Quinta-feira, 21 de Agosto de 2008
Crónica do abandono
Quinta-feira, 21 Ago, 2008

Li a história por alto no Correio da Manhã de hoje. Uma bebé com apenas dez dias de vida foi ontem abandonada numa casa de banho do Hospital Garcia de Orta, em Almada. A criança tinha uma carta ao seu lado e foi encontrada durante a manhã pelos serviços de segurança do hospital, na área das consultas. O director-clínico do Hospital, já esta manhã, garantiu que a bebé esta bem de saúde e ficará internada até aquela unidade hospitalar receber ordens para a entregar. O futuro da menina será tratado por uma equipa da Comissão de Protecção de Menores, com o apoio do Ministério Público. Para já, o caso foi entregue à PSP de Almada.

 

Estes são os factos que compõem a superfície deste caso em particular. Mas o que me chamou mais a atenção foram as notas que a propósito constavam desta reportagem, informação pesquisada e coligida pelo(a) jornalista sobre esta quase rotina do abandono. Que nos diz, por exemplo, que a maior incidência de abandonos de recém nascidos acontece em Setembro, «nove meses depois da noite de fim de ano, frutos de relações ocasionais», coisa que não me passaria pela cabeça mas que também nem por isso me espanta por aí além enquanto padrão. Afinal, o abandono de velhos nas urgências dos hospitais, também por exemplo, acontece todos os anos em barda no início das férias de Verão. Todos os anos aparecem mais uns quantos, a juntar aos de sempre, deitados fora pelas famílias que, em muitos casos, se esquecem de os ir buscar no regresso do mês de praia. Eles são o retrato do abandono, um dos retratos possíveis deste monstro com muitas caras. Angelicais, algumas, como a da jovem mãe, acabada de dar à luz, retratada nesta mesma reportagem do CM pelas suas palavras, significativas, exemplares, citadas pela equipa médica que a acompanhou: «Eu não preciso de o levar comigo, pois não? Posso deixá-lo aqui, não posso?».

 

Fui procurar 'abandono' ao dicionário, quis uma definição que o explicasse em poucas palavras, com a competência que me falta. Encontrei «desamparo total, desistência, cedência, renúncia, desprezo». E sim, deve ser tudo isso, só pode ser tudo junto e mais a circunstância de cada um, que gera ou impõe um tal sentir. Por mim chega, por hoje. Não tenho pretensões a entender todos os quês de toda a miséria de que é capaz o ser humano, há no pensamento ruas por onde eu não passo nem nos dias de sol mais brilhante e céu azul. O que eu gostava mesmo de perceber é que espécie de sociedade somos, exactamente, ao criar tanto abandono e miséria entre nós. Isso sim, eu gostava de compreender. Mas não vai ser hoje, está visto.



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Cristina a 21 de Agosto de 2008 às 15:37
Difícil descrever com precisão qual é a percepção que a pobreza tem de si mesma. Vejo que ela não é um estado de carência de subsistência, é muito mais profunda, é uma expressão. E esta expressão é que tem repercussões sociais. A miséria humana esta muita além de uma condição social. Um filósofo da metafísica dos costumes, Kant, afirmava que o ser humano representava um fim em si mesmo. Este princípio torna-se fundamental em diversos contextos, seja na análise da pobreza, seja na formulação das políticas públicas e do planejamento governamental. Penso que justamente a sobrevalorização do auto-interesse evidencia uma das principais deficiências da Econômica contemporânea. Querido, o termo abandono chega direto as minhas veias, pois há alguns anos dedico-me com afinco a buscar respostas e soluções a todas as suas faces. Nós Brasileiros somos recordistas em injustiças sociais, portanto peço licença e saio seguindo um conselho de Machado de Assis: “se não tens força nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires”. Rui, eu adoro o teu Blog, estou mesmo viciada em ler-te, quero deixar aqui registrada minha admiração. Beijinhos.


De Daniel de Sá a 22 de Agosto de 2008 às 00:46
E recordistas também, os brasileiros, em almas grandes, imensas, não tenho dúvida.
Que acontece num coração humano para que haja abandonos assim?
De cada vez que eu penso numa menina de três anos ou quatro, a vaguear às onze da noite em Lisboa com uma carta na mão para dar (para se dar) ao primeiro que reparasse no seu abandono, fico com lágrimas na alma e nos olhos. (Raios, cá estão elas...)


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