Segunda-feira, 7 de Julho de 2008
Quem matou Anne Frank?
Segunda-feira, 07 Jul, 2008

A mim, digo-vos, ele nunca me enganou. Nunca. Sempre soube que não era flor que se cheirasse, sempre o disse, de resto, ele e aquele ar de quem não parte um prato, aquelas palavrinhas de artista, aquele escrever assim ... cala-te boca. Cala-te, boca. E depois houve aquele episódio do gato, quando ele matou o Malino, lembram-se? Pobre bichano, vítima inocente da crueldade de um escritor... eu sabia (até disse ao Gastão, falámos disso ontem), eu sabia que era apenas uma questão de tempo, depois do finado felino, até que escorresse sangue humano da pena desse biltre sem coração. E pimba, foi hoje. «Esta é a sinopse do que poderia ser talvez um texto para teatro. Nunca o escrevi e decerto não chegarei a escrever. Por isso a revelo nestas Sete Vidas em que, às vezes, sou mais uma», vai-me dizendo em recado privado, todo mansinhas falas... Eu? zzzzzut., nada, nem um pio, sou gelo, sou o iceberg que afundou o Titanic, agora que lhe descobri a sanha assassina, o prazer do sangue, a vocação de predador. Mais caladinho que um rato, fiquei-me, na minha. Mas ei-lo que insiste, sibilando ao meu e-mail: «Esta história, ficção, é dedicada ao Samuel; Quem frequenta o seu blog perceberá porquê». Pronto. É quando eu vejo a história que é, fico sem pinga de sangue, estou de rastos com a descoberta, pasmado com o trinta-e-um! Então não é que o meu amigo Daniel de Sá, aquele mesmo a quem eu queria como a um irmão de letras, (um pai-proveta, até, quiçá), então não é que o meu pobre amigo descambou para o assassinato, tomou-lhe o gosto em finá-los, deu em gamar, pilhar, fanar a vida a um seu semelhante? Olhem: deu-me uma coisinha má, quase-quase, cruzes, credo! 

Por aqui já vêem os senhores como não terei eu ficado por dentro quando soube, fiquei fora, fora de mim! Mas havia mais e pior, guardado para este euzinho já boquiaberto, repleto, empanturrado de más novas. Quem, entre todas as pessoas do mundo, escolheu Daniel de Sá para eliminar, injectar, abater sem piedade? Segurem-se, é inacreditável, cá vai que é chumbo: Anne Frank!! Exactamente. Anne Frank, a própria, a menina do Diário de. Para mim foi a gota de água, antes o pingo na cueca, foi um nadita too far, este meu amigo, perdão, ex-amigo, terei de ponderar... Que ele tivesse vontade de matar alguém, isso eu percebo, já ouvi dizer que sim senhor, que acontece a muito boa gente. Que ele tivesse despachado o fuher, como assume no texto ter sido a sua intenção original, ainda vá que não vá (agora que penso nisso, e dado à sua amizade antiga com Manuel Alegre, quem sabe se este não estaria também envolvido e se não seria mesmo uma conspiração de poetas contra o Reich... Argel, Maia, Berlim... uma pessoa agora já põe todas as hipóteses, isto é assim mesmo, isto uma pessoa nunca sabe..). Mas tocar num cabelo da minha doce Anne, da menina por quem eu chorei tantas vezes quantas li o seu Diário, (mais outras duas quando vi o telefilme), salvá-la para depois m'a levar desta forma vil, isso não, isso nunca. Isso ja. Quando o vir vou-lhe dizer. Temos que ter uma conversa, de amigo para ex. Mas até lá grito daqui ao mundo, para que todos saibam tamanho horror e iniquidade: Quem matou Anne Frank? Foi ele. Foi o Daniel de Sá. Aqui.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Daniel de Sá a 8 de Julho de 2008 às 01:16
Rui, meu caro és-amigo, também eu chorei muitas vezes por Anne Frank. E continuo a chorar. Não com lágrimas pela cara abaixo, mas pela alma adentro. É uma das minhas ideias fixas, dolorosas, terríveis. Há mais seis milhões de judeus mortos, "um milhão por cada ponta da estrela/ um Jordão de sangue com seis milhões de fontes". Mas é a tal coisa, um número. Ela tem nome, tem um rosto conhecido, tem uma história sabida. E tinha treze, catorze, quinze anos... Se ela tivesse escapado com vida, se um maldito tifo não tivesse completado a obra dos nazis, ela seria uma heroína vitoriosa, e nós estaríamos em paz com a nossa consciência a seu respeito. Pensei esta história há muitos anos. Como disse, nunca a escrevi e nunca a escreverei, quase de certeza absoluta. Mas, muitas vezes, precisamos de que alguém nos mate as nossas Annes Frank para que sintamos toda a tragédia humana. Tivesse sido assassinada pelas FARC a inabalável Ingrid, e o sentimento de revolta contra aqueles bandidos a fingir de Ches cresceria muito mais. Mas a alegria de a ver livre quase faz esquecer mais quinhentos reféns.
Sei que já tinhas percebido, mas, apesar disso, pergunto: percebeste agora?


De Rui Vasco Neto a 8 de Julho de 2008 às 01:19
daniel,
não sei, queres dizer tudo outra vez mas mais devagar, a ver se é desta? Ou confias que sim?


De Daniel de Sá a 8 de Julho de 2008 às 01:30
Confio que sim. Que mais não seja para não repetir a lição.


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