Segunda-feira, 28 de Julho de 2008
No coreto de Jardim
Segunda-feira, 28 Jul, 2008

Eu cá já 'fiz' o Chão da Lagoa. E é claro que me lembro de todos os pormenores, que aquilo é uma daquelas coisas inesquecíveis que acontecem na vida da gente, um brinde cultural, quer como trabalho jornalístico quer mesmo apenas como experiência pessoal. Um grande momento da profissão. Na gíria de reportagem, ‘fazer’ o Chão da Lagoa é partir para um dia intenso com muito para ver, pouco para reportar e animação garantida do princípio ao fim. Nem mais, nem menos. Passo a explicar.
 
Muito para ver porque sim, é assim mesmo, é tudo 'muito' no dia grande do partido laranja-M. É muita cor e muita música e muita bebida e muita comida e muito grito e muita bebida e muito discurso e muita bebida e muita gente, sobretudo muita gente, arregimentada nos cinquenta recantos da ilha e embalada em autocarros que as despejam no terreiro de Chão da Lagoa como só em Fátima, em dia de Papa. São muitos milhares de pessoas, numa ilha onde não há outros tantos em casa nesse dia. Sabem todas ao que vêm, mesmo aquelas que possam não saber porque vêm, sempre, ano após ano, num ritual partidário que se confunde facilmente com uma prática pública institucional, uma espécie de convite irrecusável à cidadania feito com chancela partidária. Isto se quisermos complicar o que é simples,porque afinal, na prática, acorreram todas ao assobio de um homem, ao chamado do líder bem amado. É o que eu digo, é Fátima em dia de Papa.
 
Pouco para reportar porque sim, é assim mesmo, novidade, novidade há muito pouco ou nada, quem viu uma vez, duas vezes, viu três vezes e percebe que pode saltar as vezes que entender que não perde grandes jogadas de recorte estratégico, nada do outro mundo. E depois também ninguém pretende investigações exaustivas ou piruetas de originalidade, pelas redacções nacionais. Basta lá estar à hora dos golos e a história fica razoavelmente contada, regra geral. É certo que com Jardim a regra é que todas as regras têm excepção e tudo pode acontecer. Como por exemplo uma acrobacia mal calculada a acabar com o desabar estrondoso do líder, estatelado numa euforia jaqué, entornado no chão, braço partido, pendurado ao peito nas cerimónias oficiais dos meses que se seguiram como recordação do chão do Chão da Lagoa. Mas isso é a excepção, claro, nem todos os dias Jardim é altamente excessivo; eu julgo até que ele no geral faz por evitar o 'altamente'. Mas cada um é para o que nasce, é sabido.
 
Por isso a muita animação, porque sim, é assim mesmo o nosso Alberto João: uma festa total, uma receita de sucesso em que não se mexe. Como em qualquer fado tradicional que se preze, a música mantém-se igual e só muda a letra, neste caso de ano a ano. "Sócrates não pode continuar a governar Portugal, eu julgo mesmo que é um insulto aos portugueses serem governados por Sócrates", são palavras a destacar do improviso desta edição, longamente aplaudido, quer a letra quer a música, que a malta no Chão da Lagoa quer tudo e tudo pode. Alberto João fala e atrás de si o conjunto musical sublinha, rufam tambores no pontuar de cada jargão. O líder madeirense classifica o primeiro-ministro como um "grande inimigo da Madeira", pelas dificuldades que tem provocado à região. E toca a banda. "Esse indivíduo, o grande inimigo da Madeira, pensou que nos podia destruir, pensou que íamos parar com o desenvolvimento roubando-nos dinheiro”, troveja. E toca a banda.” Esse indivíduo faz o que há de menos ético num Estado democrático, usou o Estado para fazer combate político", garante. E toca a banda. Como toca a todos o aviso anterior de Jaime Ramos, secretário-geral-éme, cujo eco ainda paira no ar: "Se Portugal quer manter a Madeira unida a Portugal, tem de pagar a tempo e horas, senão vai ter uma acção de despejo", terá arrotado. O povo aplaude, feliz com a hora de circo. E toca a banda, claro.  
 
Cá de longe, à distância de um oceano, mais gota menos gota, Portugal tudo ouve e tudo vê com a impassibilidade da classe política a tentar fazer-se passar por classe da impassibilidade política. Não é que alguém acredite mas pronto, ‘o estilo é que conta’, dizem. Não fosse a vermelhidão na face do poder, no sítio da luvada, e dir-se-ia que nem o Governo nem o seu chefe deram por nada, entretidos a ver a banda passar, enfiados no coreto de jardim.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De artesaoocioso a 29 de Julho de 2008 às 00:00
Alberto Jardim não existe.
As instituições portuguesas é que o criaram... e têm pago a festa.
A culpa não é dele, é nossa.
Cumprimentos


De Samuel a 29 de Julho de 2008 às 00:33
Como se diz no comentário anterior, não existe. É uma espécie de "holograma", só que como se sabe, esta brincadeira dos hologramas fica extremamente cara.


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