Segunda-feira, 4 de Agosto de 2008
Contra a Inquisição
Segunda-feira, 04 Ago, 2008

Escreveu-me um tipo curioso, em boa metade o meu amigo Daniel de Sá, na outra um tal de Vieira, António, um padre de boa memória. «Há uns anitos atrevi-me a imitar num livro um sermão do Padre António Vieira e parte de outro. Este teve como cenário a igreja de S. Roque, em Lisboa, e como destinatários os inquisidores. Nunca imaginei que alguém os tomasse como autênticos, porque são descarados apócrifos. O certo é que, além de outras confusões que eu já conhecia, acabo de descobrir mais duas. E ocorreu-me enviar-te excertos do tal sermão de S. Roque, que não houve, para dizer que, se alguém o encontrar por aí, saiba que é falso, invenção minha, atrevimento meu a tentar um arremedo do modo de falar do Imperador da Língua Portuguesa. Apesar disso, até talvez seja um pouco actual o tema...» Pronto, cá está então explicado. É Padre António de Sá quem hoje nos visita.

Em baixo: "Contra a Inquisição"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Hoje, não vos chamo a um sermão, convoco-os a um capítulo. E, no capítulo a que aqui vos convoco, se há-de tirar conselho, ou concluir juízo, sobre se a morte de Cristo não é a mesma ainda que se tem sabido neste desgraçado reino, onde, por falta de virtude, se quer obrigar à virtude quem porventura a tenha mais, ou decerto a não tem a menos, do que os juízes da santidade alheia que tão mal cuidam da sua. Não temam esses nem o pregador nem Deus em nome de Quem fala. Quem hão-de, pois, temer se fora de Deus não há justiça, que toda a justiça que haja fora Dele é arremedo ou ruim imitação dela, mas não é justiça verdadeira? Que se temam a si mesmos, pois são morada do mal, e por si se condenam pelo peso de tantas condenações injustas e, mais ainda, pela vontade de as fazer e pelo empenho que nisso têm posto. Que tendes ouvido do modo como foi Cristo Senhor nosso julgado e condenado? Quem O acusou? Quem testemunhou contra Ele? Quem Ditou a Sentença? Quem O Fez sofrer o suplício e a morte?

 

"Novissimi venerant duo falsi testes." E finalmente vieram duas testemunhas falsas. E já está o justo, em quem não havia culpa nem traição conhecidas, pronto a ser-lhe feito o processo por que há-de ser condenado. Vede que iniquidade, cristãos! Duo falsi testes. Foi entendido que um homem só não basta para testemunhar, que se requerem ao menos dois para ser aceite como verdadeiro aquilo que testemunham. Desgraçadamente, porém, é mais fácil encontrar dois homens dispostos a mentir postos de acordo, do que um somente a dizer a verdade que não convém. E, porque são duas as testemunhas, ainda que, meus irmãos, duo falsi testes, aí vai o justo levado ao tormento, sem conhecer quem o acusa e sem saber de que o acusam. Rebentam-lhe os ossos na polé ou esmagam-lhos no potro, e o triste não percebe, e o desgraçado não entende com que mentiras o acusam ou que mentiras há-de inventar, nem que arrependimentos fingir que o libertem de ser atormentado, condenado e levado à fogueira.

 

Quem condenou Cristo?...Os sacerdotes, que eram a religião desse tempo. Quem O sentenciou?....Pilatos, que representava o imperador de Roma. Como se despediu Cristo dos Seus amigos? Ceando com eles. E como se despedem os inquisidores das suas vítimas?... Com grandes banquetes em que nem a pena pelo mal que fizera nem o temor da pena que hão-de sofrer eternamente lhes diminuem a vontade de comer. Cristo ceou com um Judas, e todos estes são Judas à volta da mesma mesa.

 

Temos, pois, que foram sacerdotes os que condenaram Cristo, e sacerdotes são os que condenam os infelizes de que vos tenho vindo a falar. E foi o poder do imperador, que é semelhante ao poder real, que O sentenciou, sendo que quem cumpre a sentença nos ditos infelizes são os representantes de El-Rei. Vedes diferença nisto, irmãos?....Eu não a encontro, por mais que a busque. Condenaram os Judeus, mas não mataram; mataram os romanos, mas não condenaram. Mas será porventura que quem condena não mata e que quem mata não condena? Ou não virá tudo ao mesmo, que é serem uns e outros cúmplices na condenação e na morte de Cristo? Aos sacerdotes do Templo importava calar Cristo, cujas verdades temiam; a Pilatos, convinha evitar levantamentos contra Roma, que era o crime de que perante ele vinha acusado. Mas nem os sacerdotes O mataram, ainda que muito o quisessem, nem Pilatos o condenou, ainda que preferisse mandá-lo ao suplício para evitar o risco de deixar em liberdade um revoltoso que pusesse em perigo o poder de Roma e, mais que o de Roma, o dele.

 

Tenta Pilatos fingir que tem piedade do Galileu, dando em troca de Cristo Barrabás, tenta o inquisidor fingir que espera piedade para aquele que já está condenado, pedindo que seja tratado com misericórdia. Mas já sabia Pilatos o destino que haveria de ter Cristo, e já sabe o inquisidor o fim que há-de ter o seu réu. E é neste passo que são outra vez iguais Cristo e o relaxado pela Inquisição ao braço secular; e é neste passo, irmãos, que outra vez é o mesmo pregar a paixão de Nosso Senhor e uma condenação do Santo Ofício.


Bem podeis dizer-me que os diminutos agora são eles, os que tão longamente têm servido o mal em nome do mesmo Bem, que é Jesus Cristo. Bem podeis cuidar que lhes não restam forças de mando que muito vos assustem, porque foi clemente para os portugueses o papa que de Clemente tomou nome, proibindo os autos-de-fé em que tudo se fazia menos defender por eles a verdadeira Fé. Porém eu vos previno, irmãos. Pode acabar a inquisição, mas nunca se hão-de acabar os inquisidores. Pois que se é uma e a mesma morte a de Cristo e a dos acusados que eles tanto mataram, uma é, e a mesma, a Inquisição que houve e outras que hão-de vir.

 

Porque o mal acampou nos corações de muitos homens, e, sentindo-se bem nesse arraial, nesses corações e nesses homens, não os deixa facilmente ou não há-de largá-los nunca. Sempre vos hão-de pedir contas de coisas que não devem, sempre vos hão-de julgar pelos crimes que não cometestes, sempre vos hão-de condenar pela diferença que fazeis deles e não por mais razões que essa. Haveis de ir às prisões, aos tormentos e à morte: por não jejuar em dias de preceito ou por jejuar em outros que são de festa. Haveis de ir às prisões, aos tormentos e à morte: porque sois negros entre brancos ou brancos entre negros. Haveis de ir às prisões, aos tormentos e à morte: por dizer sim e por dizer não. E, se isto não vos acontecer a vós, há-de acontecer aos vossos filhos, ou aos filhos dos filhos de vossos filhos.

 

Hão-de mudar-se estes inquisidores e esta inquisição. Hão-de mofar de nós os homens do futuro, tendo-nos por néscios, brutos e insensíveis. Hão-de dizer que fomos como cordeiros ao matadouro, sem culpa alguma, mas eles mesmos hão-de degolar rebanhos. Cristo há-de voltar a morrer mil vezes, muitas vezes mil vezes, em nome do bem do Templo ou de Roma, mas nem o Templo nem Roma hão-de ter nunca o direito de matar, porque um só é o Senhor da vida. Hão-de mudar os nomes dos que têm defendido as leis de Roma ou do Templo, e, se os de agora não são Nero, nem Tomás de Torquemada, nem Carlos Quinto, nem João Terceiro, ou Henrique, cardeal, são os mesmos, sendo embora outros e chamando-se com outros nomes. E os que hão-de vir, ditos os seus nomes na nossa ou noutra língua, num lado ou outro da Europa, numa margem ou noutra do mar oceano, em nada hão-de mudar a vossa condição porque será a mesma maldade que os condenará justamente depois de muito injustamente terem perseguido, condenado e matado.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Antônio Vieira a 4 de Agosto de 2008 às 17:17
Caríssimo Antônio de Sá
Percebo como é fácil a confusão. Até mesmo eu, duvidei que não tivesse feito este sermão. Não o fiz? Tem certeza ? Gostaria muito de tê-lo construído. “Hão de mudar os inquisidores e a inquisição...” somente alguém que interpretasse tão bem as minhas palavras ,seria capaz de dizer aquelas que me faltaram.
Beijinhos da Cris, para Daniel de Sá.


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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