Terça-feira, 1 de Julho de 2008
Saudinha e tufa, seja pelas almas.
Terça-feira, 01 Jul, 2008

Notícia do dia: 'o primeiro dia de Julho vai trazer mudanças no dia-a-dia dos portugueses', garante a SIC em manchete. Pfff. E nem todas são para melhor, também há más notícias, diz. Hum… Fui ler. Aparentemente confirma-se que temos boas notícias para alegrar o coração nacional, dorido do Euro: o IVA vai baixar, Yuppiii!! É verdade, um por cento, passa de 21 para 20. Enfim, ok, pronto, é certo que na prática quase não se vai notar a descida. E muitas empresas já avisaram que vão manter os preços como estão. Mas hipermercados, redes de telemóveis e os sectores de alimentação e bebidas dizem que vão baixar o imposto, e isso sempre há-de contar, não? Espera-se que sim.

 

Também o abono de família vai aumentar, 25% para o 1º e 2º escalões. Duplo Yuppiii!!, que aqui serão 900 mil pessoas a beneficiar do aumento. O gás baixa, dizem, 1,2%, mas não se sabe bem é onde, já que os valores não são iguais em todo o país. Vai ser assim tipo ‘à vontade do freguês’, só que o freguês é o mexilhão, se é que me faço entender. Enfim, o costume, em cavalo dado não se esperam implantes dentários. Mas há mais. Os prédios novos são a partir de agora obrigados a ter painéis solares ‘para melhorar o desempenho energético’, para grande alegria de todo o país, inclusive daqueles que vivem (e vão morrer) nos nossos bairros muito muito típicos, dentro de casas muito muito a cair. Mesmo. Ficámos todos muito felizes pelos painéis solares. E para acabar o parágrafo do nosso contentamento, o Estado põe um ponto final na cobrança de taxas de contadores para os serviços públicos essenciais, caso da água, electricidade e gás natural. Triplo Yuppii!!! e acabou-se, temos pena. Já está. Façam pois agora vexas o favor de se sentarem, que vamos então às más notícias. Tenham paciência, haja saudinha e tudo se resolve.

 

A primeira má notícia é sobre uma das boas notícias, aquela última: “acabam as taxas de contadores”. Pois é, de facto acabam, mas a má notícia é que “há muitas câmaras municipais que criaram novas taxas, de forma a compensar a perda de receita”, complementa a informação. Ou seja: tufa. Mas é um tufazito de nada, quando comparado com o aumento dos bilhetes dos transportes públicos, que vão ficar mais caros em 5,83%. Esse sim: é um senhor tufa, para quem depende dos transportes no seu dia-a-dia. À guisa de pomadinha para a nódoa negra, por decisão do Governo os passes sociais em Lisboa e  Porto vão continuar na mesma, até ao final do ano. Pronto, vá lá, pronto. Sempre alivia um nadita e a gente acaba por se esquecer. É como tudo na vida. É preciso é ter paciência, haja saudinha e tudo tem solução.

 

Dizem que Deus, quando fecha uma porta, abre sempre uma janela para nossa alternativa. E a nós, portugueses, vale-nos ser, para nosso descanso e conforto espiritual, um país de católicos, se não um país católico. Seja lá qual for o aperto circunstancial da nação, da nossa bolsa escorrem sempre as moedinhas para a caixa das aflições ao cuidado da Santa Igreja. Nela confiamos o nosso maior desamparo, para que nos guie na dúvida, tudo sem dúvida. Um verdadeiro luxo, neste tempo de fracos valores, cinismo e materialismo, onde já pouco é sagrado e tudo tem um preço marcado para troca; quem não paga não troca e ponto final. Daí o embaraço que sinto com esta que é a última das más notícias, segundo a SIC e a sua anunciada mudança nacional de 1 de Julho. Reza assim, passe o termo: O preço das missas também aumenta em muitas dioceses, uma subida de 33%. Cada missa passa a custar dez euros, mais 2,5 euros.  Um tintário, 30 missas seguidas, passa a custar 350 euros.” Tufa, indubitavelmente, com todas as letras. Um tufa e pêras, aliás.

 

Eu sei que a vida está pela hora da morte, e coiso e tal, e tal e coiso, e pronto, é a vida, e pronto e coiso. Eu sei essa parte toda, de trás para a frente, aprendo-a de cor todos os dias, em cada passo que dou por este meu país mais teso que corda de sino, sempre com uma tanga nova para fintar a conta e quem a traz. Também eu sei que ‘há mais que uma maneira de fazer pela vida’, já o dizia o poeta. Essa parte eu já conheço, gostava de perceber era outra coisa, e outra ainda, e mais um par delas, relacionadas. Coisas do amor e da solidariedade, velhos estribilhos de sabedoria, dúvidas de filho para Pai, com todo o respeito. No fundo é a tal lógica da pomada, só que aplicada numa outra dimensão. Beliscos de fé, coisitas de nada, meu tudo, apenas. Mas falta-me a quem pergunte e sobram-me medos vários, tantos quantas as respostas possíveis às questões que trago sem elas, aqui, dentro do peito. Se calhar há palavras que devem ficar por dizer, às vezes. Por isso talvez não seja boa ideia fazer muitas perguntas, talvez um outro dia, quem sabe. É preciso é ter saudinha, muita saudinha é que é preciso. Que o resto, olhem: assim com’assim, que seja pelas almas. Tufa, seja; pelas almas.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Anónimo a 1 de Julho de 2008 às 10:33
Amen!


De Freire de Andrade a 2 de Julho de 2008 às 00:23
Se o bloger do "A Pente Fino" lesse esta mensagem, comentaria:
O IVA não baixou 1 %; baixou 4,76 % [(21-20)/21] ou então 1 ponto percentual. Também não é correcto dizer, como ouvi hoje na TV, que os preços (dos bens a que se aplicava a taxa de 21 %, agora reduzida para 20 %) desceram 1 %. Desceram 0,8264 % [(121-120)/121], se não estou em erro.


De Rui Vasco Neto a 2 de Julho de 2008 às 00:26
f.a.,
e sabe o meu amigo o que diria eu ao blogger do 'a pente fino'? haja saudinha, pois claro.
e seja pelas almas.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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