Sexta-feira, 27 de Junho de 2008
Maia (III)
Sexta-feira, 27 Jun, 2008

A aventura continua. Estamos na Maia, costa norte da ilha de S.Miguel, um lugar mágico, acreditem se quiserem, pagam o mesmo. Mas eu, que vos digo, sei do que falo. E melhor, muito melhor, sabe-o Daniel de Sá, que hoje se perde na história da Gorreana e do seu chá para encontrar a fugura incontornável e polémica de Jaime Hintze. «Além do que digo dele, Jaime Hintze foi governador do Distrito, comendador, de bom trato com os trabalhadores, embora tivesse algum orgulho na sua pessoa. Também fez experiências disparatadas, como tentar fazer "bacon" de porcos vivos. Tirava-lhes um bocado do dito, cosia outra vez a pele, e os desgraçados morriam invariavelmente de septicemia.», conta-me o autor em recado privado, tão privado que não o incluiu no texto, que é público. Eu não resisto a torná-lo público, tão público que o incluí no texto, que não é privado. Assim, todo esse parágrafo está lá por minha inteira responsabilidade e sem consultar o autor. Com sorte ele não se zanga, haverá de confiar no meu juízo, escasso numas coisas mas sábio no que à minha arte diz respeito. É que para nós, que já lemos pouco, pouca coisa boa e genuína será algum dia a mais.

 

Em baixo: "Maia  (III)"
Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

A Gorreana e o seu chá

 

 

Ranchos de raparigas, quase sempre vestidas como se estivessem a aliviar luto, subiam da Maia à Gorreana para a apanha do chá. Era uma revoada de vozes e do matraquear dos tamancos de madeira – as galochas – , à mistura com muitas passadas silenciosas, porque algumas nem sequer tinham com que pagar ao galocheiro. Havia famílias que só ultrapassavam o limiar da miséria com o ganho dessa meia dúzia de meses, pelo que é difícil imaginar como seria viver na Maia, até bem passado o segundo quartel do século XX, sem a fábrica da Gorreana e a do tabaco.

 

O lugar tomou este estranho e belo nome da ribeira que o atravessa, a qual recebeu o seu por ter morado perto dela, numa das primeiras décadas do povoamento da Maia, um homem chamado Manuel Gorreana.

 

Mas foi no século XIX que a Gorreana ganhou importância como um dos pontos mais notáveis da produção agrícola e industrial da Maia. O engenheiro Simplício Gago da Câmara, que pertencia à Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense, iniciou ali a industrialização do chá em 1889. Por ser solteiro, foi sua irmã Angelina (nascida na Matriz de Vila Franca em 1881) que herdou a propriedade agrícola e a incipiente fábrica. Em 1901, Angelina Gago da Câmara casou-se com Jaime Hintze, homem muito culto e de um notável dinamismo, que viria a modernizar todo o sistema de produção e fazer da Fábrica de Chá Gorreana a mais importante e famosa de S. Miguel, a única que até aos nossos dias nunca interrompeu a laboração.

 

Jaime Hintze que, entre outros cargos e distinções, foi Governador do Distrito de Ponta Delgada, tinha um espírito aventureiro e gostava de correr riscos, pelo que nem todas as suas experiências agrícolas e pecuárias terão sido totalmente bem sucedidas. Para além do desenvolvimento dado à cultura do chá, merece no entanto destaque a do bicho-da-seda, tendo chegado a produzir tecidos de óptima qualidade, conservando-se ainda na família uma peça com cerca de quarenta metros.

 

Além do que digo dele, Jaime Hintze foi governador do Distrito, comendador, de bom trato com os trabalhadores, embora tivesse algum orgulho na sua pessoa. Também fez experiências disparatadas, como tentar fazer "bacon" de porcos vivos. Tirava-lhes um bocado do dito, cosia outra vez a pele, e os desgraçados morriam invariavelmente de septicemia. Contaram-me dele uma história que a família não conhecia. Ele, de origem teutónica, passava creio que dois meses de férias todos os anos na Alemanha. Numa dessas suas ausências, o caseiro obrigou um pobre agricultor seu rendeiro a pagar as rendas atrasadas com o milho que cultivara. Levou-o para o "barraco" e pendurou-o. Quando o patrão chegou, contou-lhe a façanha, cheio de vaidade. Jaime Hintze então disse-lhe que se o homem não pagara era porque não podia. E obrigou-o a pegar no milho todo e ir pô-lo à porta do pobre agricultor.

 

Continuou a sua acção o filho, Fernando Hintze, que foi casado com a actual proprietária, Berta Hintze, que tem como colaboradores na gestão da fábrica a sua filha, Margarida, e o genro, Engenheiro Hermano Mota. Depois de ter atravessado tempos difíceis, que levaram ao encerramento de todas as outras unidades fabris do género em S. Miguel (o único lugar da Europa onde se produz chá, que é de excelente qualidade por não existir na ilha qualquer tipo de praga que requeira o recurso a insecticidas), a Fábrica de Chá Gorreana recuperou a sua vitalidade, graças à persistência e capacidade dos actuais gestores, ultrapassando actualmente as trinta toneladas de produção.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Julia a 28 de Junho de 2008 às 00:44
Olá Daniel...a viagem tem sido deliciosa, já estou a espera da quarta parte. Beijos


De Cristina a 28 de Junho de 2008 às 16:55
Daniel, posso pedir a Maia IV ?
Estava fazendo a viagem contigo...estou aguardando...
Beijos meu querido.


De Lia a 28 de Junho de 2008 às 22:54
A Maia das bandas de"cá" não tem esse encanto, nem essas raízes tão nobres. É apenas um dormitório, perto da cidade do Porto.
Entretanto, enquanto aguardo novo apeadeiro, fui-me deliciando de forma tão intensa com outras paisagens, que os olhos viraram "esponjas de lágrimas".


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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