malha urbana da Maia se terá devido mais à necessidade de poupar terrenos do que a uma intenção estética ou funcional. 

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Lia a 25 de Junho de 2008 às 20:44
Estou cheia de pressa porque tenho trabalho para entregar amanhã cedinho, por isso não vou poder ler hoje, mas...fiqueii chei de curiosidade.Eu volto...


De LIA a 25 de Junho de 2008 às 22:10
Não resisti e aqui estou com ternura nos olhos e no coração, com uma sequiosa vontade de abraçar a Maia. É espantoso como a linguagem é tão fiel à imagem, pictórica, macia e doce, tal como "a terra prometida". É sempre este pasmo e este encanto o que a alma sorve , quado atira os olhos, numa descarada sedução, às letras bordadas pelo Daniel.
Os parabéns de SEMPRE, Sr Oficial!


P.S. Há pessoas com dificuldade de "entrar" nos comentários.


De Samuel a 25 de Junho de 2008 às 23:03
Abençoadas ilhas que tais descrições inspiram...
A distância que vai entre o bairrismo bacoco e "isto", mede-se como? Em anos-luz?


De Anónimo a 25 de Junho de 2008 às 23:46
O mui nobre Daniel, feito Oficial recente, com mérito e razão, mesmo que enconchado na sua Maia (des)assombrada, anda por toda a parte onde correm letras, encantando e desfiando caldos de cultura, com leveza, sem nunca esconder elegância e elevação. Mesmo que falando em causa própria. Da sua Maia, que muito o enfeitiça!
Pois em verdade eu vos digo, aqui da minha ilha onde reina o branco, que não há toponímia de maia, aqui, mas onde as "maias", saltam para as ruas. Em cada 1º de Maio, é vê-las na nossa paisagem, espantando espirítos e lembrando que a natureza é quem mais ordena.


De Anónimo a 25 de Junho de 2008 às 23:47
Eu anónima me confesso,
ma-ria


De Daniel de Sá a 26 de Junho de 2008 às 00:57
E pensas que foste anónima por algum momento, minha princesa da Ilha Branca?


De Daniel de Sá a 26 de Junho de 2008 às 00:59
Meus Caros Amigos
Quando o modelo é bom, qualquer pintor, ainda que de palavras somente, é capaz de brilhar.
De qualquer modo, obrigado pela vossa generosidade.
Se aparecerem por cá, serão muito bem recebidos. O Rui pode servir-me de testemunha.


De anonimo a 26 de Junho de 2008 às 04:24
Bendita seja esta Maia , que inspira nosso escritor.
Bendita seja esta Maia, que fora recebeu em seu solo e acolheu nosso menino Daniel.
Bendito seja ,o olhar de Daniel que nos apresenta a Maia como a terra prometida.
Rui e Daniel, grande parceria.


De Daniel de Sá a 26 de Junho de 2008 às 22:37
Anónimo? Não será anónima? Ou nem isso, quer dizer, bem identificada? Há aí um "sotaque" que me é familiar, não será?
Um longo abraço.


De Julia a 26 de Junho de 2008 às 15:59
Mãos que bordam a língua, lapidam palavras, aprimoram história , guiam nossos olhares, apontam direcções , assim é a escrita de Daniel, e seu poder maior, é nos conduzir sem notarmos.
Grande escritor, talvez seja mesmo um dos maiores, lá se vai pelo caminho fazendo marco na história.
O que faz com as palavras é o que as rendeiras fazem com os bilros. Abençoado escritor , declaro-me aqui dependente de seus bordados.


De Daniel de Sá a 26 de Junho de 2008 às 22:39
Bordados são os teus sentimentos. Do melhor e mais fino que há.
Um par de beijos.


De carlos andrade a 26 de Junho de 2008 às 20:53
É um enorme prazer ler este senhor que aprendi a conhecer no AspirinaB, mas que não podia ter escolhido melhor poiso do que este blogue do jornalista Rui Vasco Neto (que eu também 'descobri' no AspirinaB, antes de ficar 'cliente' daqui).
Mas há uma outra razão para o meu contentamento: estes textos tão bonitos que eu prefiro muito mais que os brasileiros, e que estou muito feliz por ver que optou por eles agora. Eu sei que os escritores têm fases como os pintores e essa é uma das grandes riquezas dos artistas.
Muitos parabéns aos dois e venham mais cinco!!!
C.A.


De Daniel de Sá a 26 de Junho de 2008 às 22:41
Meu Caro Carlos
Isso dos textos brasileiros não passou de uma brincadeira para tentar divertir os amigos.
Obrigado pela apreciação tão laudatória. Tentarei o mais possível merecê-la no futuro.
Um abraço.


De Anónimo a 26 de Junho de 2008 às 23:57
o meu coração fica sempre pendurado nos escritos do Daniel...


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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