Sábado, 5 de Julho de 2008
A chave do pensamento
Sábado, 05 Jul, 2008

São endemoninhados e perversos, alguns dos labirintos da mente. Há becos fatais, mal frequentados por pensamentos de índole duvidosa, ruelas traiçoeiras, de calçada tão reluzente quanto escorregadia de vício. Tudo intenso e corrido em milhões de microcapilares que se entrecruzam numa algaravia imensa de informação e vida, aconchegados no interior da cabeça, carola, toutiço, enfim, a parte do esqueleto que contém o encéfalo, ou esse cabeludo suporte de chapéus que os nossos corpos carregam para todo o lado com dedicação tocante.

 

Há lá por dentro avenidas de encanto, também, alamedas frondosas de conhecimento, repletas de saborosos frutos caídos pelo chão a convidar quem passa para o deleite da prova de inteligência. Nem todos apreciam o pitéu, diga-se em abono da verdade. Preferem as ruas do centro, o downtown encefálico, onde é garantida animação non-stop por força da novidade constante, o pensamento-reflexo, coisas de usar e deitar fora. É onde tudo se passa, das nove às cinco. E a seguir por turnos, parada resposta, sempre a bombar. É a loucura do dia-a-dia, como se diz no Alentejo.

 

Imaginar neste progígio de criação, neste centro de actividade intensa, um estádio de vasta aridez, onde o pouco ou nada que se passa só consegue medrar com dificuldade extrema e em condições limite, será talvez o equivalente a definir o conceito de 'deserto de ideias' sem ter que exemplificar apagando as luzes todas, só para dar uma ideia. Uma perspectiva aterradora, vista à luz (acesa) da nossa fragilidade enquanto seres humanos, apenas humanos. Pensem comigo. O nosso cérebro tem as fragilidades do corpo, enquanto corpo que também é, mais as mágoas que acumula do espírito, enquanto mente, que transcende a matéria que a suporta. E se as mazelas do corpo terão um ponto finito, necessariamente, no colapso das suas funções chamadas vitais, as mazelas da mente nem tanto, pois secos de vida, perdidos para lá do ponto de regresso, os labirintos da mente podem manter-se apenas com a chama-piloto do seu pedestal animado, vegetando numa letargia enganosa como vulcões inactivos, numa total dependência física, até para o fim. E até ao fim, claro.

 

Somos assim o que não sabemos, deste universo imenso e desconhecido que transportamos aos ombros sem os cuidados mínimos que reservamos para os cristais de família. Lá dentro gira um mundo, frágil, a processar informação. Tem uns portões enormes, abertos para todos os outros mundos e para a vida exterior, brilhantes da luz que os cruza permanentemente e a todas as horas. Excepto quando se fecham, por tempo ou de vez, para dar lugar à pior e mais escura das prisões, com celas feitas por medida, à nossa medida. Donos da chave que somos, convém mesmo não a perder.

 

Afinal, já não é pouco o que por lá se passa nas margens da consciência, para lá do nosso controlo. Isto para não falar dos tais labirintos perversos, becos fatais, ruelas traiçoeiras onde o perigo espreita a cada microsegundo, estes mais que as esquinas, onde os desafios e tentações se misturam, às tantas, no exacto limite da nossa capacidade de distinguir os uns dos outros. Convém por isso ter olho vivo e um chaveiro seguro, sempre em lugar acessível, perto do coração. E muito, mas mesmo muito tino a guardá-lo.



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Samuel a 5 de Julho de 2008 às 10:23
Grande texto!
Infelizmente, os espelhos e os olhos dos outros (pelo menos alguns) impelem-nos a cuidar mais do cabelo, dos abdominais, das mamas, dos bíceps... e ainda por cima achar que isso é o que faz bem ao cérebro.


De Cristina a 5 de Julho de 2008 às 17:25
Rui meu querido
O verdadeiro êxtase de estar vivo, é descobrir, ainda que tarde melhor que nunca, que nossa mente é um arquivo sem limites, potência pura, que nunca esgota as possibilidades de criação e de aprendizado. Essa é a nossa maior riqueza.
beijos


De Saci a 5 de Julho de 2008 às 22:54
Rui

Muito, muito bom. Já tinha saudades de ler um texto assim.


De Anónimo a 7 de Julho de 2008 às 16:56
ó Rui Vasco este post está um deleiteeeeeeeeeeeeee
mas diga-me, acha mesmo seguro por a chave do pensamento pertinho do coração? Isso não será o mesmo que ter uma porta aberta para o devaneio absoluto e espontaneo, saído directamente da alma?
Se bem que eu acho que : 'avalia-se melhor um homem pelo que 'devaneia' do que pelo que pensa.'
Aquele abraço



Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas