Quarta-feira, 9 de Julho de 2008
Nada na manga, sinal de batota.
Quarta-feira, 09 Jul, 2008

Um casino sem nada a esconder é uma ideia imenso interessante, como um bordel de virgens, imenso peculiar, inovadora, imenso sei lá. Não é minha, credo!, claro que não, sou lírico mas não tanto. E depois não tenho essa lata toda, para ser franco, há um limite para as figuras tristes que sou capaz de fazer (mesmo que por vezes não pareça). Não, eu não seria capaz de chegar aqui e sair-me com esse copito a mais, essa fantasia a cores cujo único cenário possível seria um qualquer salão paroquial de província, talvez, com as velhinhas da freguesia a darem as cartas, o senhor pároco a cantar os números da roleta e os velhotes a venderem rifas para o sorteio do porco, a um chouriço cada uma. Maria Amélia, a divorciada, venderia os 'Kentuckys' no bufete, com vestido de decote. E aos sábados haveria acordeão para todos balharem. Talvez pudesse ser isto mais ou menos, se existisse, um casino sem nada a esconder. Ainda assim, como de resto se pode ver pelo custo das rifas, até neste casino paroquial as pessoas só dão um chouriço a quem lhes der um porco, pelo menos, e acho que nem o senhor pároco acredita em milagres. Pelo menos desses.

 

Um casino sem nada a esconder é uma tentativa grosseira de abuso da credulidade alheia. Se não há devia haver, uma lei qualquer que proíba e castigue este equivalente à venda do Cristo-Rei em prestações suaves, ou qualquer outro insulto deste calibre à inteligência dos outros. Um casino sem nada a esconder é sinal de batota, um dos piores. De uma das piores. Não, a ideia não é minha, não tenho competência para tanto. Nem tenho o gabinete a ser espiolhado e (supostamente, pelo menos) virado do avesso pelos investigadores tributários, elementos do Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP) e membros da brigada fiscal da GNR que desde esta manhã estão nos casinos do Estoril e Póvoa de Varzim, do grupo Estoril-Sol, alvo de buscas no âmbito da "Operação Furacão" que investiga fraude fiscal e branqueamento de capitais. O seu a seu dono. Foi Mário Assis Ferreira, administrador da Estoril-Sol, quem hoje se saiu com esse interessante conceito, em declarações aos meios de comunicação: «Os elementos da brigada fiscal e um procurador do MP estão a analisar documentação financeira e contabilista. Não temos nada a esconder e estamos à sua inteira disposição", disse aquele responsável, para a gente acreditar. Eu, lamentavelmente, passo. Os senhores estejam à vontade para apostar. Les jeuxs sont faits.

 

É caso para perguntar, a quem investiga branqueamento de capitais em Portugal, porquê só agora se lembraram destes casinos. Isto entre muitas outras coisas que apetecia perguntar, posto serem tão estranhas e difíceis de compreender, respeitantes ao jogo nos casinos da Estoril-Sol, particularmente no tocante ao branqueamento de dinheiro, supostamente prevenido por uma directriz comunitária que obriga a identificação do comprador de fichas numa sala de jogo. E que o Casino Estoril cumpre zelosamente, diga-se. Ninguém troca um euro que seja por uma ficha, na sala de jogos tradicionais, sem mostrar o bilhete de identidade ou passaporte ao caixa, é verdade sim senhor. Quem quiser trocar um milhão de euros sem se identificar tem que descer ao piso térreo, se quiser, agora transformado numa imensa sala de jogo sem o ser, mas com mini-roletas e mini-banca francesa para maxi-tansos, por toda a parte. Ou para quem queira de facto branquear dinheiro sem controlo de ninguém. Era assim até há bem pouco tempo, suponho que continuará igual hoje, tal como ontem e tal como depois destas buscas que procuram afanosamente pistas sobre branqueamento de capitais e fraude. Uma chatice. É o problema das respostas, como dos casamentos: às vezes, por mais que queiram, não encontram as perguntas certas.

 

Mas eu tenho duas boas razões para não fazer esse tipo de perguntas: em segundo lugar, não quero de todo maçar os senhores com minudências a que ninguém mais parece ligar, a começar pela própria Inspecção-Geral de Jogos que se aborrece (a sério) sempre que alguém faz perguntas incómodas sobre o jogo no Casino Estoril. Ora eu cá não quero aborrecer ninguém. E em primeiríssimo lugar, como podem ver pelo título deste blog, eu de facto só disponho de sete vidas, o que é manifestamente escasso para poder dar-me ao luxo de me meter com o Dr.Mário Assis Ferreira e com a Estoril-Sol. Chamem-me gato escaldado, se quiserem. Mas ganhei um amor tal à carnucha que enche o esqueleto que me transporta, que agora (com a idade, já se vê) uso todos os cuidados e uma alimentação saudável, que inclui os milhões de alkazei-imunitai que há nos yogurtes e uma prudência verbal feita em casa. Dizem que faz milagres, estou para ver e ir vendo, devagar.

 

Por isso não tenho quaisquer perguntas para fazer, ou sugestões para deixar, ou ideias para partilhar sobre este assunto. Tal como o resto do país, vou assistir hoje aos telejornais e à notícia das buscas, ver as imagens e ouvir todas as informações disponíveis sobre esta suspeita de branqueamento de capitais nos casinos. Depois, tal como o resto do país, vou aguardar por um eventual resultado das investigações, supondo que existirá algum. E no final, havendo um, tal como o resto do país vou comentar no café nesse dia e no outro vou à vida, obrigadinho, que se há-de fazer, é preciso é ter saudinha e tudo se resolve. E já está. Não foi assim com a polémica do Casino Lisboa/se há-de ir para o Estado olhe pronto, deixe ficar, uma atenção de Telmo Correia assinada nos estertores do seu consulado? Alguém mais fala disso? E aconteceu o quê, na prática? Falou-se, é certo, deu na televisão, veio nos jornais, mas aconteceu o quê, depois? Nada, não aconteceu rigorosamente nada. Nunca acontece nada, o herói Martini não morre, nem se despenteia. É preciso é ter calma e muita saúde e tudo se resolve, como sempre. Todos sabemos que é assim. Eu sei que é assim. O Dr. Assis Ferreira também sabe que é assim. E os senhores que estão a mexer no gabinete dele até podiam não saber que era assim quando lá entraram, mas palpita-me que agora alguém vai arranjar maneira de os informar, rapidamente, desse pequeno pormenor. Afinal, não há nada para esconder. 

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De a.moura pinto a 9 de Julho de 2008 às 12:12
Comentar? Apenas isto: parabéns!
E, de facto, nunca num casino houve alguma coisa a esconder, nunca... Os casinos são espaços muito caros para serem utilizados nisso, como armazéns para esconder coisas.


De Rui Vasco Neto a 9 de Julho de 2008 às 16:29
a.m.p.,
exactamente, nem mais.


De Samuel a 9 de Julho de 2008 às 12:49
Rui

Belo texto!
De qualquer maneira as buscas ao Casino do Estoril não podem durar muito. Ao fim de pouco mais de um quarto de hora já não há condições para os agentes trabalharem, de tanto escorregarem naquela espécie de "baba" que escorre sempre das declarações (e atitude) do tal Mário Assis Ferreira.


De Rui Vasco Neto a 9 de Julho de 2008 às 16:28
sam,
'baba que escorre' é uma bela expressão, na circunstância. Continuas certeiro, mesmo quando não queres, hein?
abraço!


De Valupi a 9 de Julho de 2008 às 15:36
Chamaste?


De Rui Vasco Neto a 9 de Julho de 2008 às 15:57
Claro que sim. Um casino sem nada a esconder é algo que não pode passar ao lado do teu conhecimento, quem sabe até da tua reflexão. Não podia correr esse risco, eu, perdoarás o abuso. Bom que vieste.
(Não te faz lembrar Roberto Carlos, esse grande filósofo que dizia 'Só me falta ficar nu para chamar tua atenção'. )


De Valupi a 9 de Julho de 2008 às 17:45
Mas diz-me lá: ficas-te? Achas que eles são bué da fortes e bué da maus e que ninguém lhes pode dar luta?



De Rui Vasco Neto a 9 de Julho de 2008 às 17:57
Não, acho que eles são bué da fortes e bué da maus e que ninguém lhes quer dar luta. Repara: quem, no seu juízo perfeito, vai comprar uma guerra que lhe pode ser fatal, sem uma motivação que nem a do David, desgraçadito, reduzido a uma pedra na funda e, no fundo, entalado sem recuo possível? Tu, talvez?


De Valupi a 9 de Julho de 2008 às 18:42
Talvez, sim. Afinal, se ninguém tivesse tentado, não estaríamos aqui a ladrar sem ninguém se importar connosco ou lembrar de pôr açaimo. Pelo que há, na minha humilde e errónea opinião, o dever de honrar a vida dos bravos que se foram às fuças dos pulhas.

E como? Pois é essa a bela questão. Como sempre foi, de resto.



De Rui Vasco Neto a 9 de Julho de 2008 às 20:09
upi,
Ironias e gracinhas à parte, è evidente que estou de acordo contigo, claro que sim, ou não tivesse eu no curriculum um extenso rol de rteportagens publicadas sobre o jogo e os seus quês, muitos, muitos quês. Alguns dos trabalhos mais marcantes e significativos do meu percurso profissional foram sobre esse tema, inesgotável. As vigarices das maquinetas, os empréstimos dos maleiros a 10% ao dia, as agressões e ameaças a jogadores e não só, o retrato do submundo oportunista que vive nas bordas da jogatana, tudo isto foi por mim dissecado em grandes reportagens para a RTP, Visão e Tal&Qual, sobretudo, jornal onde fiz várias capas com o tema. Recebi muitas palmas, muitas, duas menções honrosas, um prémio e mais palmas. E por pouco não recebi algumas palmadas, também, aqui entre nós. Mesmo sem estas últimas, posso garantir-te que paguei caro a audácia, saiu-me dispendiosa a vocação justiceira. E assim aprendi o Assis Ferreira: the hard way.
No entanto estou cá para outra, não digo que não, mas só se houver quórum. Só assim. O Lone Ranger era muita giro mas era um boneco; e o Lucky Luke era lucky, está tudo dito. Eu sou só o Rui das vidas, rapaz neutralizável e, para eles, apenas um papagaio inconsequente e dado a uma ou outra tosquice de vez em quando. E quanto às vidas, só aqui entre nós, duvido que ainda sejam sete, nesta altura do campeonato...


De Valupi a 10 de Julho de 2008 às 00:56
Tens razão, e tens mérito. Gostei da recordação. E sim, em grupo. Mas os grupos são compostos de indivíduos. E depois, isso, a vida. É por só se viver uma vez que tudo vale a pena, que vale a pena tentar ser aquilo que ninguém mais poderá ser por nós.


De ângela a 10 de Julho de 2008 às 19:19
Caríssimo,
fazendo juz ao teu Blogue, "gato escaldado de água fria tem medo", não é?
E as vidas já vão tendo outro valor, também.
Mas, se não houver gajos (mesmo) como tu, bem que podemos todos fechar a loja porque o mundo vai ser só dos outros, daqueles que são "bué da fortes e bué da maus", só porque não há quem lhes pregue uma rasteirinha que seja...
Haja quem resista!
Beijocas


De corrêa simões a 9 de Julho de 2008 às 16:27
Ora cá está o Rui vasco neto no seu melhor. Folgo sabê-lo e ainda mais lê-lo, meu caro. Soube que andou desaparecido mas vejo que regressou às lides com renovado fulgor.Que nunca as mãos lhe doam. E que nunca a qualidade lhe falte, esta mesma que revela nestes textos de arromba.
E para quando um regresso à televisão? Aqui em casa esperamos que seja muito breve (e somos muitos, acredite).
Um grande abraço do ex-colega de letras (e de farras, lembra-se do Desassossego? da Maria João Quadros?)

Augusto Corrêa Simões


De Rui Vasco Neto a 9 de Julho de 2008 às 16:33
meu caro,
já há muito tempo que não aparecia por aqui, certo? tem graça que das outras vezes, quando assinou o seu 'corrêa', lembrei-me de uma velha figura do meu passado, mas estava tão lá no passado que achei que não poderia ser a mesma.
vejo que me enganei, coisa frequente.
pois também eu folgo em sabê-lo, acredite.
e venha mais vezes.
um abraço


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