Segunda-feira, 25 de Agosto de 2008
O outro lado das tragédias
Segunda-feira, 25 Ago, 2008

Corria o ano de 1957 quando os olhos do mundo se abriram de espanto com o acordar de um gigante que dormia em águas portuguesas do Oceano Atlântico. Hoje, Daniel de Sá recorda esse momento dramático da nossa história recente numa prosa feliz. «Provavelmente muitos dos nossos leitores sabem pouco sobre o vulcão dos Capelinhos. No ano passado, o Tony Goulart, senador da Califórnia, organizou um livro com memórias do vulcão. Pediu-me um texto, eu alinhavei umas ideias. Ora aconteceu que ele achou a primeira parte desse texto como a ideal para abrir o livro, pelo que me pediu para o partir em dois pedaços: um que abriu e outro que meou. Abriu, claro, depois da saudação institucional do Carlos César. Acabei por ficar entre o meu amigo César e o Ted Kennedy, vê lá que "classe"!». Pronto, eu tenho que ser absolutamente franco convosco: por mais voltas que dê à coisa ainda não consegui perceber o que quis ele dizer com aquelas aspas na palavra 'classe'. Mas vamos ao texto, entretanto, que esse é de classe, sem dúvida. E sem aspas.

 

Em baixo: "O outro lado das tragédias"

Sete vidas mais uma: Daniel de Sá

 

 

Não há tragédias sem reverso. É sobretudo de tragédias que vivem os prémios de fotografia, o Nobel da Literatura, o Pulitzer, as primeiras páginas dos jornais, os noticiários da rádio, da televisão. A dor é o espectáculo mais apreciado do Mundo, tornado num imenso Anfiteatro Flávio.

 

Com frequência, a própria Natureza se encarrega de escrever o guião, de encenar a peça e de escolher os actores ao acaso, para saciar o desejo mórbido dos apreciadores do belo horrível. O vulcão dos Capelinhos (1957/58) teve um pouco disto tudo: assustou, destruiu, maravilhou. O Faial mal dormia com medo do cataclismo que apregoava a sua força com urros infernais e um bailado de cor e cinzas. Aldeias foram despovoadas e destruídas, com o farol a teimar de pé, como a sentinela que não caiu em Pompeia. Fez a delícia de cientistas que nunca tinham visto um vulcão nascer e adormecer. Disputou com o Sputnik, lançado para o espaço uma semana depois da sua aparição sobre as águas, os destaques nos jornais de Lisboa. A RTP, que começara as emissões em sete de Março, só fizera ainda uma grande reportagem de exterior, a visita ao Brasil de Craveiro Lopes, presidente da República. O vulcão permitiu-lhe momentos de glória, ainda hoje famosos na recordação de quem viu e de valor inestimável nos arquivos a preto e branco.

 

As pessoas acabaram por habituar-se aos seus soluços ciclópicos e aos seus clarões fascinantes. Há quem diga que até em S. Miguel se viram sinais dessas sombras de luz. E as noites do Grupo Central do arquipélago passaram a ter dois espectáculos garantidos. Um era a fantástica repetição da epopeia geológica que fez estas ilhas. O outro era o brilho do sol no foguetão em órbita que levara o Sputnik para longe da gravidade. A cerca de novecentos quilómetros de altitude e movendo-se a quase trinta mil por hora. Era o mundo velho, tão velho como a criação, visto ao mesmo tempo que o futuro.

 

Mas, para os que sofreram as consequências do poder destruidor do vulcão, o futuro parecia ter-lhes fechado as portas. Casas destruídas, terrenos tornados estéreis. Começar do zero era o desafio, numa ilha que não podia ajudar muito. Mas, menos de um ano depois, a dois de Setembro, foi dado um sinal de esperança. No Senado dos Estados Unidos, John Kennedy e John Pastore, eleitos por Massachusetts e Rhode Island, propuseram o Azorean Refugee Act. Estavam abertas outras portas, e estas no Continente Americano, o Novo Mundo de todas as esperanças.

 

Tendo em conta a população da ilha, começou então uma das maiores sagas de emigração em massa da História da Humanidade. Até 1965, cerca de duas mil e quinhentas famílias do Faial mudaram de vida e de pátria. Era quase metade da população da ilha, de uns trinta mil habitantes apenas. Entre os emigrados, alguns não teriam sofrido muito mais que o susto que todos sofreram. Mas eram quase tão pobres como os sinistrados. Nessas circunstâncias, o governador do Distrito, Dr. Freitas Pimentel, foi um cúmplice de boa vontade. Foi ele que deu informações para a concessão de vistos a muitos dos que tentaram aproveitar a oportunidade criada por Kennedy e Pastore. Como se todos tivessem sido vítimas directas da destruição à volta dos Capelinhos.

 



publicado por Rui Vasco Neto
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Comentários:
De Samuel a 25 de Agosto de 2008 às 20:11
Bom texto! Fez-me lembrar de umas fantásticas fotografias de Luís Carlos Decq Mota (feitas mesmo "em cima" do acontecimento) que vi há uns meses.
Obrigado!


De Cristina a 25 de Agosto de 2008 às 22:57
Samuel querido.
O texto é simplesmente maravilhoso.
Diga que tira o chapéu e ofereça uma canção ao nosso Daniel.
Rui, o nosso Daniel poderia ser só um pouco mais ou menos de vez em quando não acha? Ele quebra todas as leis da probabilidade, não pode ser bom sempre. Ah , a propósito, você também né?
Adorei aquele galinho sendo estrangulado no domingo pela manhã.
Vocês são TDB (tudo de bom), meus portugueses amados.
Beijinhos.


De Daniel de Sá a 26 de Agosto de 2008 às 02:22
Cristina, olha que o Samuel, embora mais novo do que eu uns anitos, é do tempo em que apanhar um "Bom" em Português requeria mais saber do que o de alguns doutores de agora. Por isso aquele "Bom" vale muito mais do que possas pensar. Vê lá como ele escreve, e aposto que nem terá andado muito acima do 13 (em 20, que era a escala portuguesa de então), que equivalia apenas a Suficiente.


De Samuel a 26 de Agosto de 2008 às 12:02
Cristina
Como não sou prof de português nem membro de júri de prémio literário, bom, é o que é bom para mim... e bom, para mim, é ler "textos simplesmente maravilhosos", aos quais tenha de "tirar o chapéu" e me façam "cantar", mesmo que tudo isto seja por dentro e cá para fora saia apenas um deliciado "Bom texto!", que traduzido para açoriano terceirense, diz-se "estou-me consolando!"

Daniel
:)))


De Cristina a 26 de Agosto de 2008 às 15:03
Queridos Samuel e Daniel.

Peço desculpas pela gracinha fora de hora, descuido meu, mas, ainda em minha defesa , gostaria que percebessem que usei o "bom" = "maravilhoso", no mesmo comentário a falar com o Rui.
Samuel, não fora minha intenção diminuir a tua avaliação, e sim resaltar que só tu poderias cantar uma bela canção.
Houve uma falha técnica de minha parte. Ah, também não sou professora, não faço parte de juri algum, e sou apenas uma apreciadora dos textos de Daniel, Rui e também os seus Samuel.
Vocês são TDB ( Tudo de bom).
Beijinhos.


De Samuel a 26 de Agosto de 2008 às 15:57
Cristina

Então, amiga?!!! A gracinha foi entendida exactamente como gracinha, teve graça e a minha piada sobre professores e tal... era com o Daniel, que pelos vistos teve de "fato" (estou a aprender...) professores da mesma "raça" de alguns dos meus, o que pelos vistos não nos fez um mal por aí além...

Abreijos


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Há gente assim, com vidas que nunca mais acabam. Seres com a estranha capacidade de se reinventarem mesmo no disparate. De renascerem sempre, após cada uma das muitas mortes que vão tendo em vida. Tolos, há outros que lhes invejam este castigo como se fora uma gracinha para entreter os amigos nas noites frias de inverno ou nas amenas cavaqueiras de verão. São os tolos quatro-estações, que por desconhecerem a primavera das ideias estão condenados ao outono da mediocridade para sempre.
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