Quarta-feira, 23 de Julho de 2008
Emergência pipi
Quarta-feira, 23 Jul, 2008

Foi agora, há poucos minutos. Escrevo a quente, já vou avisando da circunstância. Parece-me justo, é evidente e humano que conte, que diabo, mas isso não muda em nada o meu contar. Conto como aconteceu, sem pintura nem retoque. Não é uma brincadeira, estou perante uma situação de emergência médica e com dois recursos tecnológicos invejáveis: um computador on-line e um telemóvel com um saldo de sete euros e trocos, bateria com carga à vontade. A emergência, em termos clínicos, tem contornos de extrema gravidade, num leque de possíveis evoluções, a exigir um diagonóstico imediato, nem que por exclusão, para decidir que passo exacto dar, certo, no escasso tempo ao dispor. Há que agir: cliché ou não, cada minuto conta efectivamente. Faço uma pesquisa das hipóteses de triagem médica via telefone e começo por uma, depois passo à que se segue e depois às que forem necessárias para encontrar a minha resposta, de urgência crescente.

 

Encontro a 'Saúde24' no 808242424, uma linha do Ministério da Saúde que faz 'triagem, aconselhamento e encaminhamento', num serviço de 'Assistência à saúde pública'. Sou atendido pela Enfermeira Maria Guiomar, correcta, concisa, educada e insistente no exaustivo protocolo de perguntas reservadas à identificação e dados pessoais de quem precisa de ajuda. O bom e velho 'preencher a ficha', só que em guichet virtual: é logo outro sainete. Tenho a consulta possível no par de questões técnicas que trago sem resposta e que lá consigo meter a custo entre o nome do pai e um código postal qualquer. Lamentavelmente a senhora não tem para me dar as respostas que eu procuro, mas nem por isso me deixa partir de mãos vazias. Dá-me o contacto do serviço de triagem da Urgência Central do Hospital de Santa Maria, o 21 780 5000, que eu agradeço em nome da minha aflição. E despede-se com a correcção intacta, do princípio ao fim da sua intervenção, pese embora limitada e insuficiente para a minha emergência. Mas eu, de mãos vazias, já me contento com pouco.

 

Terão passado uns bons vinte, trinta minutos desde que iniciei todo este processo, digitando a pesquisa. Durante todo esse tempo fiz apenas três chamadas, no total até aqui, duas delas curtas de três frases, quatro, talvez, contando o 'adeus e obrigadinho'. Agora ligo o 21 780 5000 com a fé renovada e o tempo a passar. Logo ao segundo, terceiro toque de chamada, a linha dispara uma gravação e os períodos telefónicos começam a contar: "Bem vindo ao Hospital de Santa Maria; para informações relacionadas com (pausa ligeira) Urgência Central, marque Um; Urgência Pediátrica, marque dois; Urgên.." Já nem ouvi o resto, para quê, se tinha marcado o 'um' logo à primeira? E já estava a chamar, foi logo: piiiiiiiiiii...  piiiiiiiiii...  Agora era só aguardar que atendessem e explicar as minhas duas questões urgentes, já desesperadas por esta altura, mas pronto, agora já estava a chamar, piiiiiiiiiii...  piiiiiiiiii... Agora era um instante.... piiiiiiiiiii...  piiiiiiiiii...

 

Vou abreviar a história, cortar nos pipis e seguir directo para bingo: pata que os pôs! Eu avisei que escrevia a quente, que a coisa foi agora, mesm'agorinha, nanja uma hora, meia talvez. Pois foi esse mais ou menos o tempo dos tais pipis, mais pi menos pi. Foram cinco, foram seis, sete minutos assim? Piiiiiiiiiii...  Piiiiiiiiii... Emergência... Piiiiiiiiiii... Foram dez, foram onze, doze, treze minutos? Piiiiiiiiiii...  Piiiiiiiiii... Emergência... Piiiiiiiiiii... Não sei, de facto, em bom rigor, quantos minutos passaram ou quantos pipis piaram no meu ouvido ansioso. Mas tenho um dado que talvez ajude a dar uma ideia da eficácia deste tipo de atendimento das emergências médicas: passaram, sem erro, entre quatro a cinco euros de pipis, mais um menos um, até que a chamada se acabou quando se acabaram os tostões. E os piiipiiis, claro, deixando-me a falar sozinho com a minha angústia. E sem respostas.

 

Anote o número, rápido, pode um dia precisar. Vamos, anote, nunca se sabe, eu precisei (e bem me lixei) deste 21 780 5000. Emergência. Piiiiiiiiiii... Piiiiiiiiii... "Bem vindo ao Hospital de Santa Maria, para informações relacionadas com (pausa ligeira) Urgência Central, marque Um; Urgência Pediátrica, marque dois; Urgênpiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii"

 



publicado por Rui Vasco Neto
link do post | comentar

Comentários:
De Pi..... a 23 de Julho de 2008 às 04:02
Tázaxamari? Ao menos, depois de tanta urgência, ainda blogas ... Tájemelhó ?


De Alfredo Gago da Câmara a 23 de Julho de 2008 às 21:34
Amigo Rui, esta descrição emotiva está tão bem feita que é nestas alturas, peço desculpa, depois de ler atentamente o post, não consegui conter uma boa gargalhada quando finalmente cheguei ao tags. Isto é o que se chama rir com a desgraça dos outros. No entanto fiquei preocupado. Diz qualquer coisa, bloga, manda um email, senão ainda te imagino em mau estado com o telemóvel encostado ao ouvido a gritar piiiiiiiiiiiiii.......
Abraço


De Saci a 23 de Julho de 2008 às 23:14
Rui

Se bem que conheço o SNS, desconfio que depois dessa aventura, outras mais macabras, mais escabrosas, se seguirão.

Coragem, caro amigo, e as melhoras.


De Pedro Gonçalves a 23 de Julho de 2008 às 23:19
Caro Rui, há muito que o nosso sns está mais doente que nós. Não é de agora. A coisa tem sido disfarçada com umas lavagens de cara e tal mas por baixo de uma boa maquilhagem está uma pele contaminada de vícios, interesses, etc...


De Kitty a 23 de Julho de 2008 às 23:44
Adorei o blog!!! Parabéns!!!


De Samuel a 24 de Julho de 2008 às 00:54
Depois venham dizer que "a saúde está doente" é apenas um trocadilho, fraquinho, ultrapassado...

Abraço


De Alfredo Gago da Câmara a 24 de Julho de 2008 às 02:21
Samuel, eu diria mais: é mesmo um trocadalho do carilho...


Comentar post

Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
mais sobre mim
vidas passadas

Piu

Crónica do Brufen

Eu, pombinha.

Falando com o meu cão

Chove, eu sei, mas tenho ...

Maria da Solidariedade

Hum, daí o meu dói-dói...

Portugal sem acordo

Não fui eu que escrevi ma...

Um dos

Abençoados 94, Madiba!

Sôdade

Não vás as mar, Tòino... ...

Ofertas FNAC: pare, escut...

Reflexão de domingo, perg...

É preciso é calma, já se ...

Definição de sacrifício n...

A questão

E pronto, eis que descubr...

.......

Bom dia. Se bem me lembro...

O princípio do fim

E, de repente.

Um azar nunca vem só

Diz que é uma espécie de ...

Força na buzina!!

Bom dia. Hoje chove em Li...

Depois do homem que morde...

Bom dia. É hoje, é hoje!!...

Boga ou Beluga?

arquivos

Junho 2013

Janeiro 2013

Dezembro 2012

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Agosto 2012

Julho 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Agosto 2011

Julho 2011

Junho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Janeiro 2011

Novembro 2010

Outubro 2010

Abril 2010

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Restaurantes para fumadores
Consulte aqui a lista de restaurantes onde os fumadores também têm direito à vida.
sete vidas mais uma: Daniel de Sá
Um Nobel na Maia
Lagoa
Ribeira Grande
Vila Franca do Campo
Do Nordeste à Povoação
Dias de Melo, escritor livre
E se a Igreja se calasse?
O outro lado das tragédias
O meu Brasil português
A menina amarga (II)
A menina amarga (I)
Pelas cinzas de uma bandeira
O caso da Escola do Magistério
Uma confissão desdobrável
O gato e o rato
Contra a Inquisição
D.Diogo
Uma carta de Fradique Mendes
Acróstico
Monotonia
Maia (II)
Maia
Um nome acima de todos os nomes
Um palhaço de Deus
A ópera em Portugal - Conclusão (VIII)
A ópera em Portugal - Um novo estilo, Alfredo Keil (VII)
A ópera em Portugal - O Teatro de S.Carlos (VI)
A ópera em Portugal - Os Intérpretes: Luísa Todi e os Irmãos Andrade (V)
A ópera em Portugal - Marcos Portugal: vida e obra (IV)
A ópera em Portugal - Primeiros tempos / o triunfo (III)
A ópera em Portugal - Introdução da ópera em Portugal (II)
A ópera em Portugal - As origens da ópera (I)
Dois sonetos à maneira de Natália Correia
Duas garrafas de Macieira
As esponjas das lágrimas
Lição de Português
500 000 soldados
Depois do portão da casa
Auto da Mazurca
Auto da Barca de Bruxelas
Malino
Romance da Bicha-Fera
A Casa
Tremor de terra, temor do céu.
Cântico da mãe escrava ao filho morto
Passos Perdidos
A Lenda dos Reis
Daniel de Sá
Um sítio chamado Aqui
O protesto do burrinho
Sete vidas mais uma: Soledade Martinho Costa
Poema renascido
Sete vidas mais uma: Pedro Bicudo
RTP, Açores
As vidas dos outros
subscrever feeds
Sete vidas, sete notas