Quarta-feira, 2 de Julho de 2008
Carta a um merdas qualquer
Quarta-feira, 02 Jul, 2008

Meu merdas, de que te queixas?

Porque vives a carpir,
dia a dia, hora a hora,
da sina, dizes tu, triste
que te calhou ter em sorte?
Ai, que é triste, ui, tão triste...
Será triste porque deixas,
não me queiras iludir
que o meu coração não chora
por menos que a própria morte.
 
Vê lá como as coisas são:
deu-te Deus força e talento,
fez-te assim, um tal portento
que os outros vêem, tu não,
meu merdas, que não tens tino!
Por que raio esperas tu?
Talvez que te saia do cu
o teu bem guardado destino...
Ou então que seja o mundo
a escrever as tuas deixas,
que lerás de trás para a frente
armado em original,
o um entre toda a gente...
Patético vagabundo,
não vais a bem nem a mal,
meu merdas, de que te queixas?
 
Perdoa se te magoo.
Não é por mal, bem o sabes,
mas não é porque te doo
que vou deixar que me enrabes
com essa tanga do triste.
Triste uma porra, qual triste!
Amigo: o amor existe,
só não vai buscar-te a casa,
puxar, arrastar-te a asa,
arrancar-te desse ninho
que fizeste nos teus medos
e onde te escondes, sozinho...
Anda, não tens mais segredos
para quem te lê na alma
como em qualquer livro aberto.
Aceita isto com calma:
para homem de mil enredos,
nem sequer és muito esperto.
 
Tens erros de avaliação
que não lembram ao diabo:
dizes sim quando era não,
assim quando era assado,
fazes trinta numa linha
e das linhas trinta e um.
Não tens critério nenhum
quando era suposto ter.
Eu cá insisto na minha:
não tens jeito para viver.
São tantas as portas que fechas
com voltas na fechadura,
meu merdas, de que te queixas?
Só pode ser da fartura.
 
Amigo: mais não chateio.
Este vai-se como veio,
sem pecado original.
Não quis dizer de ti mal,
penso de ti o melhor,
(enfim, o melhor que posso
atendendo às circunstâncias)
o que não é mau; afinal
(fica um segredo só nosso)
na escala das importâncias
convirás que não me deixas
grande margem de manobra:
pões primeiro o teu pior,
só depois lá mostras obra...
Meu merdas, de que te queixas?
Estuga o passo, faz-te à vida,
(tenta a conta e a medida,
há quem diga que resulta…)
caga quando alguém te insulta,
fica na tua e trabalha.
E não me fodas: tens sorte
não te ter escolhido a morte,
ainda. Que essa não falha.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De ângela a 2 de Julho de 2008 às 10:24
"Vê lá como as coisas são:
deu-te Deus força e talento,
fez-te assim, um tal portento
que os outros vêem"

Este és tu....


De Anónimo a 2 de Julho de 2008 às 13:06
É ele pelo menos até ao fim dessa "estrofe"


De ângela a 2 de Julho de 2008 às 13:53
Aí já não concordo inteiramente.
Mantenho o meu comentário. Sem aditamentos.
E dou a cara.


De Samuel a 2 de Julho de 2008 às 14:34
Grande Rui

Mesmo não obedecendo às normas das décimas, esta pérola dava um grande fado à mestre Marceneiro. É que estou mesmo a ouvi-lo...

Abraço


De Daniel de Sá a 2 de Julho de 2008 às 20:30
Rui, meu caro amigo
O pior não foi o pecado original, foi os que vieram depois.
Mas a cantiga tem ritmo e boa rima. Cantá-la-ás na Maia, meu fadista vadio? Ou será caso para pedir Piedade?


De Piedade a 3 de Julho de 2008 às 04:06
Pedir clemência, Professor, espero ! É que com tamanho mau cheiro não se consegue cantar !!! Misericórdia ...


De candida a 2 de Julho de 2008 às 23:36
olha, neste momento estou toda borradinha :)


De Anónimo a 3 de Julho de 2008 às 03:06
espectacular este texto de contornos psicanalíticos!
um "diálogo" sem personagens... entre o "eu pensado" e o "eu vivido". Um exame de consciência feito com uma dureza perfeita! ... Está de mestre:adore!



De Saci a 6 de Julho de 2008 às 00:21
Eu própria já escrevi sobre isso. Há pessoas que têm papel de excelente qualidade para escrever as suas histórias e teimam em escrever torto por linhas direitas.

Livre arbítrio... e resta a cada um viver com as suas opções.

( o resto é psicanálise barata)


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